Há um Teorema para descobrir nas salas de cinema

Aos vinte e poucos anos, a realizadora Anna Novion adoeceu e teve que permanecer enclausurada durante seis meses. Quando voltou ao ativo, seis meses depois, sentiu “uma profunda desconexão”  para com as pessoas da sua idade. Esse episódio da sua vida serviu de motor para a criação de “O Teorema de Marguerite”, uma longa-metragem estreada no Festival de Cannes em 2023, exibida na Festa do Cinema Francês, e que agora chega às salas de cinema a 24 de outubro.

Admitindo que a sua maneira  de iniciar um projeto vem sempre de “um sentimento que viveu e que quer passar para o papel”, Novion explica que pensou em formas de contar a sua experiência de vida, sem falar dela própria, tendo encontrado na ENS (École normale supérieure) e no mundo da matemática a forma de o fazer. “ Este filme não é autobiográfico, mas é certamente muito pessoal. Foi do encontro com os matemáticos e com a Ariane Mézard que conheci um novo mundo. Esta sucessão de encontros levou-me a contar uma história que refletia a minha. O filme construiu-se assim progressivamente. Quando passas meses com matemáticos, absorves o seu rigor. Queria seguir com fidelidade o que me contaram e não segui referências cinematográficas que empolavam o seu mundo e paixão (…) o problema matemático em causa no filme existe. Basta pesquisar na internet pela Conjetura de Goldbach. Interessei-me por esse problema e telefonei à Ariane a questionar se era viável usá-lo no meu filme. Ela disse que sim e seguimos…”. 

Anna Novion

Em “O Teorema de Marguerite” seguimos uma matemática jovem e brilhante (interpretada por Ella Rumpf, revelada por 
Grave), a única rapariga da sua turma, inteiramente dedicada à sua paixão. No dia em que descobre um erro na sua tese, fica destroçada. Num acesso de raiva, abandona a escola e apaga o passado. Mergulha no mundo real, descobre a autonomia, trava amizade com a jovem Léa e faz amor pela primeira vez. Amadurecida pelas suas experiências, é nesta nova dinâmica que vai encontrar a solução para o seu teorema. “Os matemáticos são pessoas habitadas pelo que são e pelo que fazem. No caso da personagem da Marguerite, aquilo que ela tem é mais que uma vocação. É quase uma religião. Eles frequentam alguns seminários, termo que até podemos também encontrar na religião. De certa maneira, a matemática protege a Marguerite do mundo, e fora dela ela sente-se frágil. É esse medo, essa queda do abismo, que a leva a descompensar. Há muitos casos reais deste descompensar. Alguns, nos extremos, suicidaram-se ou despertaram a esquizofrenia neles (…) Tentei captar a transformação psicológica desta personagem, que não é de todo simpática, rumo ao descalabro. Parti da imagem de alguém muito fechada em si e que progressivamente vai entrar no mundo irracional dos sentimentos, algo que vai revelar novos medos. Mas há que assimilar essa forma irracional e os perigos que a acompanham, vivendo fora de algo que pode controlar.”

Confessando que “no início tinha uma imagem da matemática muito abstrata e cheia de clichês sobre os matemáticos”, Novion acrescenta que foi quando encontrou Ariane Mézard, que inspira a personagem que vemos no filme, que estabeleceu um ponto de ligação entre a criação matemática e a criação artística: “A forma como ela falou da matemática fez-me entender como as pessoas se apaixonam por ela. Ela fala com tanta paixão da sua profissão como eu da minha (…) Vi a beleza e poesia da matemática através do olhar da Ariane. A primeira coisa que ela me disse, quando me encontrou, é que os matemáticos eram poetas. Esteticamente já achava a matemática bela quando a via exposta nos quadros, mas através do seu olhar e das suas palavras encontrei novas imagens dessa beleza. Mesmo não entendendo o que via, compreendia – de certa maneira – a beleza de tudo aquilo”. 

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