“Existem muitos clichês sobre África”: Abderrahmane Sissako procura outros aromas para o seu continente

Quase um ano depois de estrear o seu filme na Berlinale, o mauritano Abderrahmane Sissako chega aos cinemas nacionais com Chá Preto” (Black Tea).

O modo como nós, artistas africanos, unidos por um continente muito diverso, temos para poder reagir à violência histórica do colonialismo é refutar o controle simbólico e entender o que os fluxos migratórios de suas nossas nações para outras terras representam para o redesenho geográfico das relações sociais”, disse Sissako ao C7nema, em Berlim, referindo-se ao instinto de migração que rege a protagonista do seu filme. Um devastador “Não!”, dito por uma noiva no altar, antes de confirmar os votos nupciais, ecoa por cada frame onde Black Tea é exibido, reverberando como se fosse uma melodia de emancipação feminina. A palavra soa como um hino libertário que, mais adiante, há de embalar ainda um confronto decolonial, no enfretamento do racismo, afinado com a batalha humanista.

Procurei tratar do tema do racismo sob um foco geracional. Há um jovem chinês que refuta a intolerância racial dos mais velhos. Era delicado operar a questão do racismo numa trama com chineses, para não associar a intolerância histórica à população deles, à China como um povo”, disse Sissako, nomeado ao Oscar, em 2015, por Timbuktu”.Os cidadãos africanos sempre foram rejeitados, e isso aconteceu durante toda a História. Há uma sequência de um jantar, no meu filme, no qual a explosão indignada de uma personagem expõe a reação juvenil à intolerância. O futuro pode ser melhor. Acredito no ser humano”.

Nina Mélo em “Black Tea”


Originalmente chamada de La Colline Parfumee”,história de amor fala de diferentes amores (amor carnal; amor paterno; amor pela pátria) em meio à opressão da xenofobia. O filme começa na Costa do Marfim, no momento em que a jovem Aya (vivida brilhantemente por Nina Mélo) desiste do casamento, e muda-se para Guangzhou, na China, em busca de reinvenção pessoal. Uma loja de chá vai funcionar como microcosmos. Porém, o contexto cultural de opressão racial será o seu maior adversário.

Esta história traz um olhar sobre as mulheres. Trago a perspetiva das mulheres que buscam a liberdade”, diz o realizador. “Existem muitos clichês sobre a África, sobretudo a vitimização. O meu empenho como artista é fintar esses lugares comuns. A injustiça é a maior sequela do colonialismo”.

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