Os Jovens Amantes: Melvil Poupaud e a fúria da paixão

(Fotos: Divulgação)

Especialmente depois de protagonizar “Graças a Deus” de François Ozon, o ator Melvil Poupaud tornou-se num dos mais requisitados do cinema francês.

E enquanto esperamos pela sua presença no grande ecrã sob a direção de Woody Allen (Wasp 22) e Maïwenn (Jeanne du Barry), o gaulês pode ser visto nas nossas salas ao lado de Fanny Ardant em “Os Jovens Amantes”.

No filme, Melvil é Pierre, que após um reencontro fortuito com Shauna, uma mulher de 70 anos, com quem inicia uma relação apaixonada que vai esbarrar com a incompreensão e o preconceito de todos os que estão à sua volta.

Foi em janeiro que falámos com Melvil Poupaud sobre este “Os Jovens Amantes”.

O que o atraiu a este projeto e como foi trabalhar nele?

O elemento perturbador neste filme é a diferença de idades entre as personagens. Ela tem 70 anos e está doente. O que me atraiu é que o filme servia de pretexto para falar deste tipo de relação, recorrendo ao melodrama. 

O tema central é o amor e o espectador entra num jogo de identificação com as personagens. Desde os primeiros instantes que sucumbi ao charme da Shauna e tornamos-nos rapidamente cúmplices. Nos primeiros momentos somos como crianças no primeiro dia de escola, na última fila, a falar e brincar. A Fanny foi buscar um lado bastante adolescente para a sua interpretação. Alguém que provoca, diz sempre o que pensa e  tem tendência a chocar. Alguém que vive pela e para a paixão. Já eu deixei-me levar pela sua forma vibrante de atuar. 

É engraçado, mas no início existia algum medo nela com as cenas de maior intimidade. Os flirts, os abraços, etc. Conversámos sobre isso e disse-lhe que ia tudo correr bem. E quando estávamos defronte à câmara, assim foi. 

Existe na Fanny uma  insegurança quando interpreta este género de papéis. Sentiu isso em palco?

Senti que ela não é uma atriz profissional no sentido de calculismo e método. É alguém que nos faz sentir que este é o seu primeiro filme. Na verdade ela é uma veterana nestas andanças e também realiza, mas efetivamente existe este lado de insegurança. A sua personagem é fascinante e muito mais ambígua do que possam  imaginar. Por isso, nas cenas de paixão, foi curioso, pois parecia que ela não sabia onde “pousar os pés”. Parecia uma debutante. 

Depois, com o passar do tempo, das cenas juntos, chegou a vida. Nisto de filmar, o que conta é o tempo das filmagens. Depois passamos a outras coisas, à nossa vida. Ela olhou para tudo com grande espontaneidade, como um contacto com o real. 

A perturbação que invade a sua personagem  e o transfigura progressivamente foi algo que estava estabelecido no guião ou cresceu posteriormente?

Tudo estava escrito. A Carine Tardieu é extremamente meticulosa, dos diálogos à direção de atores. E como tínhamos o guião da Solveig Anspach, havia um sentido de homenagear e contar a história desta Shauna, inspirada na mãe da própria Anspach. Havia assim uma busca das emoções, dos sentimentos e do rigor em fazer este filme com precisão.

Tendo em conta a história real que serviu de base para o filme, tiveram contacto com a filha da Solveig durante a produção?

Sim, ela esteve nas filmagens um dia, mas creio que ela não queria estar muito próxima do projeto para deixar as coisas acontecerem de forma orgânica. Era muito próxima da pessoa real que estamos a passar para o grande ecrã.

No meu caso, tive acesso ao testemunho do médico sobre a condição real da mãe da Solveig. E a Shauna foi mesmo entrevistada pela argumentista Agnès de Sacy, a qual me enviou os textos sobre esse encontro com ela, a sua paixão. E havia algo de muito carnal  e físico entre os protagonistas. Todos estes testemunhos foram muito emocionantes.

Além de uma história de amor, este é também um conto de adultério. Ou seja, existe um duplo tabu, uma dupla transgressão…

A Carine Tardieu fez um grande trabalho nesse aspecto. A minha personagem e a da Fanny foram atirados para a paixão e ninguém os consegue travar. São todos os outros que sofrem, que estão desestabilizados com a história, mas eventualmente vão reencontrar a paz quando entendem a dimensão da nossa atração.

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