Um dos filmes mais marcantes do último ano foi “La Caja”, filme do venezuelano, radicado no México, Lorenzo Vigas, que depois de estrear no Festival de Veneza aterrou no LEFFEST com igual impacto.
Já com uma carreira considerável, que inclui o Leão de Ouro em 2015 com “Desde allá”, Vigas regressa 6 anos depois com um filme bastante diferente. “O meu filme anterior era inspirado em Bresson, este bebe influências no cinema norte-americano dos anos 70”, disse-nos o cineasta em San Sebastián, onde o seu “La Caja” – produzido pelo inevitável Michel Franco – foi exibido na secção Novos Horizontes. “Não tento intelectualizar as coisas. Sou muito intuitivo e irracional. Quando escrevo, não sei a razão para tal, apenas escrevo. Não tento encontrar uma explicação para as coisas que faço. (…).Para mim, a ficção tem mesmo de ser um processo irracional. Se encontrares depois no filme uma razão para o ter feito, ótimo. Mas o que te move tem de ser apenas o desejo de contar uma história.”
Passado no México, no distrito de Chihuahua, “La Caja” segue um rapaz que parte para o local para recuperar os restos mortais do pai, que durante anos foi uma figura ausente na sua vida. Porém, quando ele chega e recupera as ossadas, um homem muito similar à figura paterna fá-lo desconfiar de toda a situação, permanecendo assim no local para investigar. “Estava a ver as notícias e havia uma peça sobre pessoas que estavam a visitar uma vala comum para encontrar os restos mortais de um familiar. Esse foi o início, mas depois tive a ideia de ter um rapaz que parte para ir buscar os restos mortais do pai, mas que no local vê um homem que parece ser o seu pai”, explicou-nos Vigas, acrescentando que o tema da “identidade é a chave do filme”: “O rapaz busca de identidade, ou até mesmo a rapariga que também desaparece. Qual é a sua identidade? Este é um filme com muitos temas tangenciais, mas a identidade é a chave.”
E nesses temas tangenciais, ou se inclui a exploração laboral, os assassinatos macabros na região, as valas comuns e a eterna luta de classes, encontramos a ausência paterna, um elemento frequente na América Latina e que, segundo o cineasta, está diretamente ligado às escolhas políticas do povo em escolher figuras autoritárias, como Hugo Chávez, como líderes de uma nação: “Certamente que podemos ver essa ausência paternal como a razão porque certos países ficam loucos com certos políticos, com as pessoas a estarem mesmo dispostas a darem as suas vidas por eles. E temos de entender porque certos países são mais suscetíveis a isso do que outros. Quando não tens uma figura paterna na família, idealizas um pai perfeito. Tens a tua mãe, ela está ali, tem defeitos e é humana. Por isso não a idealizas. Mas não tendo pai, idealizas a sua figura e isto é muito perigoso pois podes encontrar o teu pai num político e aceitas tudo o que vem dele.”
Já sobre os outros temas do filme, o realizador e argumentista explica que depois de viver há 25 anos no México é impossível escapar a certos assuntos que fazem manchetes diárias da imprensa: “Os temas da exploração laboral, das valas comuns, da luta de classes entraram com naturalidade no enredo. Não foram colocados com um propósito, mas sentem-se como algo orgânico. Se vives no norte do México, é natural que estes temas naturalmente surjam no teu filme. Não tocar em questões destas seria mesmo não natural. (…) Num país onde também desaparecem milhares de mulheres, a rapariga que vemos em cena torna-se um símbolo do que acontece a quem se revolta com o estado das coisas.”
Filmar em Chihuahua em 35mm
Para Vigas, filmar em 35mm, ao invés do digital, ainda faz toda a diferença, especialmente quando escolhes uma região como Chihuahua, no norte do México, como a base de todo o projeto: “A forma como a luz penetra no celulóide é muito semelhante à maneira como a luz chega aos nossos olhos e é refletida na retina. Por isso acho que os 35mm captam algo emocional que o digital ainda não conseguiu. O digital é ótimo para alguns projetos, mas para captar Chihuahua – que é sem dúvida um dos sítios mais espetaculares onde já estive – sabia que o celulóide acrescentava algo ao filme. ”.
Já sobre Chihuahua, onde a paisagem árida inicial vai conduzir-nos derradeiramente a zonas gélidas, Vigas mostra o seu fascínio pela região, mas revelou uma enorme complexidade em filmar a parte final do seu filme: “Sabia que a neve era importante para o filme, até em termos metafóricos pois o rapaz passa por enormes transformações emocionais. A neve era também simbólica para a mudança e queria finalizar a história no Inverno. Em Chihuahua há uma região, Creel, onde neva. Foi muito desafiante filmar isso e captar o sofrimento do rapaz”.
Um regresso “sob pressão”
Filmado em 2018, “La Caja” estava pronto para estrear em 2020, mas a pandemia levou Lorenzo Vigas a adiar a estreia em um ano. Esse adiamento também serviu para o cineasta aprimorar o filme, até porque depois de vencer o Leão de Ouro em Veneza, em 2015, a pressão cresceu para entregar um novo projeto de qualidade. “Há duas formas de lidar com a pressão. Ou ficas paralisado com ela, e temos um caso muito famoso na Venezuela com uma realizadora [Margot Benacerraf, premiada em Cannes em 1959]; ou podes usar essa pressão como forma de melhorar o teu projeto. Fiz isso com a escolha dos 35mm ou no encontrar uma fábrica real para a filmar. Dediquei mais tempo e esforço para o ‘La Caja’ por causa de ter conquistado o Leão de Ouro com o filme anterior (….) Mas agora quero fazer um novo filme muito mais rapidamente.”



