Nikolaus Geyrhalter: “A Terra vai sobreviver. Quanto à humanidade, não tenho a certeza”

"Lixo fora do sítio" é o filme do mês de março da Zero em Comportamento

(Fotos: Divulgação)

Ao longo de quatro anos e vários continentes, da Áustria aos EUA, com uma passagem marcante pelo famoso festival Burning Man no Nevada, o realizador Nikolaus Geyrhalter seguiu o rasto do lixo em cidades, encostas, montanhas e oceanos.

Acompanhando o “ciclo do Lixo”, desde a recolha, ao transporte e, finalmente, até à eliminação, Geyrhalter faz uma verdadeira viagem hipnótica à humanidade e como esta tenta resolver um problema que criou.

O resultado final foi “Matter out of Place” (Lixo fora do sítio), um documentário observacional que é o filme do mês de março da Zero em Comportamento.

Foi em Locarno, na Suíça, em agosto passado, onde o filme teve a sua estreia mundial e saiu premiado, que nos sentámos à mesa com Nikolaus Geyrhalter e falámos do seu filme e dos desafios da humanidade.

Muitas vezes, diz-se que os filmes com violência estilizada glorificam a violência. No seu caso, temos um aspeto curioso: algo terrível e nefasto para o planeta, o lixo que produzimos, mas a sua abordagem cinematográfica transforma as pilhas de sucata em algo esteticamente bonito, como se fosse uma verdadeira composição artística…

(risos) É verdade. Antes de tudo, o cinema é um lugar onde a beleza é permitida. Podemos ter conteúdos horríveis, mas apresentar de uma maneira bela. É um pouco como o World Press Photo: temos algo terrível (Guerra, Fome, etc) transformado numa obra de arte fotográfica. A Artesania da fotografia ajuda nesse “embelezamento”.

A direção de fotografia é excecional e muitas das imagens que vemos têm particular impacto quando vistas no grande ecrã.

Este é um filme feito para o grande ecrã. Quando filmamos em locais de difícil acesso e de grande magnitude, as coisas funcionam sempre melhor numa sala de cinema. O mesmo acontece com o som, que numa sala de cinema produziu um maior efeito no espectador. (…) Não tenho nenhuma influência direta, que possa nomear, sobre as imagens que captei e a forma que o fiz. Mas como sou eu mesmo que lido com a câmara de filmar e venho do mundo da fotografia, o meu olhar será sempre muito fotográfico.

Neste filme temos máquinas de todo o tipo a lidarem com o lixo. Algumas escavam, outras removem, e temos algumas que transportam e compactam. É como se fosse um “ciclo do lixo”. O filme dedica uma boa parte do seu tempo a essa questão, até porque essas máquinas, um dia, também se transformarão em lixo…

É fascinante ver como a humanidade lida com este problema. E vejo o filme também como uma espécie de recolha de imagens de arquivo para o futuro. Em 2022 é assim que lidamos com o lixo. E esta é a tecnologia com que lidamos com isto.

Nikolaus Geyrhalter em Locarno

Há alguns documentários, como o “The Story Of Plastic”, que falam que na Europa é possível a reciclagem como a conhecemos porque exportamos esse material recolhido para os países asiáticos, onde a mão de obra mais barata consegue fazer a verdadeira separação do que é reciclável ou não.

Sim, isso é parcialmente verdadeiro…

A reciclagem tornou-se assim também um negócio. Como vê isso?

Não é apenas a reciclagem que é um negócio. O lixo também é. Pelo menos no mundo ocidental.

E vemos isso, em vários momentos, no seu filme. Como escolheu os locais onde recolheu as imagens?

Eram locais que conhecíamos e outros que fomos descobrindo, como uma incineradora bem perto de onde vivíamos. O curioso desses espaços é que são intermutáveis, ou seja, confundem-se uns com os outros pelas suas características. No caso da incineradora, eles foram muito amigáveis e ajudaram-nos muito no processo de recolha das imagens. Com exceção da região do festival Burning Man, que é realmente um espaço único, este filme nunca foi tanto sobre os espaços representados, mas como os humanos depositam e depois removem o lixo em todos os cantos.

A questão do Burning Man é essencial para ver “a caça” ao lixo depois do evento terminar… É, aliás, a partir do Burning Man que nasce o nome original do filme, “Matter out of Place”.

Exato. A organização do evento realmente limpa o deserto depois do festival acabar. É o que fazem e o que querem fazer. Colocámos essas sequências no fim do filme pois mostram muito bem como funciona a humanidade.

O seu trabalho no cinema lida com muitas questões de como a humanidade se relaciona com a natureza. O que o impele a seguir essas questões desde o início da carreira?

Não sei verdadeiramente responder a isso, mas creio ser a minha curiosidade em entender um pouco melhor a humanidade. Na verdade, podemos essencialmente escolher qualquer tópico para entender um pouco mais sobre essa humanidade. Este é um filme sobre lixo, mas também sobre nós. Para mim, este é um filme que levanta muitas questões que vão além do que fazemos com o lixo.

Sim, porque apesar de olhar crítico sobre o Homem, existe igualmente um fascínio por ele?

(risos) Sim, diria mesmo um fascínio crítico.

As imagens que capta mostram o lado destruidor, mas também o lado de oposição e que procura voltar atrás e travar o problema. Crê que a humanidade tem futuro?

Boa questão (reflete uns largos segundos)…

A Terra vai sobreviver. Quanto à humanidade, não tenho a certeza. O certo é que temos razões para nos preocupar. (…) Há gente a mais no planeta para os recursos que temos. E demasiada tecnologia (a consumir recursos). Continuamos a produzir e produzir e as coisas acabam no lixo. Todos nós usamos coisas e coisas, mas não temos realmente a noção completa do impacto dessas coisas para o planeta.

E como vê estas novas figuras que surgiram para lutar contra a destruição do planeta e que falam da emergência climática? Pessoas como a Greta Thunberg, que marcam uma nova geração…

São ótimas. O que elas fazem é necessário. No passado, especialmente na Europa, tudo estava à mão, era barato, estava ali. Ninguém pensava no dióxido de carbono e vivíamos tudo como se fosse inesgotável. Agora temos de pagar por isso e esta geração quer fazer um voltar atrás. Vejo isso nos meus filhos: não andam de carro, andam de bicicleta.

Creio que se não fizermos as coisas que eles dizem, vai ser ainda pior no futuro. Pior e mais difícil. Não nos vamos extinguir no imediato, mas aos poucos. Começa pelas mudanças sociais, com as migrações derivadas das mudanças climáticas que tornam certos locais impossíveis de habitar. Especialmente nos países mais pobres, a tendência será sair deles. Mas, essencialmente, nós – o chamado “1.º mundo” – vivemos a boa vida e os outros é que sofrem. Os países árabes estão “tramados”, por exemplo. A estabilidade do planeta está em risco.

Tem de haver uma maior educação sobre a questão em todo o lado. Não apenas no 3º Mundo. Por exemplo, cá as pessoas pensam que basta meterem as coisas num caixote do lixo que fazem o seu trabalho. Não! O que deitaram fora é lixo que produziram. Todo o processo de recolha, reciclagem, incineração, etc, tudo isso leva ao gasto de energia que por sua vez polui o planeta e deixa a sua pegada. As pessoas creem que só pelo facto das coisas que usam serem recicladas, que o seu trabalho está feito. A reciclagem exige energia e esta deixa a sua marca…

Locais, Datas, Horários e Preços

Cinema City Alvalade • 7 Março 2023 • 21:30 • Preçário em vigor no cinema
Biblioteca de Marvila • 17 Março 2023 • 21:30 • 4€ • Com a presença de Joana Guerra Tadeu, Ambientalista Imperfeita
Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras) • 24 Março 2023 • 21:00 • 4€*
Biblioteca de Alcântara • 25 Março 2023 • 18:00 • 4€

Últimas