“Queer” traz a batida ‘beat’ de Justin Kuritzkes

Estreia nos Cinemas a 19 de junho

Recriação audiovisual do mais famoso herói da II Guerra nas BDs, Sgt. Rock é um projeto que chegou a 2025 na condição de hipótese, em meio à renovação das adaptações da DC Comics de James Gunn, mas já consta do banco de dados do IMDB com o nome de Justin Kuritzkes nos créditos de argumento. A menção ao escritor californiano é a confirmação do casamento profissional entre ele e o realizador siciliano Luca Guadagnino, para quem escreveu o sucesso Challengerse um filme de culto repleto de controvérsia que acaba de entrar na plataforma MUBI em vários territórios, como o Brasil: Queer. A atuação de Daniel Craig, hoje em destaque pelo Screen Actors Guild Award, tem sido o chamariz dessa adaptação do romance homónimo do beatnik William S. Burroughs (1914-1997) desde a sua primeira projeção, na disputa pelo Leão de Ouro de Veneza, em setembro. Aliás, o mais recente 007 é a escolha inevitável para viver o Sargento Rock de Guadagnino, assim que a Warner Bros. dê sinal verde para Kuritzkes avançar com a dramaturgia.

Num Zoom organizado pela MUBI, o argumentista, famoso nos palcos dos EUA por peças como An Autobiography of my Brother e The Sensuality Party, falou ao C7nema sobre a forma de criação com Guadagnino e Craig.

Não escrevo os meus filmes com atores e atrizes específicos na cabeça, mas quando o nome de Daniel foi sugerido, sabíamos que deveríamos tentar o seu engajamento no projeto. Ao entrar na produção, ele atirou-se de corpo e alma nas filmagens, com muito respeito. Luca rodou tudo em Roma, recriando o México e o Equador de Burroughs em estúdio”, diz Kuritzkes.

Cercado de polémica desde a projeção no Lido, quando incendiou os debates venezianos com inquietações sobre a sexualidade do agente secreto James Bond, “Queer” é um estudo sobre a solidão, centrado na vida de americanos expatriados em territórios latinos no pós-guerra. A sua ousadia não se detém ao facto de escolher um ícone da virilidade, Craig, o mais recente Bond do cinema, no papel de um homossexual solitário no México dos anos 1950 – numa atuação devastadora. O filme ousa mais na sua habilidade de flagrar um moralismo histórico – e não só norte-americano – acerca do desejo e do seu habitual parceiro, o amor.

É um olhar sobre pessoas sós em busca de um idioma particular, em comum, que transcende as fronteiras da linguagem convencional”, define Kuritzkes.

O dramaturgo e argumentista
americano Justin Kuritzkes

Catapultado para os holofotes de Hollywood com Call Me By Your Name (uma produção do brasileiro Rodrigo Teixeira, de 2017), Guadadnino dialoga com a prosa de Burroughs a partir de uma triagem dos interditos do querer. Teve um orçamento de 48 milhões de euros para endossar as suas ideias, embaladas pela banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, vitaminada por uma canção de Caetano Veloso (“Vaster Than Empires”).

A literatura chamada de beat brincou com as palavras e criou um novo cânone, provocante, o que me impôs o desafio de tentar capturar aquele espírito e me imbuir dele”, diz Guadagnino, em resposta do C7nema numa conversa com jornalistas via Zoom, promovida pela Golden Globe Foundation pouco antes de Craig ser nomeado ao troféu de Melhor Ator. No guião escrito por Kuritzkes, fotografado pelo tailandês Sayombhu Mukdeeprom e rodado na Cinecittà, o imigrante William Lee (Craig) passa as noites a beber tequilha e uísque, em flirts com rapazes atrás de sexo. Vive só, cercado por outros americanos errantes como ele, igualmente carentes. Ao conhecer o jovem Eugene Allerton, um ex-soldado (vivido por Drew Starkey), Lee acredita ser capaz de estabelecer uma ligação íntima com alguém. Acaba por levar o sujeito para uma jornada pelo Equador, regada a plantas alucinógenas, em sequências que trazem o realizador argentino Lisando Alonso (de Jauja) no elenco, ao lado da estrela britânica Lesley Manville.

Entrei em ‘Queer’ com uma ideia preconcebida de que escreveria uma história sobre hippies austeros, mas encontrei na suarenta figura de Lee uma figura que transcende esse arquétipo”, diz Kuritzkes, que trabalha hoje numa versão cinematográfica do romance City on Fire, de Don Winslow, à força dos elogios colhidos pela sua imersão em Burroughs.


Pilar da literatura beatnik (conceituada pelo seu interesse por vidas marginais, avessas ao padrão de bom-mocismo da sociedade americana), Jack Kerouac (1922-1969), autor de Pé na Estrada” (“On The Road”), chamou Burroughs de “o maior escritor satírico desde Jonathan Swift”. O romancista Norman Mailer (1923-2007), famoso por Os Nus e os Mortos, dizia que o colega beat era “o único escritor americano que pode ser concebivelmente possuído pelo génio”. A acusação que Burroughs recebeu depois ter assassinado a sua mulher, Joan Vollmer, com um tiro supostamente acidental, disparado quando estava enfrascado de aguardente, em 1951, ampliou a sua fama de maldito. A despeito dela, ele firmou o seu nome como marca essencial para a representação da homoafetividade no pós-Guerra, e ampliou o seu prestígio com a experiência de linguagem The Naked Lunch, de 1959. “Eu não tinha lido ‘Queer’ quando me comprometi com o Luca, mas conhecia ‘The Naked Lunch’ e encontrei uma vertente doce e terna nele”,diz Kuritzkes. “Existe todo um universo de bares que Burroughs criou na sua cabeça. Foi desafiante tentar recriá-los em imagens”.

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