Rodrigo Areias: “Em termos de produção, o cinema português nunca esteve tão bem”

(Fotos: Divulgação)

Vai ter uma expressiva participação portuguesa na seleção do filme vencedor da 46ª Mostra de São Paulo, uma vez que o produtor e realizador Rodrigo Areias integra o júri do evento, que será encerrado nesta quarta-feira. Ele analisa uma fornada de 12 títulos, escolhidos por votação popular, ao lado de um par de cineastas: Lina Chamie (“A Via Láctea”) e André Novais Oliveira (“Temporada”). Durante a primeira semana de programação, o festival paulista computa os votos do público das longas-metragens que participam do evento. As obras da Competição Novos Diretores que forem mais bem votadas, serão submetidas aos jurados. O vencedor leva o Troféu Bandeira Paulista, uma criação da artista plástica Tomie Ohtake, na categoria Melhor Filme. Os jurados também podem premiar obras noutras categorias. Os vencedores serão anunciados no dia 2 de novembro, durante uma cerimónia na Cinemateca Brasileira.


A lista dos títulos mais votados inclui:

AFTERSUN, de Charlotte Wells (Reino Unido e USA)

BELAS CRIATURAS (Berreymi), de Guðmundur Arnar Guðmundsson (Islândia, Dinamarca, Suécia, Holanda, República Tcheca)

BIOCENTRICOS, de Fernanda Heinz Figueiredo e Ataliba Benaim (Brasil)

DALVA, de Emmanuelle Nicot (Bélgica e França)

HARKA, de Lotfy Nathan (França, Luxemburgo, Tunísia, Bélgica)

JOYLAND, de Saim Sadiq (Paquistão)

LA PARLE, de Fanny Boldini, Gabriela Boeri, Kevin Vanstaen, Simon Boulier (França e Brasil)

LUXEMBURGO LUXEMBURGO, de Antonio Lukich (Ucrânia)

PLAN 75, de Chie Hayakawa (Japão, França, Filipinas, Catar)

SALGUEIROS CEGOS, MULHER DORMINDO (Saules Aveugles, Femme Endormie), de Pierre Földes (França, Canadá, Holanda, Luxemburgo)

UM SAMURAI EM SÃO PAULO, de Débora Mamber Czeresnia (Brasil)

UÝRA – A RETOMADA DA FLORESTA, de Juliana Curi (Brasil e USA)

Há um ano, a Mostra aplaudiu o trabalho de Areias como produtor em A Távola de Rocha”- Ele já soma cerca de 150 filmes em um currículo de duas décadas de atividade. Um dos seus filmes mais recentes que trouxe para São Paulo nesta edição é o documentário ensaístico sobre a potência da imagem na história ibérica: Objectos de Luz”. A direção é de Marie Carré e Acácio de Almeida. E os dois fazem uma radiografia do cinema português dos últimos 50 anos, a fim de tangenciar a dimensão de transcendência da iluminação de um set. É um delicado exercício filosófico sobre a memória do audiovisual, que nasce num momento em que Areias desenvolve uma longa-metragem brasileira.

Já filmado, Cinco da Tarde”, com direção de Eduardo Nunes, é um dos projetos com o selo Bando à Parte, a produtora de Areias, que também é realizador. O seu histórico atrás das câmeras inclui produções como Estrada de Palha”, western laureado pelo Júri Ecuménico no Festival de Karlovy Vary, em 2012, e “Hálito Azul”, lançado no Brasil em 2020. Tem sempre um longa-metragem ou uma curta do seu “Bando” em algum mostra de peso do Velho Mundo, numa omnipresença, digamos, “brutal”.

Ex-guitarrista e aspirante a ídolo do rock, conhecido pelos acordes da banda Blue Orange Juice, Areias explica ao C7nema os motivos pelos quais preferiu fazer cinema a tocar, produzindo filmes como o aclamado Listen”, de Ana Rocha de Sousa. Laureado com 22 distinções desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prémio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), o drama social celebra a maternidade. Sempre há um valor humano com fôlego nos longas-metragens de Areias, que compartilha connosco as suas impressões sobre a atual realidade brasileira.

O que essa temporada na Mostra de São Paulo, em plena eleições presidenciais, revelou a você sobre o Brasil e qual as parcerias que você vem travando aqui?

Bem, tendo eu estado aqui exatamente há 4 anos atrás, e apesar de ter voltado depois desse momento fatídico também, esta minha viagem é repleta de esperança. Acima de tudo é isso que eu sinto do Brasil… um Brasil esperançoso com o futuro, e isso é muito bonito. As pessoas voltam a sonhar com o futuro, como se estivessem saindo de uma era sombria e densa. Nesse sentido, acho que muitas possíveis parcerias estão vindo. Acredito que, numa primeira fase, seja necessário ajudar, e tendo estado cá não só na condição de jurado da Mostra de SP, mas também no evento Encontro de ideias, vários projetos me criaram curiosidade para poder eventualmente entrar na sua produção. Mas, neste momento, estamos em processo de montagem de “5 da Tarde”, a nova longa-metragem do Eduardo Nunes, um realizador por quem tenho grande estima e amizade.

Como avalia hoje a situação económica da produção de cinema em Portugal? Há público? Que público é esse?

Bem, entre a situação económica e o público existe, para nós, uma diferença substancial. Em termos de produção, nunca esteve tão bem. Nunca existiu tanto financiamento, nem de forma tão democrática e plural no tipo de filmes que se produzem. Quanto ao público, a coisa é mais difícil, pois a pandemia veio desestabilizar as coisas para algum tempo. Em sala, as coisas estão muito difíceis, exceto para um ou dois filmes por ano em torno dos quais se concentram os espectadores, normalmente em comédias populares… mas, depois, existe toda uma outra exploração económica, com streamers, novos canais de televisão etc.

Pensando sobre “Objectos de Luz”, o que o fotógrafo Acácio de Almeida (correalizador dessa fita) te trouxe de mais valioso como lição de vida e de cinema?

Eu já havia trabalhado com o Acácio antes. Aliás, ele é o único ator da minha curta “Cinema” e, nessa altura, o Acácio ficava a contar histórias para o deleite de toda a equipa. No caso do Objectos de Luz, acho que a sua procura é muito genuína, muito honesta e o filme espelha isso mesmo. Há algo até de um encantamento com o universo que é muito bonito. Acho que ele olha para a vida com esse encantamento que é contagiante.

Que linhas narrativas mais interessantes você encontrou no festival paulista?

Há muitos filmes bons na competição da Mostra. O júri só vê os 12 filmes mais votados do público, o que poderia parecer à partida que seriam filmes mais comerciais, mas não é o caso. O que mais encontrei das escolhas do público são filmes sobre traumas violentos, sobre traumas infantis, e a tentativa da sua superação. Acho que é um retrato inconsciente do momento que o Brasil estava a passar na semana passada. Acho que se fosse esta semana, a escolha do público seria muito mais esperançosa.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/cd01

Últimas