Apesar de nos dizer firmemente que não tenciona fazer muitos filmes ao longo da sua carreira, a italiana Alice Rohrwacher já tem um conjunto de obras que deixaram a sua marca no cinema mundial. É uma frase grandiloquente, exagerada talvez, diria a própria autora, mas a verdade é que numa conversa recente do festival de cinema mais famoso do mundo, a vencedora do seu Grande Prémio do Júri, Payal Kapadia, nos confidenciar que tem muito em conta o cinema da italiana, sendo “Lazzaro Felice“ (Feliz como Lázaro) um dos seus filmes preferidos.
Nascida em Fiesole, Alice Rohrwacher estudou literatura e filosofia em Turim e Lisboa. Começou a escrever para o teatro e a trabalhar como musicista antes de passar para o cinema – inicialmente como montadora de documentários. Depois de “Un Piccolo Spettacolo“, um documentário que assinou ao lado de Pier Paolo Giarolo, em 2003, ela filmou a sua primeira ficção :“Corpo Celeste“, em 2011. O filme foi apresentado em Cannes (Quinzena dos Realizadores) e selecionado para Sundance, Nova Iorque, Londres, Rio de Janeiro e Tóquio. Seguiu-se “Le Meraviglie” (O País das Maravilhas) e o já referido “Feliz como Lázaro”, distinguidos no Festival de Cannes em 2014 e 2018, respetivamente, na categoria de melhor argumento.
Dois anos depois de assinar conjuntamente com Pietro Marcello e Francesco Munzi o documentário “Futura”, em 2021, ela foi nomeada ao Oscar na categoria de Melhor Curta-Metragem por “Le pupille“, após a presença no Festival de Cinema de Cannes em 2022. O seu novo filme, “La Chimera“ (A Quimera), também estreado em Cannes, chega esta semana aos cinemas nacionais, contando no elenco com Josh O’ Connor, Isabella Rossellini, Carol Duarte e Vincenzo Nemolato, entre outros.
Foi sobre esta obra, que relata a quimera de um bando de ladrões de túmulos antigos e peças arqueológicas, em busca da riqueza fácil, mas também sobre a sua ideia de cinema, que nos encontrámos com Alice Rohrwacher em Lisboa. E descobrimos um pouco mais sobre a busca de Arthur (Josh O’ Connor) por Beniamina, a mulher que perdeu e tenta encontrar no invisível, dando assim uma nova vida à tradicional história de Orfeu e Eurídice.
Quando falei com a Payal Kapadia este ano em Cannes, por ocasião da estreia do “All We Imagine as Light” (Grande Prémio do Júri), ela evocou-a como referência e definiu o “Feliz como Lázaro” como um dos seus filmes preferidos. Como olha para o facto de ser uma referência no cinema?
Não sei se sou uma referência, mas tenho as minhas. E quando falo de referências falo de pessoas que, tal como eu, trabalham para uma memória comum e partilhada. Sinto-me muito perto de realizadores que veem o cinema como um meio e não um fim. Por isso, quando falo de referências não existe uma espécie de verticalidade, mas como se estivéssemos a fazer uma viagem no mesmo barco. Tenho sempre o hábito de ver as coisas por dentro e por fora, perto mas longe, de forma interna, mas também com um olhar estrangeiro, o de quem vê as coisas com grande surpresa. Tento sempre juntar estas maneiras diferentes no olhar para as coisas.

Mas ao ser uma referência, isso não lhe traz uma pressão e responsabilidade extra para o cinema que quer fazer? E não apenas perante os seus pares, que a evocam, mas igualmente vinda dos festivais de cinema, que aguardam ansiosamente um novo filme seu para o exibir?
Não digo que não sinto pressão ou medo, mas isso não é o principal. O que me movimenta é algo que está para além do filme, o meio para alcançar um fim. Faço sempre uma pergunta sobre o que é humano e uma memória partilhada. O que acho mais incrível na arqueologia é que quando pensamos nela, pensamos que os arqueólogos estudam o passado. Os arqueólogos dizem-nos que as civilizações acabam, por isso a nossa civilização também vai acabar. Por isso, olho para o presente como arqueologia do futuro. Ou seja, tenho a pressão do agora e da arqueologia do futuro, que um dia vai encontrar o que fizemos na era do capitalismo. E vão olhar para os nossos filmes, os nossos bens materiais, etc. Essa pressão é bem maior que a outra.
Há realizadores, como o Jonás Trueba, que me disseram recentemente que há festivais e prémios a mais e que isso mexe com a cabeça dos produtores, os quais já pensam em novas obras para estrear neste ou naquele festival. Sente já essa pressão ou apenas pensa no cinema de forma artística?
Penso sempre na minha sobrevivência ao filme e na sobrevivência do filme (risos). E penso sempre em deixar o mundo, senão melhor, igual. Quando estou a filmar estou tão absorvida que não penso muito no que vem depois. Além disso, não sei se é uma coisa boa, mas tenho muita confiança no público. Muitas vezes ouço que os filmes não têm público, mas por outro lado encontro também muito público que não tem os filmes que quer ver. Eu também sou espectadora. Todos somos espectadores, por isso não acredito nisso de que um filme não tem público.
Falando agora deste filme e do conjunto da sua obra, que Itália é esta que olha sempre com grande surpresa?
É uma Itália em que o tempo e espaço são a mesma coisa e em que o espaço sempre nos conta um tempo. Movo-me sempre pelas fronteiras dos contrastes da civilização, pelo passado e presente. É sempre nesse limiar que podemos contar qualquer coisa de novo. Para mim, as fronteiras não são um lugar de separação e conflito, mas de amor e encontro. Até agora, os filmes que fiz acontecem sempre nessa fronteira. Um lugar que poderia ser de conflito, entre vivos e mortos, a natureza e civilização, mas onde encontro um encanto.
Mas existe sempre um peso do passado no presente e dos mortos na vida dos vivos?
Vivemos na época da visualização como algo positivo. Vou fazer um bolo e vou logo fotografar, filmar, registar o momento. A visualização disso, esse poder, não é um valor absoluto, mas apenas nesta época. Existiram civilizações que fizeram coisas incríveis, mas no fim não eram essas visualizações. Hoje, se alguém faz algo e não tem suficientes visualizações, não pode ver isso como um valor. Antes faziam-se coisas destinadas ao invisível. Parecia-me importante, nesta época do visível, contar uma história sobre o invisível.
E pegando nesse conceito de era das visualizações, temos de falar da imagem e do seu poder nos dias que correm. Com o bombardeamento de imagens, vindas de todo o lado, como pensa hoje um realizador, um fotógrafo, um artista visual ou um diretor de fotografia na criação de imagens que causem impacto no espectador e se destaquem?
Não vou partilhar os meus segredos (risos). É demasiado íntimo (risos). Bem, a imagem de cinema é coletiva, criada numa colaboração entre muitas pessoas. É uma imagem necessária, não para vender algo, nem para nós próprios. A finalidade da imagem de cinema é dar a possibilidade a nós próprios de olharmos para as coisas como um estrangeiro. O cinema, como toda a arte, é mercado. Não são coisas diferentes. Mas a arte, no meio da sua forma mercantil, tem a possibilidade incrível de se transformar nos olhos de um estrangeiro. É no momento em que uma imagem dá a capacidade de olhar como o outro que se distingue de todas as outras imagens. Mas muitas coisas podem ser cinema, não existe uma lei.

Não existe uma lei, mas existe uma linguagem. Por exemplo, existe linguagem de cinema e a da televisão, agora inflacionada pelo streaming…
Sempre existiu uma necessidade da “narrativa” e é bem vinda, mas isso é outra coisa. É uma necessidade de “entreter” com a história. O cinema pode ser um pouco mais. Mas confesso, também gosto muito de me “entreter” (risos). Gosto de tudo, depende do momento.
Voltando ao filme, como foi o seu diálogo com os atores, em particular com o Josh O’Connor (Arthur) e a Carol Duarte (Itália), para a construção das suas personagens e eventos?
Bem, antes de tudo, tinha de lidar com dois atores que não falavam italiano. E eu não falo bem inglês (risos). A primeira coisa que tiveram de fazer foi aprender italiano. Esse problema real ajudou na criação das personagens e da sua psicologia. Só o facto de terem de aprender italiano fazia parte das próprias personagens que interpretavam. Eles encaixaram muito bem no que queria e são ótimos. Uma das coisas que mais gosto na escolha dos atores é escolher pessoas que na vida normal nunca se encontrariam. Seja o meu canalizador, seja o Josh O’Connor, que fazem parte do grupo de ladrões de túmulos. (risos).
E por falar em Josh O’ Connor, como surgiu a ideia da sua personagem e do seu dom?
Esta retórica do “dom” é muito comum nos super-heróis, por isso pretendia exatamente o contrário, ou seja, este “dom” é mais um fardo e maldição. Ele não vai salvar o mundo, de todo! A ideia surgiu após travar conhecimento com um grupo de salteadores. Havia sempre um que tinha essa capacidade, esse “dom” de descobrir o vazio (no solo) ou água. Perguntei como conseguiam e explicaram-me de uma forma quase científica (risos). Por isso, a personagem do Josh é como uma galinha dos ovos de ouro e todos o seguem e o aceitam como é por causa disso.
E a ideia do personagem da Beniamina, o amor da sua vida que ele perdeu em circunstâncias pouco claras?
A base de tudo é a história de Orfeu e Eurídice. O Orfeu ficou famoso pelo seu sofrimento. Ele era uma rockstar da mitologia pois fez da sua dor o seu talento. Toda a gente o conhece por causa desse sofrimento. Todos sabemos que ele desceu ao mundo de mortos para buscar a Eurídice, não podia olhar para ela, mas olhou, perdendo-a para sempre. Porque fez isso? Diz-se muita coisa mas o seu sofrimento é a sua condenação. Não existe qualquer futuro radioso para ele. Ele será sempre para todos o homem que sofreu. Queria assim uma personagem que estivesse conectada com o Orfeu, mas com a hipótese de sair da sua dor. É bonito, tem a vida pela frente e encontra a Itália (Carol Duarte), mas ainda assim não consegue sair da sua prisão, do seu destino e sofrimento.
E há conexão da personagem Itália à Itália (país) que fala no seu cinema?
Sim, porque a Itália do filme não é italiana. A Itália (país) sempre foi habitado pelas pessoas que chegavam de diferentes locais. A Itália (personagem) esconde os seus filhos para sobreviver. O meu país faz o mesmo, mas não pode destruir ou congelar-se no passado, tem de seguir em frente.
Tem um novo projeto?
Tenho vários projetos, mas não sei qual vai avançar primeiro. Tinha um projeto que ia arrancar, uma antologia de contos populares. A verdade é que não tenho pressão para isso, nem tenciono fazer muitos filmes ao longo da minha carreira. Mas quero continuar a fazer coisas para o cinema. E cinema independente. Tenho muitas ideias, mas estas são como as plantas. Se começamos demasiado cedo a tratar delas, sem estarem robustas, causamos a sua morte. E há plantas e árvores que crescem muito rápido e até dão frutos em pouco tempo, mas outras demoram muito mais tempo a crescer. Vamos ver…

