Naomi Kawase: “O Japão ainda tem uma cultura muito conservadora”

(Fotos: Divulgação)

Numa entrevista ao C7nema, a japonesa Naomi Kawase, que lidera o Júri da Competição Internacional da 44ª edição do Festival Internacional de Cinema do Cairo (CIFF) (13 a 22 de novembro), afirmou que um dos dons que a humanidade possui é a capacidade de concentração e foco, mas que, com a chegada dos aparelhos mobile, essa mais valia está a perder-se.

Como exemplo, a cineasta falou da utilização massiva desses aparelhos por parte das audiências quando está a assistir a um filme: “Aqui, no Cairo, tive a oportunidade de ver alguns filmes em sala. Surpreendeu-me muito perceber que as pessoas no cinema mexiam muitas vezes nos smartphones. Acho que estes aparelhos realmente tornaram-se elementos de distração, criando potencialmente uma situação em que um dos nossos melhores dons, a atenção e o foco, estão a ser interrompidos por eles. Preocupa-me isso e o futuro da humanidade no sentido da ausência de foco em algo com um pouco mais de duração. (…) No Japão temos uma filosofia de que se fizermos algo bem, isso vai levar a algo mais. É muito importante as pessoas continuem a manter o dom da concentração e foco, sem se distraírem com facilidade com estes aparelhos mobile.

Kawase prepara atualmente uma nova ficção (com Cannes na mente), mas sempre com um olhar documental nas entrelinhas. Temas como a maternidade, a condição da mulher japonesa e a tradição estão frequentemente em foco no seu cinema, explicando a realizadora as suas motivações: “O Japão ainda tem uma cultura muito conservadora, com as mulheres a não terem ainda as mesmas oportunidades, quando se tornam mães. É verdade que, no mundo artístico, quando as mulheres se tornam mães, não são tão prolíficas nas suas carreiras, mas uso isso nos meus filmes para mostrar como no fundo é uma vantagem que aprofundou a minha carreira. Creio que isso me permitiu progredir de uma maneira bastante única.

E esse conservadorismo explica igualmente porque Kawase continua a ser a única realizadora nipónica a atravessar fronteiras e impor o seu cinema no circuito de festivais de cinema internacionais: “Estamos muito atrás em relação ao resto do mundo no que diz respeito a mulheres cineastas. Quando olhamos para Cannes, por exemplo, temos normalmente 3-5 filmes de mulheres na competição em 20 ou mais concorrentes. E nesses 3-5 filmes, sou a única mulher do Japão que está presente. Creio que países como a China ou Coreia deram passos em frente em relação a isso, mas o Japão não. Num olhar mais abrangente, em termos culturais e turísticos, o Japão está mais focado na economia em torno disso do que na real partilha cultural. Um dos meus desejos é que a cultura (e não a economia dessa cultura) seja uma das prioridades para o futuro“.

Nascida e criada em Nara, a realizadora também abordou o seu fascínio pela cidade e porque a utiliza nas suas obras: “Nara é uma das cidades mas antigas do Japão, mas o que acho mas interessante na minha perspetiva de Nara, e sendo de lá, é que a sua história milenar prossegue com o meu corpo e alma atualmente. Creio ser importante transportar este respirar de uma cidade com muita história. Se não trouxermos isso, esse passado nela, não conseguimos realmente viver no presente. Era crucial no meu cinema trazer este aspeto para os meus filmes“.

Finalmente, a mais jovem de sempre a ganhar a Camera d’Or no Festival de Cannes, e realizadora de filmes como “Mogari no Mori” (2007), “Hikari” (2017) e “As Verdadeiras Mães“, explicou-nos que continua a pensar no grande ecrã quando realiza um projeto, mas afirmou que já conhece muita gente que não pensa da mesma maneira: “Tenho aprendido, até nas minhas visitas a festivais como Cannes, que os filmes da Netflix nunca são pensados para a experiência em sala, mas sim encarados como streaming. Um dos aspetos bons dos festivais de cinema é que consegues juntar num local específico uma audiência que consiste em pessoas de diferentes culturas e perspetivas de todo o mundo. É muito importante esta experiência comunitária“.

Festival do Cairo prossegue até dia 22 de novembro.

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