Um Pedaço de Céu: “Mirei um suposto Paraíso para abrir as suas entranhas”, diz Michael Koch

Nos cinemas a 29 dezembro

(Fotos: Divulgação)

Sintonizada com a oferta de longas-metragens de língua não inglesa submetidas à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (como o português “Alma Viva”) para lutar por uma vaga na disputa ao “Oscar dos estrangeiros”, a 46ª Mostra de São Paulo flerta com o cinema suíço contemporâneo e exibe Drii Winter” (“A Piece of Sky”), de Michael Koch.

Existe uma complacência com a recepção de filmes em pequenos dispositivos que pode ser combatida quando o olhar de cada um, sobretudo o da crítica, volta-se para o grande ecrã, onde o cinema se encaixa no seu lugar de berço, que não é de conformismo, mas, sim, de puro e grande espetáculo visual”, disse Koch ao C7nema, em Berlim.

Houve um segundo contato com o realizador em Locarno, onde o filme integrou uma esquadra suíça arquitetada pelo curador Giona A. Nazzaro. O atual curador da disputa pelo Leopardo de Ouro e pelo Pardo de Domani procura valorizar a “prata da casa”, que é como se refere à produção da sua pátria, terra de Koch. “Temos hoje, no cinema suíço, toda uma geração que está conectada com o mundo, além de suas fronteiras, criando, de maneira talentosa e corajosa, filmes que expressam a inquietação local. Conseguimos uma comédia LGBTQI+ suíça anarquista e insurgente para competição: um filme de Valentin Merz chamado ‘De Noche Los Gatos Son Pardos’”, disse Nazzaro, citando outro dos títulos de sua nação que estão na Mostra.

Provocante, De Noche Los Gatos Son Pardos, de Valentin Merz, será exibido esta terça, dia 25, às 15h45, no Museu da Imagem e do Som. Mas, acerca dos helvéticos selecionados para a Mostra, nada atrai mais atenção do que Drii Wintere toda a sua imersão na dor. Laureado na Berlinale com uma menção especial, em fevereiro, o drama devastador de Koch tem entrado nas listas dos melhores filmes de 2022 de críticos de todo o Velho Mundo. Nele, o ator e realizador desconstrói a paisagem de postal dos Alpes ao narrar, numa estrutura de tragédia grega, as angústias de um casal diante de uma doença terminal. Um casal num mundinho rural, onde os animais são parte afetiva da vida dos protagonistas, encarnados por atores não profissionais, ligados ao trabalho com gado. “Mirei um suposto Paraíso, onde a Natureza é soberana, para abrir as suas entranhas”, disse Koch ao C7.

Orientada pelo cinasta a despistar qualquer indício de cartão-postal, na exuberância dos Alpes, a fotografia de Armin Dierolf procura sempre evitar planos abertos, e dedica-se a detalhes. Não existe um esmero em se ressaltar a exuberância da vida alpina. As exceções de esplendor estão nas sequências em que o realizador de Marija (2016) precisa mostrar como é o trabalho das suas personagens nas montanhas, como funciona o fluxo de transporte de arbustos por meio de teleféricos e como se dá o cuidado com o gado. Todo o elenco é de intérpretes sem experiência profissional. Os protagonistas são Michèle Brand, como a funcionária dos Correios e atendente de um bar Anna, e Simon Wisler, escolhido como o vaqueiro Marco. São vidas pautadas por uma aparente simplicidade e repetições. “O dia a dia comporta surpresas que se escondem sobre o que chamamos de normalidade. Lá estão as situações inusitadas que nos desnorteiam, por revelarem a nossa essência”, disse Koch  

Acompanhamos um amor regado a raios de sol entre os dois na paisagem de Alois, que é uma remota aldeia alpina suíça. Anna tem uma filha, Julia, de um relacionamento anterior, a quem sustenta a duras penas. Mas a menina é como filha pra Marco. A cumplicidade naquele par é perfeita. Mas um triângulo indesejado – e sem prazer algum – vai devassar a paz entre eles, quando o corpo do rapaz é lastimado por um câncer que lhe devora o cérebro. Uma frase do roteiro expressa o mal que se avizinha: “Uma tempestade levou Marco à força”. Antes de ter um tumor diagnosticado, Marco só demonstrava tristeza quando uma das suas vacas fica doente. Ele tinha a fauna à sua volta como um lar. E não se trata de um desenho ingénuo de personagem. Koch buscou retratar a relevância essencial dos animais e das plantas para quem vive em universos rurais, longe do progresso urbano, sem bolsões de betão armado.

Quis retratar todas as vidas que desenham aquele mundo como se fossem parte de uma só composição simbólica da vida”, disse Koch.


A Mostra de São Paulo termina no dia 2 de novembro.

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