Com quase cinquenta anos de carreira, Fanny Ardant regressa aos cinemas nacionais com um papel daqueles que enchem o ecrã.
Assinado por Carine Tardieu (“Só Para Ter a Certeza”, “Dentes de Leão”), em “Os Jovens Amantes” encontramos Ardent como Shauna, uma mulher de 70 anos que, após um reencontro fortuito com Pierre (Melvil Poupaud), inicia uma relação com ele. Uma relação que vai esbarrar com a incompreensão e o preconceito dos que estão à sua volta.
Foi em janeiro que falámos com a diva do cinema francês sobre este “Os Jovens Amantes”:
Já viveu a paixão em filmes como a “La Femme d’à côté” de François Truffaut e “Un homme qui me plaît” de Claude Lelouch. Como encarnaa paixão que leva ao grande ecrã? Que ferramentas dramáticas busca em si?
É algo obscuro a forma como se interpreta um papel. Intelectualizo muito pouco isso. Construo muito pouco. Preparo-me muito pouco. Tenho sempre confiança no que vai acontecer na cena que vou interpretar. Apenas nesta cena, não penso em nenhuma outra. Na verdade, é mais uma questão de interpretação por parte do espectador. Talvez o espectador me veja diferentemente no “La Femme d’à côté”.
Claro que existe um impulso dramático diferente neste filme, já que acompanhamos os últimos anos de uma mulher. Já me perguntaram muitas vezes como preparei esse papel, mas… quando escolho um papel hoje em dia é porque o amo. Quando vamos para o mar encontramos as algas, as pedras, os peixes… Quando vou para uma filmagem e me coloco disponível sei que tudo correrá bem.
O filme aborda o tema de uma relação que a nossa sociedade vê um pouco como tabu. Crê ser importante hoje em dia abordar esse tema?
Não sei se é importante, mas o que para mim é bizarro é a nossa sociedade, que se diz libertar dos tabus, olhar para este assunto como se as pessoas envolvidas fossem muito corajosas. Falamos destes tópicos desde os tempos dos Gregos, do Édipo, que se apaixona pela mãe, muitos anos mais velha que ele. Depois temos o mito de Fedra, os romances de Balzac, Stendhal e até russos que abordam isso, das mulheres mais velhas que se envolvem com homens mais novos. As pessoas falam disso. Se me pergunta se é importante falar nisso hoje em dia, tenho de lhe dizer que não gosto do cinema que tenta educar as mentalidades. Quero sim que o cinema abra os horizontes às pessoas.

E a Fanny, como encara a paixão?
A paixão é muitas vezes comparada ao amor, mas com algo de devastador inserido nela. Depois de passar por ela, não serás a mesma pessoa. A paixão é algo que nos queima. Para a Shauna, que já tem aquela doença que a fustiga, vai ser o seu fim. (…) Mas, para mim, a paixão em relação ao amor é um sentimento que nos leva acima dos limites, que contrai toda a nossa razão. É algo associal. A paixão não foi feita para construir nada. A paixão foi feita para que vivamos.
Não existe um projeto de vida com a chegada da paixão. Um homem conhece uma mulher, casam-se, têm muitos filhos, pagam os seus impostos e são bons cidadãos. Tudo corre bem. Aí falamos de amor. A paixão por definição é algo que desejamos, mas vemos como perigoso.
E desde quando acredita que o amor é mais forte que tudo?
Desde sempre (risos). Desde os 14 anos que todos os livros que tinham uma história de amor me interessam. Li o Balzac, os russos, tudo isso muito nova. E reli. Era novíssima quando li o Madame Bovary. Eu não dava importância à lei, ao dinheiro, ao poder, mas com o amor era diferente. Também me interessava muito a mística em torno dele.
Quando aceita um papel e fala com o autor da sua personagem, mostra a sua visão sobre esse papel?
Sim, mas não de forma declarada. Preciso ler muito os papéis que me propõem. Não poderia entrar num guião bom, mas que o meu papel fosse mau. Mas não digo nunca que a personagem não me diz nada. Gosto de descobrir coisas em mim que encontro nessas personagens. Lembro-me de atuar no “L’amour à mort” de Alain Resnais. Nele interpreto uma mulher que é exatamente o oposto de mim: altruísta, serena, doce, social, luminosa. Gostei de fazer essa mulher, talvez pelo trabalho do Resnais, e isso abriu-me a mente com o conhecimento que podia habitar essa persona. A visão que falo é o alargar o meu espectro e não ver apenas uma versão das coisas. Trabalhar no teatro e televisão hoje em dia, além do cinema, é uma ótima chance de eu continuar a alargar essa visão.
Depois de aceitar interpretar um papel, a minha postura em palco é a de “podem fazer de mim o que quiserem”.
É um ícone do cinema e já trabalhou com os melhores realizadores e atores. Tem algum método de trabalho? Algo que possa transmitir sobre como encara a sua profissão de atriz?
Deixo sempre a verdade, a realidade chegar até mim. A verdade dos sentimentos. A loucura dos sentimentos. As emoções dos sentimentos (…) Existem as palavras, mas no cinema é o olhar que mais toca. Basta ver um filme estrangeiro, que não percebemos a língua, mas os olhares dizem tudo. Digo isto frequentemente: o cinema e o teatro alimentam-se mutuamente. Fiquei muito impressionada quando era jovem de alguém como o Sean Connery fazer no cinema o James Bond e, paralelamente, todas as temporadas, voltar sempre ao teatro para interpretar papéis, como nas peças de Shakespeare.
Disse numa entrevista que partilha com o Gérard Depardieu uma forma de provocação, mas que tem uma visão mais negra das coisas do que ele. Depois da pandemia, essa visão mais negra aumentou?
Senti que o mundo retrocedeu. A minha liberdade retrocedeu. Havia apenas o pensamento único. Por isso mesmo, vejo o mundo de forma muito negra. Já não existem adversários políticos, mas algo que nos aprisiona a todos. Perguntaram-me muito o que fiz durante os confinamentos. A questão não é essa, mas sim no que nos tornamos. Todo um conjunto de regras abateu-se sobre os indivíduos, os países e a minha visão sobre eles. Não sei se isto vai permanecer. Tudo o que aconteceu pressionou o indivíduo e com isso a sua liberdade. E quando percebermos que estamos seguros, com saúde, mas sem liberdade, aí choraremos.
Crê que os contratos sociais do indivíduo mudaram muito perante essa sociedade?
Sim, há uma invasão do puritanismo e sectarismo. Julgamos e condenamos imediatamente. Claro que têm de existir regras, mas quando a sociedade se torna mais forte que o indivíduo, é grave. Vamos nos tornar ovelhas. Fundamentalmente, sou antissocial. Amo a confrontação, a dialética do confronto político e do ser humano nas contradições e oposições. Fala-se de ordem mundial, ordem sanitária, etc. Ordem é o termo.

