Nome reconhecido no teatro e cinema francês, através de filmes como “Jeunne Femme” ou “Passion Simple”, a atriz Laetitia Dosch estreou-se na realização de longas-metragens com “O Processo do Cão” (O Processo do Cão), filme – que venceu a Palma Canina (Palm Dog) em em Cannes- onde atua ao lado de François Damiens, Jean-Pascal Zade e Anne Dorval.
Partindo de alguns casos reais que deram que falar na imprensa, no filme Laetitia é April, uma advogada idealista dedicada a causas perdidas. Inspirada pelo caso de Cosmos, um cão que mordeu três pessoas, ela embarca numa aventura judicial para a defesa do animal. E não tem escolha a não ser vencer o caso. Caso contrário, o seu cliente incomum será abatido.
Foi em Cannes que nos encontrámos com a atriz transformada em realizadora e falámos desta comédia de tribunal que levanta questões sobre as nossas relações com os animais.

Como nasceu este projeto e o que a levou a dar o salto para a realização?
Desde o início da minha carreira de atriz que escrevo igualmente peças de teatro. Estou assim habituada a criar. E comecei a criar porque quero falar de vários temas. Pensei muito em qual seria o papel da cultura e, neste caso, o meu nestes tempos de tantas problemáticas, como a ecológica e feminista. Além disso, era importante para mim conquistar este lugar, embora sempre achasse que não conseguiria ser realizadora. Numa peça trabalhei com um cavalo. O meu produtor viu e disse: se consegues trabalhar com um cavalo em palco, então estás pronta para fazer um filme.
A ideia deste filme veio de diferentes histórias reais que chegaram até mim. Uma mulher veio assistir à minha peça e contou-me a história de um cão que foi a tribunal com o dono e que causou grande burburinho na sua localidade, na Suíça, e provocou também o lançamento de petições. Mas também descobri histórias similares em França e na Bélgica. Aconteceu sempre em cidades pequenas, mas as pessoas envolveram-se muito e as histórias tornaram-se apaixonantes. Foi aí que pensei qu se as pessoas se envolvem tanto sobre esta questão é porque a definição do estatuto dos animais ainda é algo turvo para as pessoas. E onde existe algo assim, nasce a paixão e existe espaço para criar. E foi o que fiz. De forma divertida falo de coisas importantes, não apenas do estatuto dos animais, mas também o das mulheres.
Os cães vêm dos lobos e durante 40 mil anos fomos moldando-os para se tornarem no nosso parceiro perfeito. Com as mulheres foi o mesmo, ou talvez pior (risos).
O filme aborda diversas questões legais,como a ideia de separar o cão do dono nestes processos. Como foi a investigação sobre estas questões técnicas?
Em muitos locais os cães são vistos ainda como coisas, assimiladas por um dono. Mas um cão não é uma coisa, por isso temos de o definir melhor no quadro legal. Pelo menos em muitos países da Europa. Como a minha personagem demonstra em tribunal, no primeiro julgamento, os cães podem ser considerados indivíduos. Claro que o meu filme é uma fantasia, mas trabalhei no guião ao lado de uma amiga minha que é juíza, e foi ela que ajudou na escrita desse primeiro julgamento.

Sempre foi óbvio para si que iria atuar além de realizar este filme?
Sim. Gosto muito e fui inspirada, por exemplo, pelo “Fleabag”, interpretado e realizada pela Phoebe Waller-Bridge, ou pelo Louis CK e o “Louie” ou os filmes do Nanni Moretti. Sigo a mesma lógica do escrever-interpretar-realizar. Atuar é um pouco como escrever e filmar é um pouco como atuar. O certo é queria muito atuar neste filme (risos)!
Pode nos falar um pouco da construção da sua personagem…
Queria fazer alguém que tivesse a minha idade, 40 anos. Alguém que não tem 25 anos e não está muito virada para o #MeToo. É alguém do “mundo antigo” que não sabe como se comportar. E tem problemas em encontrar a sua própria voz. No fundo, está um pouco perdida, mas encontra o poder na convicção que tem em defender o cão e, no processo, a si mesma. Ela descobre-se enquanto defende o cão. Gosto deste tipo de personagens, como a Diane Keaton no “Annie Hall” (…) Mas no fundo houve mais inspiração nos filmes americanos que nos franceses.
O filme começa com uma sequência bem arrojada que muitos podem considerar ultrajante. Era um aviso à navegação do que aí vinha?
Vi um vídeo da Phoebe na receção de um prémio e ela agradeceu à mãe por ela lhe ter dito sempre que, o quer quer ela fizesse, fosse sempre ultrajante (risos). Depois vejo o que ela criou e sinto que às vezes vai longe demais. Mas gosto dessa sensação. Fiz logo essa cena para as pessoas terem noção de onde podia ir e que elas ficassem na expetativa durante o filme disso mesmo. Gosto de colocar as pessoas desconfortáveis num momento, mas também de fazer algo tocante noutro.
Acredita que movimentos como o #metoo mudaram as coisas para as mulheres?
O que eu acho deste movimento é o facto de atores e atrizes serem agora vistas verdadeiramente como colaboradores, e as atrizes não serem apenas consideradas como um objeto numa fantasia vazia. Com isso, elas libertam-se do papel de objetos em que foram moldadas. Isto vai criar uma relação muito mais frutífera entre todos. E é bom mudares de papel. Uma vez ser atriz, outra ser realizadora. E o poder de ser realizadora não tem a ver com o carisma, mas sim com um papel que decides assumir.
Há uma frase famosa no mundo do cinema que diz “nunca trabalhem com animais ou crianças”. A Laetitia trabalhou com os dois. Quão desafiante foi isso?
Sei que é um risco mas adoro trabalhar com animais. Claro que tivemos que trabalhar com treinadores de cães pois sabíamos dos riscos.






