“Humor e tensão, atração e repulsa”: Ariane Louis-Seize e a sua vampira humanista

Com várias curtas-metragens já lançadas desde 2016, a canadiana Ariane Louis-Seize estreou-se nas longas com “Vampire humaniste cherche suicidaire consentant” (Vampira Humanista Procura Voluntário Suicida), uma comédia negra com alma coming-of-age sobre uma jovem vampira, Sasha, que desde pequena percebe que não é como a sua família: ela tem “um problema” de empatia que a torna demasiado sensível para sensível demais para matar, o que dificulta muito a sua “alimentação”. 

Quando os pais exasperados deixam de a alimentar com as reservas de sangue que acumulam no frigorífico, a vida de Sasha corre perigo. Felizmente, ela conheceu Paul, um adolescente solitário com tendências suicidas que está disposto a dar a sua vida para salvar a dela. Mas o acordo amigável entre eles logo se torna numa busca alucinante para cumprir os últimos desejos de Paul….

Estivemos à conversa com Ariane Louis-Seize, que nos falou um pouco mais sobre esta obra que cruza múltiplos géneros e que estreou na Giornate degli Autori, no Festival de Veneza, passou pelo Festival de Toronto, e chega a 14 de novembro aos cinemas nacionais.

O que a levou a escolher os vampiros como temática da sua primeira longa-metragem? Qual a sua ligação aos filmes de vampiros?

Para o meu primeiro filme, “Wild Skin”, já desejava fazer algo como um filme de vampiros. A personagem desse filme era um pouco estranha e misteriosa. E mandei-a ver filmes de vampiros para se inspirar. Olhando para trás, percebi que na verdade já queria fazer um filme de vampiros sem vampiros. Desta vez, para a minha primeira longa-metragem, queria percorrer realmente esse caminho.

Mas é difícil apontar de onde vem realmente a ideia para este filme. Desde criança sempre apreciei histórias sobrenaturais, comédias negras e filmes de vampiros.

Seja através da vampira, seja através do suicida, o filme fala muito da morte. É um tema que a atrai?

Sim. Creio que em todos os meus trabalhos falo da morte de diferentes maneiras. A morte de uma relação, a morte real de uma pessoa… creio que é uma luta minha contra a ideia de perder as pessoas que amo. Mas um vampiro permite realmente falar das lutas internas humanas. Eles têm de matar pessoas para viver, podem viver eternamente, o que traz questões de solidão e do relacionamento com as outras pessoas. Os vampiros são um ótimo espaço para falar de assuntos profundos da condição humana.

Fala também dos suicidas, que são um tópico sensível. Houve um especial cuidado em falar do tema?

Quando coescrevi o filme com a Christine Doyon pensámos muito na forma como íamos abordar um tabu como o suicídio. É um tópico sensível e não queríamos ser insensíveis. Queríamos algo luminoso e penso que falamos mais de vida que de morte, e da necessidade de nos conectarmos e sermos amados. Mas durante a escrita nunca pensei muito nisso e no final só pretendia falar da vida e da morte de forma aberta.

Ainda assim, no final de completar o guião demo-lo a ler a uma equipa de prevenção de suicídio, só para termos a certeza que não havia nada de errado na nossa abordagem. Deram pequenas sugestões, através de notas, aos diálogos, mas nada de muito significativo pois, como disse, este é mais um filme de vida do que de morte.

E é também um filme de tradição clássica, de alguém que vai contra a família…

Sim. Queria chamar vários géneros a mim: o coming-of-age, os filmes de vampiros, as comédias negras e, claro, os dramas. Mas era o tom que os envolvia e colava num objeto só que dava uma forma diferente ao coming-of-age habitual que vemos nas salas..

O filme tem bastante humor. Como foi incutir esse humor nele?

O humor que vemos no filme é o mesmo que eu e a Christine Doyon temos na vida real. O facto de partilharmos isso facilitou na escrita dos diálogos. E tentamos sempre ter uma fagulha, algo cintilante em cada cena.

Na cena em que a vampira vê primeiro o rapaz, em cima de um contentor, algo me levou ao “A Girl Walks Home Alone at Night”. Esse filme foi uma influência?

Sem dúvida que me inspirou, tal como o “Only Lovers Left Alive” e o “Let The Right One In”. Mas o primeiro filme  de vampiros que realmente me disse algo foi o “The Hunger” com o David Bowie, Susan Sarandon e Catherine Deneuve, o qual senti diferente dos habituais sobre criaturas sedentas de sangue.

Juntamente com o diretor de fotografia, Shawn Pavlin, tivemos longas discussões sobre a estética do filme e vimos todos os fim.es de vampiros desde o “Nosferatu”. Mas é difícil apontar um como influência. Foi um longo processo de imersão neste mundo assustador, mas queríamos encontrar principalmente a nossa visão,  fazer o nosso filme, de forma muito precisa. Por isso, nos sets foi muito fácil o trabalho, pois sabíamos exatamente o que queríamos.

Com o guião foi igual. Quando o terminei tinha a certeza de como queria filmar cada uma das cenas. Sabia exatamente porque as personagens agiam assim e o que sentiam. Ensaiamos muito com os protagonistas e para mim eles não são apenas intérpretes, mas artistas, que podiam contribuir para o filme. Falamos muito e ajustamos algumas coisas nos textos e na intensidade. Os ensaios permitem essa colaboração e facilitam depois o trabalho nos sets onde já não existe essa necessidade, mas certezas.

Creio que trago um novo tom para este género de filmes, pelo vaguear por muitos gêneros e tons.

E vai continuar no cinema de género? Já tem um novo projeto?

Gosto muito de misturar tons, de criar ambientes de estranheza e dos realizadores que se posicionam fora da caixa. Tenho um par de ideias, mas não sei o que virá a seguir. Gosto de misturar humor e tensão, atração e repulsa. Creio que farei mais filmes de género. 

De certa maneira, o filme termina com a hipótese de uma continuação, quiçá até na TV no formato de série. Está aberta a isso?

Algumas pessoas já me falaram disso, mas não sei. Estou aberta a tal, mas não pensei nunca nisso quando fiz este filme. Nunca construí esta história com a ideia de a continuar. Não estou a pensar nisso, mas não ponho a hipótese de lado.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/p42z