Um dos filmes mais impactantes do Festival de Cannes em 2021 foi “Playground” (Recreio), primeira longa-metragem da belga Laura Wandel, que chegou a estar pré-selecionada para os Óscares mas falhou a nomeação final.
Passado inteiramente numa escola, “Recreio” é um drama que muitas vezes nos leva a uma espécie de teatro de guerra e mesmo filme de horror, mostrando a dureza da entrada no sistema de ensino de uma dupla de irmãos: Nora e Abel. Quando Nora testemunha o bullying que Abel sofre, o seu instinto é protegê-lo, mas num espaço com regras muito próprias e um território bem delineado, essa ajuda acaba por piorar as coisas. Presa num conflito entre a lealdade ao irmão e o medo que algo lhe aconteça, Nora terá de encontrar o seu lugar, dividida entre o mundo infantil e o adulto.
Foi em San Sebastián que falámos com Laura Wendel, a qual nos explicou um pouco mais sobre o seu filme.
“Recreio” é bastante duro de assistir, afinal mostra a escola como um teatro de guerra. O que a levou a tocar neste assunto?
Penso que esta altura particular da infância, em que saímos da bolha familiar e entramos num espaço social, onde encontramos e partilhamos um sítio – como na Bélgica – com jovens mais velhos, é particularmente de choque. É aqui que temos de nos adaptar ao mundo. O que queria explorar era a necessidade de integração e as suas etapas. Também queria tocar na noção de fraternidade dentro dessa comunidade e no processo de integração. Creio que há a ideia que para existir uma integração temos de nos render à massa humana que nos rodeia e aos seus desígnios.
Um dos aspetos interessantes do seu filme é a forma como apresenta um mundo com todo um novo conjunto de regras. Os pais não podem entrar na escola, a Nora não pode almoçar com o irmão na cantina, etc. Pretendia mostrar a escola como um território muito próprio com as suas próprias regras e leis?
Exatamente isso. Existe principalmente um grande sentido de territorialidade. A base do filme foi a Bélgica, mas creio ser assim em todo o mundo. Por exemplo, os miúdos que não jogam à bola normalmente são relegados para as margens desse território. De certa maneira é um género de violência e conta algo sobre a nossa própria sociedade. Essa questão da territorialidade começa na escola e esta traça um paralelo ao mundo em que vivemos.

Pode falar da escolha da câmara estar ao nível dos olhos dos pequenos protagonistas, mostrando assim um mundo enorme perante eles e uma certa claustrofobia?
Queria acima de tudo levar o espectador a uma imersão neste mundo, que ele se transforme naquela criança que estamos a ver. Era uma urgência para mim manter-me sempre no olhar daquela menina, limitando-a. Quando somos crianças, olhamos para as coisas de forma diferente. Muitos de nós já regressamos como adultos a estes espaços e parece-nos tudo pequeno, mas naquela altura tudo era enorme. Era muito importante para mim fazer o espectador participar nos eventos, recriando através da criança tudo o que acontece em seu torno. É a criança que guia a mise-en-scène.
E como foi a sua pesquisa para mergulhar neste mundo. Voltou às escolas? Falou com crianças e psicólogos?
Acima de tudo observei, em particular, a mediação de conflitos entre crianças. Não falei muito com psicólogos, embora tenha contactado com um especialista do meu país. As mediações a que tive acesso eram super-interessantes, especialmente no que concerne à catalogação dos jovens e os mecanismos do bullying, ou seja, o perpetrador e a vítima. O que observei é que qualquer um dos jovens tem de passar por esses estados diferentes para entender o que sente o outro e ter empatia por ele.
Como eu disse anteriormente, existe qualquer coisa de filme de guerra no “Recreio”, mas igualmente de filme de terror psicológico. A todo o momento sentimos que algo terrível vai acontecer. Como criou esse ambiente, ou seja, era algo já muito detalhado no guião ou foi algo que teve maior incidência na montagem?
Fala-se muitas vezes em thriller e filme de terror, mas a verdade é que nunca pensei no meu filme nesses termos. Porém, acho super interessante as pessoas verem assim as coisas, pois significa que consegui mostrar – como queria – a angústia. E não queria apenas mostrar essa angústia, porque quando somos crianças temos igualmente muitos momentos leves e descontraídos. Na infância, especialmente a que vimos aqui retratada, existe a crueldade, mas igualmente poesia.
A interpretação da pequena Maya Vanderbeque é impressionante. Como a encontrou?
Fizemos um casting. Ela nunca tinha atuado e o que achei mais interessante – especialmente porque tinha 7 anos – é que ela disse-me diretamente que “ia usar toda a sua força para este filme”. Fiquei impressionada com essa frase e a sua voluntariedade durante as filmagens foi incrível.
O que procurava no casting não era uma repetição de frases do guião, mas sim encontrar o que as crianças podiam trazer para as personagens. A força da câmara é essa, captar coisas que não vemos à partida. Nela vi coisas incríveis.
Outra das suas opções curiosas foi nunca sair da escola, daquele espaço e das suas fronteiras. Temos apenas um elo de ligação exterior que é o pai das crianças, também ele notoriamente com alguns detalhes que nos levam a perceber um pouco da sua vida…
Nessa questão do pai, voltamos à catalogação e etiquetagem a que as pessoas estão condenadas. Nós não sabemos muito dele, além de percebemos que está desempregado. Para os filhos, particularmente a Nora, tudo é normal, mas para os outros não é bem assim. Ora essa forma como os outros olham para o pai vai influenciar e mudar um pouco a perceção dela perante ele. Aqui voltamos igualmente ao tema da integração, que também afeta o irmão. (…) Uma das coisas que me interessa muito, até para o futuro, é partir do micro para o macro, sempre com uma personagem como ponto de partida. (…) o meu próximo filme vai voltar a focar-se num microcosmos, mas desta vez num hospital.

