Atualmente a preparar uma terceira longa-metragem, Jack Fessenden integrou, em 2017, num artigo da Indiewire, a lista de “11 grandes realizadores independentes com 30 ou menos anos que precisamos conhecer“.
Convidado pela FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento para a masterclass “How I Made Two Feature Films by Age 21” na Outsiders – Cinema Independente Americano, o responsável por curtas-metragens como “The Adults” e longas como “Stray Bullets” (2016) e “Foxhole” (2021) falou ao C7nema sobre a sua carreira e a vinda a Lisboa.
Para quem não tem hipótese de assistir à sua masterclass, como é que conseguiu fazer duas longas-metragens antes dos 21 anos?
A resposta curta a isso leva-me naturalmente ao facto de ter nascido no seio de uma família de realizadores, o que me proporcionou oportunidades desde muito novo. Sei que há muitos cineastas que levam bastante tempo a sentir legitimidade para seguir essa profissão mas, para mim, era parte do negócio da família. Por isso mesmo senti sempre que era uma progressão natural. Sou filho único e passei a minha vida com eles, ora a fazer animações com a minha mãe, ora a carregar uma câmara de filmar ao lado do meu pai e amigos. Tudo começou como uma brincadeira, mas transformou-se em algo mais sério na adolescência. Fiz um par de curtas-metragens com amigos e sempre escrevi a música deles, pois sabia que não podia usar temas com copyright. Se usasse outras músicas, não podia enviar os filmes para festivais. Tudo isto se metamorfoseou em algo que se tornou a minha paixão, desde os meus doze anos.
A parte difícil para mim são os anos e anos que demora a fazer uma longa-metragem. Dos 14 anos até agora fiz apenas 2 longas-metragens e cada uma delas demorou 3,4 ou 5 anos a concretizar. Ficar focado num único projeto durante 5 anos é muito assustador e mudei muito nesse caminho. Por exemplo, aos 16 comecei a fazer o “Foxhole” e só o completei quando tinha 21 anos. Entre os 16 anos e os 21 mudei imenso, mas tentei manter as ideias e temas que estavam no projeto desde o princípio.
Por isso mesmo, estamos a falar de uma avaliação e reavaliação contínua, que pode te fazer confrontar uma versão mais nova de ti, sobre a qual colocas o teu “selo” atual.

Esse tipo de maturidade, do saber esperar tantos anos para completar um filme, não é normal nos cineastas mais jovens.
Sim, acho que tens de falar das coisas como reais, ainda antes de o serem. Quando falo de um filme, quer esteja já rodado ou apenas na fase de desenvolvimento, para mim é como se já existisse. Não é apenas um guião, ou um tratamento. É já é um filme e não vive em nenhuma outra forma. Não estou aqui para escrever histórias ou canções. Estou aqui para fazer filmes.
Creio que tens de ter algo na tua personalidade que te leve a comprometer-te anos e anos com uma ideia. Muitos artistas fazem uma série de trabalhos durante esses anos todos mas, por alguma razão, mantenho-me a trabalhar apenas numa.
Falou da influência da sua família na sua formação como realizador. Podemos no futuro esperar algo de si como “Os Fessenden”, ao estilo de “Os Fabelmans” do Spielberg?
Claro que me disse muito ver a história de um cineasta, cujo trabalho admiro, e que encontrou numa idade tão jovem a sua vocação. E depois ver a forma como os seus pais compreenderam isso à sua maneira. O pai aceitou da perspetiva científica e a mãe no sentido que entendeu que ele era um contador de histórias. É um belo filme e quem sabe um dia faça algo assim.
A minha mãe sempre quis que o meu pai fizesse um filme sobre como ele tinha encontrado o cinema na sua vida, nos anos 70. Por isso, talvez um dia faça um filme de homenagem ao meu pai.
E além dos seus pais, teve outro tipo de influências que o fizeram seguir este caminho? Por exemplo, falou no Spielberg… talvez Scorsese e outros?
Esses dois são dos meus favoritos há muitos anos. Particularmente o Scorsese, que sempre me surpreende pela tenacidade como a cada um dos seus filmes parece se reinventar. Ele não segue apenas padrões, mas constantemente faz experiências. Não existe outro cineasta que me faça levantar da cadeira e desejar fazer filmes como Scorsese. A cada filme parece querer experimentar novas ideias. Também gosto muito dos irmãos Coen e cresci muito influenciado pelo Miyazaki. Porém, quando estou a escrever, nunca penso em influências individuais. Por exemplo, neste momento estou na fase de escrita de um projeto e evito ver muitos filmes. E há, claro, o Hitchcock, que esteve sempre presente no meu crescimento através do seu pensamento. O meu pai ensinou-me a filmar e planear logo tudo à maneira do Hitchcock.
Quando a Indiewire o colocou naquela lista dos cineastas com menos de 30 anos a seguir, isso não trouxe uma enorme pressão para cima de si? É que daqui a 10 anos pode surgir um artigo ligado a esse a dizer: “Onde estão os cineastas que eram grandes promessas há anos?
Claro que a citação deles é ótima para usarmos no dia a dia (risos), mas temos de viver para essas expectativas. Sim, sinto uma enorme pressão e responsabilidade pelas oportunidades que tive de fazer filmes originais. Mas tento não deixar isso guiar o meu processo. Tenho um caminho que quero percorrer e quero fazê-lo por mim e mais ninguém.
Tinha 17 anos quando isso surgiu na Indiewire e foi uma enorme surpresa. Mas sim, uso muitas vezes essa citação (risos).
Disse que tem um caminho a percorrer. Tem um método? Onde fica a intuição no meio disso?
Agora que tenho já estas duas longas-metragens na bagagem e uma terceira a caminho, consigo observar que tenho um processo que não caiu em nenhum tipo de rotina. Consigo ver as tendências naturais que me guiam: como escrevo, como abordo determinado material. Tendo já filmes no currículo, consigo observar e circunscrever esses padrões. Muito disto vai estar na masterclass que vou dar, sobre o meu processo, como trabalho e como isso tem funcionado para mim. Na verdade, acho que o meu processo não funciona plenamente, por isso quero trabalhar ainda mais e mais. Olhando de fora, e tendo em conta que efetivamente já tenho obra feita, a ideia é ver como isso tem funcionado e como devemos pensar num filme como um filme e não noutra forma (guião, em desenvolvimento, etc). O compromisso com uma ideia é como um ato de fé, temos de acreditar em algo que não está ali, mas está. E tu, mais que ninguém, tem de acreditar nisso. E tento manter sempre colaborações sãs, dentro e fora do set de filmagens. É fundamental pôr o ego de lado. Um filme não é sobre ti, mesmo que sejas tu que tenhas o filme na tua cabeça. Queres as pessoas a bordo do filme e não contigo. Se eles entenderem a tua visão, isso é mais importante que seguirem todas as tuas palavras. Tens de pôr o ego de lado e ser apenas o mensageiro do filme.

Falou em visão, por isso pressuponho que quer seguir a linha do ”autor”.
Sim, quero ser um autor. Até agora, em todos os filmes que fiz, fui o realizador, escritor, montador e compositor. A música é algo que me acompanha há mais tempo que o próprio cinema, por isso é a derradeira assinatura que coloco nos meus filmes durante a pós-produção. A música é uma forma mais abstrata de storytelling onde posso meter as mãos num teclado e deixo sair as emoções. Normalmente, olho para o ecrã enquanto toco e escrevo a partitura. Pessoalmente, vejo o meu trabalho sempre como a realização, escrita e montagem. São esses três elementos que acredito que contam a tua história. Normalmente, a música não fica a cargo do realizador, por isso, no futuro, vejo-me a abandonar essa parte do processo e a trabalhar com compositores que tenham mais experiência m. Porém, até agora, tem funcionado para mim trabalhar também a música, ajudando-me a construir a minha visão e a entender que tipo de filmes faço. Neste momento, trato estes elementos com muita proximidade, o que me permite também ver algumas fragilidades.
E com essa ideia de autor, como vê as críticas que são feitas aos seus filmes? Lê críticas aos seus filmes ou afasta-se delas?
Felizmente, os meus filmes são ainda pequenos e pouca gente os vê, por isso não existem assim tantas críticas (risos). Mas leio sempre. Quando lancei o “Stray Bullets”, a minha primeira longa-metragem, fiquei muito satisfeito da forma como foi recebido. Tinha 16 anos e achava que as pessoas iam pensar que os meus filmes eram uma piada. Porém, elas foram ver e escreveram, como se fosse um filme “a sério”. Lembro-me na época sentir-me muito inspirado e feliz por ver o meu nome na Variety, The Hollywood Reporter, etc. De levarem o meu trabalho a sério e de observarem certas coisas que nunca me tinha apercebido. Isso, sem dúvida, foi o que mais me fascinou. As críticas, até mesmo nas partes em que falam apenas do enredo, podem conter interpretações diferentes das coisas, expandindo a tua própria interpretação sobre tudo. É bom ler isso tudo, mas nunca penso nelas quando estou a escrever, por exemplo.
Quando faz um filme como “Foxhole”, por exemplo, existe intrinsecamente – na avaliação do círculo de violência durante três guerras diferentes em que os EUA estiveram envolvidos – uma forma política de observar as coisas. O seu cinema vai ter no futuro sempre uma dimensão política?
Fazer filmes tem sempre auma perspectiva social. Normalmente sei que uma ideia que tenho é boa quando fico acordado à noite a pensar nela. A pensar na nossa sociedade e como as pessoas são. Por isso, quero manter isso nos meus filmes e perceber as coisas de uma perspetiva humanista. Empatizar com muitos pontos de vista diferentes e deixar a decisão para o espectador de onde eles devem estabelecer as suas linhas morais. No “Foxhole”, todos em cena tentam fazer o que acham correto. Por isso, posso dizer que sim. Todos os meus filmes serão políticos, pois se não for assim não vale a pena trabalhar. Acho que os filmes não se devem esgotar no entretenimento. Sim, o entretenimento é importante e penso sempre nas audiências quando faço um filme, mas no meu processo pessoal sinto que posso sempre articular isso com a minha visão das coisas. Não me envolvo em discursos políticos, pois sinto que não o consigo fazer através das palavras, por isso uso os meus filmes para isso. E posso abordar temas intemporais como os que vemos no “Foxhole”.
A minha escrita vem muito da pesquisa, ora de elementos históricos ou de eventos reais. Há sempre um fundo de verdade neles, para não sentir que a escrita é simplesmente todo um ato de invenção. E depois deixo as coisas ganharem a sua importância na minha mente.
Disse que estava já a trabalhar num novo filme, pode falar dele?
Posso falar muito vagamente: é sobre a crise da água no oeste americano. É a região mais desenvolvida da nação, mas aquela com maior escassez deste recurso natural. Essa é a base do meu filme, ou seja, usa esse conflito.
No início falou do Miyazaki como influência. Tenciona experimentar o cinema de animação no futuro?
Não sabemos onde a animação nos vai levar no futuro. A minha mão é animadora de stop-motion, por isso sou muito familiar a esse mundo. Mas, sinceramente, acho que não.
Sou alguém muito fixado em atores e rostos. Veja-se o “Foxhole”, é só caras e close-ups num buraco (risos). Interessam-me mais pessoas reais e não figuras desenhadas e por isso não me vejo seguir esse caminho. Mas quem sabe…
O Miyazaki foi acima de tudo uma influência pelos temas que aborda no seu cinema: questões ambientais e a relação do homem e da natureza. É um belíssimo contador de histórias.
E como vê o futuro do cinema? Quando faz um filme pensa sempre no grande ecrã ou já pensa em streaming?
Penso sempre no grande ecrã, até porque se existe um filme que queira ver, tento sempre vê-lo no cinema. Esperei até aos 18 anos para ver o “2001” numa sala e já o vi várias vezes depois disso, sempre num cinema. Esperei e valeu a pena esperar.
Todos podemos lamentar a queda do grande ecrã, apesar de eu achar que ele não vai acabar. Creio que existirão sempre alguns cinemas que vão continuar a exibição tradicional. Creio que apenas existe uma nova forma de ver filmes, o que não acho que seja do todo uma coisa muito má. É uma forma de os ver muito mais privada, de meditação. É também uma experiência em si ver os filmes sozinho, na tua casa. Se tiveres uma televisão e sistema de som decentes, a experiência pode ser muito envolvente. É como se fosse uma forma de meditação, uma experiência privada. É algo que me diz muito também.
Por exemplo, durante o Covid-19 os filmes foram a minha terapia. Vi-os sozinho, em quarentena, e ajudaram-me a superar tudo aquilo. Acho que o cinema vai sempre existir, seja em espaços privados ou coletivos.
A meu ver, hoje em dia as minisséries são o formato mais apetecível, em termos de storytelling, onde tens 6-10 horas em vez das 2 horas compactadas de um filme. Acho isso interessante e quiçá um dia experimente, mas neste momento o formato de 90/120 minutos de um filme permite realmente conhecer um realizador por todas as suas opções. Todos estes formatos visuais que vemos hoje em dia têm como génese o próprio cinema. Devemos reconhecer isso e continuar a ir às salas de cinema.
Vemos muitos jovens do cinema independente a serem recrutados para o universo da Marvel. Pegando nas questões que falámos anteriormente, e voltando a falar de Scorsese, o que acha do que ele disse sobre os filmes da Marvel não serem cinema? Como se posiciona em relação a esse tópico e como vê a ida de cineastas independentes para a Disney?
Creio que as pessoas chocaram com a suas palavras pela semântica. O que ele disse é que os filmes da Marvel existiam para nos dar a sensação de montanha russa ou de visitar um parque de diversões. São uma experiência previsível, mas todos sabemos ao que vamos: no final, tudo se resume a monstros em CGI a lutarem contra outras criaturas CGI. É um processo criativo, claro, todo movido pelo espetáculo. Acho que o cinema-espetáculo não deve ser dominado apenas por algo como a MCU. Por isso adorei um filme como o “Top Gun: Maverick”, que é maravilhoso com todos os seus efeitos práticos. Precisamos mais desses filmes. Precisamos diversificar os blockbusters e não os deixar todos entregues a um estúdio.
How I Made Two Feature Films by Age 21 — Masterclass de Jack Fessenden – entrada livre
8 março, quarta-feira, 17h
Grande Auditório da Faculdade de Belas Artes (Lisboa)




