Filha da jornalista e romancista Michèle Fitoussi e do jornalista político Nicolas Domenach, especialista em Jacques Chirac, a cineasta francesa Léa Domenach lançou, em 2023, nas salas de cinema gaulesas, um filme em torno de Bernadette Chirac, esposa do antigo presidente francês (1995 – 2007).
Numa entrevista ao C7nema, no âmbito da Festa do Cinema Francês de 2024, quando questionada se o foco em Jacques e Bernadette Chirac era “um assunto de família”, a cineasta sorriu, acrescentando que investigou bastante para fazer “Bernadette – A Mulher do Presidente”, que assume ser uma ficção com as suas liberdades criativas. “Vi muitos documentários, imagens, livros, além de entrevistar muita gente que trabalhou com eles e jornalistas”, explicou-nos a jovem cineasta, nascida em 1983, acrescentando que foi sempre acompanhada em cada etapa da escrita (e também na montagem) por um advogado, pois ao não envolver a família do ex-presidente na produção, teriam de ser cautelosos com a forma como iam abordar as personagens e temas: “Não falei com a Bernadette nem com a sua filha (…) Não sei como é em Portugal, mas a lei francesa protege bastante as figuras públicas. Não é como nos EUA e no Reino Unido, onde há mais liberdade. Creio que é por isso que eles fazem muitos mais filmes sobre pessoas vivas que nós”.
Descrevendo o seu filme como “de época“, Léa inspirou-se nos filmes da década de 90, “no seu colorido e brilho”, para criar uma comédia dramática, dando assim a aparência a todo o seu projeto de “conto de fadas ou fábula”. “Temos mesmo alguém que nos acompanha do início ao fim do filme, como que alertando que estamos numa ficção. Não é um documentário nem um biopic sério, por isso o espectador tem de se deixar levar por uma história estranha. Houve particular atenção nos detalhes, como na comédia e naquilo que podia fazer rir. E se não for à primeira visualização, queria que se rissem de “descobertas” ao segundo visionamento”.

Assumindo que ainda antes de escrever o guião já pensava na Catherine Deneuve para o papel, Léa insiste que o que procurava era mostrar como Bernadette teve mesmo o seu lugar no sucesso de Jacques Chirac, algo que outro presidente francês, Nicolas Sarkozy, sublinha num dos momentos mais marcantes do filme de Léa: “A Bernadette estudou tanto como o marido, esteve no terreno e foi eleita também. Ela tinha conhecimento nas matérias. Não era apenas intuição ou magia quando ela “previu” a subida da Frente Nacional (atual Reagrupamento Nacional). Ela falava com as pessoas, sabia o sentimento que havia na população. Eles estavam ocupados com as sondagens, ela tinha contacto com as pessoas no terreno. (…) Eram outros tempos e ela nunca teve uma verdadeira pretensão de ter o cargo do marido. Ela queria, sim, estar na equipa do marido e nas suas ambições”.
Já a trabalhar num novo projeto, “uma adaptação de banda-desenhada intitulada Peau D’Homme (Pele de Homem)”, Léa explicou ao C7nema o que a leva agora a adaptar o grande vencedor do Festival Internacional de banda desenhada de Angoulême, em 2021: “É a história de uma mulher a quem lhe é destinado um marido, sem ter hipótese de escolha e sem querer casar. É então que a madrinha oferece-lhe uma ‘pele de homem’, transformando a mulher num homem. Com essa pele, o homem com quem estava destinada a casar vai-se apaixonar por ela como homem, e não como mulher”.
Definindo esta nova produção como uma comédia musical, e mencionando “West Side Story” e o trabalho de Jacques Demy em geral, não faltando (claro) o filme “Peau d’Âne” [onde Catherine Deneuve atuava], no qual a banda-desenhada se inspirou no título, Léa diz que neste novo filme pretende dar “um pouco mais de loucura, mudando assim o espírito da banda-desenhada que era demasiado prudente“.
“Bernadette” estreia nos cinemas nacionais a 24 de abril.






