Dominique Abel e Fiona Gordon levam a sua “Estrela Cadente” à FILMIN

A estreia na plataforma de streaming está marcada para 14 de agosto

Quando se fala na dupla Dominique Abel e Fiona Gordon, é inevitável não os associar a uma marca autoral de um certo cinema em extinção. A partir da década de 1980, começaram a desenvolver performances teatrais de forte impulso criativo e cômico. Os realizadores e argumentistas de filmes como Iceberg (2005), Rumba (2008), A Fada (2011) e Paris Pieds Nus (2016) estrearam no cinema em 1994 com Mon Cupidon, fundindo teatro e cinema com um engenho criativo impressionante, partindo da simplicidade e de poucos recursos.

Foi o filme que marcou o nosso encontro entre teatro e cinema”, explicaram-nos Dominique Abel e Fiona Gordon numa entrevista por ocasião da presença da sua quinta longa-metragem, L’étoile filante (Estrela Cadente, 2023), na Festa do Cinema Francês em 2024. “No teatro, sempre adotámos um humor que vinha do cinema — de Charlie Chaplin e Buster Keaton —, por isso fazia sentido levá-lo novamente ao grande ecrã.

Confessando que essa união de duas artes lhes fez ver que nem tudo o que funcionava nos palcos teatrais tinha o mesmo resultado perante as câmaras, principalmente porque junto ao palco tens um público que cria timings e risos que condicionam o espetáculo, Dominique e Fiona encararam esse primeiro filme “como uma aprendizagem” bastante formal, e que serviu para lançar a sua carreira numa indústria onde permanecem até hoje, já com bastantes prémios na bagagem.

Começámos no cinema muito tarde. Já tínhamos entre os 30 e os 40 anos quando fizemos a nossa primeira curta-metragem”, contaram-nos. Acrescentaram que sempre quiseram manter “o espírito naïf” das suas criações teatrais — “pobres em meios, mas de forte índole artística”. “Queríamos transportar isso para o cinema, tal como fizeram os próprios pioneiros da sétima arte. Ficámos entusiasmados ao descobrir as possibilidades que o cinema nos oferecia, como trabalhar com outras pessoas — no palco, éramos sempre apenas dois. Tínhamos um grande entusiasmo em levar uma criatividade que nos permitisse abandonar o realismo. Queríamos que o espectador aceitasse a nossa realidade, como se lhe déssemos uns óculos especiais.

Reconhecendo que o cinema cómico e clownesco que fazem juntos tem cada vez menos representantes, Fiona menciona Roy Andersson, embora com a ressalva de que o sueco é muito mais radical do que eles. Dominique acrescenta Elia Suleiman e Roberto Benigni a uma lista de “clowns” cada vez mais curta na sétima arte contemporânea. É em Aki Kaurismäki que encontram uma estética que lhes agrada profundamente. “Ele é um cineasta a sério — nós somos ‘palhaços’”, brincam.

No seu filme mais recente, a dupla procura equilibrar a atmosfera lúdica do seu universo artístico com os códigos do cinema de género, neste caso o thriller noir. “Desta vez, o quadro criativo era mais rígido, pois tínhamos códigos a seguir. Procurámos um equilíbrio entre o jogo cômico e a atmosfera cínica, niilista e desencantada”, explicou Dominique, acrescentando que muitos desses sentimentos foram inspirados pelas tensões vividas durante a pandemia de Covid-19. “Quando escrevemos o filme, estávamos no meio da pandemia, com inúmeros protestos e manifestações. Isso fez-nos regressar aos tempos da ação direta, como as Brigadas Vermelhas e afins. Na Bélgica, nesse período, também houve ações de rua. Isso inspirou-nos na construção de uma personagem. No filme, não sabemos exatamente o que ele fez, mas sabemos que é perseguido pelo passado. Achamos que poderia ter sido um ativista de esquerda que perdeu um pouco o rumo e se escondeu. Tudo isso também nos conectou com os tempos atuais.

L’étoile filante” (Estrela Cadente)

Em Estrela Cadente, estamos em Bruxelas, onde Boris, um barman, vive escondido há 35 anos após ter estado envolvido num atentado bombista que correu mal. O seu passado ressurge quando uma vítima o reconhece e procura vingança. O aparecimento de Dom, um homem deprimido que se parece exatamente com Boris, oferece ao ex-ativista a oportunidade perfeita para escapar. Boris e a sua namorada Kayoko, com a ajuda do porteiro Tim, tecem uma teia sinistra à volta de Dom. Mas desconhecem a existência da sua ex-mulher, Fiona, uma detetive particular…

Com alguns novos projetos em desenvolvimento, mas sem saber qual será o próximo a avançar, a dupla afirma que o tipo de cinema que faz ajuda-os a manter a liberdade — algo cada vez mais raro numa época em que muitos argumentistas e cineastas recorrem à autocensura para evitar conflitos com grupos ou indivíduos que possam se sentir ofendidos.

A vantagem do nosso cinema clownesco é que, quando fazemos uma piada sobre alguém com deficiência, não estamos a rir da deficiência. Estamos a falar da sua frustração, da sua raiva. O nosso ponto de vista é sempre empático, nunca paródico em relação à condição. Temos sempre a sensação de que essas piadas serão apreciadas pelas próprias pessoas a quem se referem.

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