“O patriarcado faliu”, diz Xavier Legrand no tenso “O Sucessor”

Seis anos depois de “Jusqu’à La Garde“, com o qual conquistou o Leão de Prata de Melhor Realização em Veneza, Xavier Legrand voltou a testar os limites entre o drama e o thriller com “Le Successeur” (O sucessor), filme que concorreu à Concha de Ouro de San Sebastián em 2023, passou na Festa do Cinema Francês e chega aos cinemas nacionais a 7 de novembro.

A montagem frenética do filme dá um tónus ainda mais tenso a uma narrativa cheia de mistério. Marc André Grodin conquistou uma série de elogios no papel central: o estilista Ellias Barnès. No auge do seu prestígio na indústria da moda da França, ele é avisado de que o pai morreu de enfarte em Montreal. Ao viajar para o Canadá para o enterro, ele encontra uma cave na casa paterna. Ao abrir a porta, Barbès vai cair num abismo sombrio que expõe crimes.

Na pequena conversa a seguir, Xavier explica a linha frenética da sua estética.

Xavier Legrand em San Sebastián

Assim como “Jusqu’à La Garde“, “Le Successeur” é um filme de monstro. Há uma criatura assustadora que também pode ser bem vulnerável. Como encontrar esse balanço com os atores?

Todo ser humano tem nuances. Tem lugares de sombras na sua alma e lugares frágeis. Começo o processo de criação com o elenco pelas zonas mais humanizadas e sem sombras. Depois vem a imersão no que há de trevas. Neste caso, opero o guião com um protagonista solitário, que gravita de um mundo confortável para um novo e assustador universo.

De novo, numa linha autoral, o inimigo no seu filme é o pai. Qual é a mirada sober paternidade que propõe?

Tento discutir a ameaça que reside no âmago do patriarcado, relativo ao que não funciona nele. O sistema patriarcal faliu e não há mais como aceitarmos as mentiras da vida privada. Junto terror e psicologia para expor vetores universais de um poder masculino histórico em derrocada.

De que forma o cinema de suspense serve como referência?
O género thriller serve-me de calço aqui, de chão. O facto de haver uma cave com segredos ilustra isso. Divirto-me com os códigos da tensão, mas tento complementar o que busco do cinema com elementos inerentes ao jornalismo policial, nas notícias de crime.

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