Encarado como um filme de culto desde a sua passagem pelo Festival do Rio em 2007, com destaque ainda na Berlinale de 2008, “Estômago” consagrou mundialmente a carreira do realizador Marcos Jorge, apostando num abrasivo humor para retratar dois momentos na vida de um ás da culinária, Raimundo Nonato, vivido por João Miguel. Parte da longa-metragem era dedicada à chegada de Nonato a uma metrópole do Sul do Brasil, onde ele despontava como um craque da cozinha, primeiro num botequim e, depois, num restaurante fino. A outra parte era dedicada à vida dele na cadeia, ilustrando a sua luta para conter a fúria de um detido temido, Bujiú (Babu Santana). Ambas as personagens marcaram a época no audiovisual da América Latina e Jorge seguiu a sua carreira, filmando longas-metragens (“O Duelo”) e séries (“O Caso Celso Daniel”). Agora, 15 anos depois, o realizador retorna ao mesmo universo. Até o fim do mês ele finaliza a primeira parte das filmagens de “Estômago 2 – O Poderoso Chef”. É uma coprodução ambientada parte no Brasil e parte na Itália, com elenco dos dois países, falada em português e italiano. A porção europeia deve ser rodada a partir de setembro. A única estrela que está nas duas metades do filme é João Miguel.
Na entrevista a seguir, Marcos Jorge antecipa o que podemos esperar do regresso de Nonato.
O que te fez voltar ao universo de “Estômago”?
A primeira longa-metragem é um filme de que as pessoas gostam muito, cercado de muito carinho. Escrevi o argumento dessa “parte dois” em dois ou três dias, antes de partir para o roteiro. Pensei em filmá-lo quando o filme fez dez anos, em 2017. Até chamei o projeto de “Estômago 2 – Dez Anos Depois”. Era um argumento ambicioso, que pressupunha uma ida dele à Itália e precisaria ser uma coprodução. Mas a pandemia desarmou todos os acordos de coprodução. E, por ser ambientado em duas nações, é praticamente, como se fossem dois filmes. Assim como vocês viram no primeiro filme, esta segunda parte tem aquela estrutura narrativa alternada em dois momentos paralelos. Portanto, ao retomar esse dispositivo, era necessário juntar as duas metades. Mas nós conseguimos equacionar a produção com a Itália e estamos rodando. No Brasil, o filme vai se chamar “Estomago 2 – O Poderoso Chef” e, em Itália, “Il Cuoco Dei Boss”. Internacionalmente, o projeto se chama “The Cookfather”, em referência a “The Godfather” (“O Padrinho” em Portugal e “O Poderoso Chefão” no Brasil). Começámos a rodar no dia 5 de abril. Vamos até ao dia 28 de abril na parte brasileira. A parte italiana deve acontecer em setembro. Serão quatro semanas de filmagem no Brasil e quatro na Itália.
O que acontece com o Nonato nesse filme?
Ele passa uns 10, 12 anos na cadeia. A trama explora o que acontece com Nonato quando sai da prisão. Ele estava preso com um chefe mafioso chamado Benedeto Caroglio, vivido pelo Nicola Siri. Ele estabelece um grande conflito na penitenciária com o Etcétera, o “chefe” da cadeia, vivido pelo Paulo Miklos, que já aparecia na primeira longa-metragem. Etcétera vai ter o seu poder contestado pela nova força que chega na cadeia. Na Itália, Nonato vai cozinhar para a máfia de Don Galante e vai estabelecer uma relação de confiança com a herdeira: Valentina Galante.
Passado tanto tempo, 15 anos, qual é o simbolismo de retomar Raimundo Nonato?
Tinha percebido que a personagem era muito fértil em suas relações, em sua ingenuidade. Essa personagem ainda tinha muito potencial dramatúrgico para inspirar histórias interessantes. Pensei que valeria a pena revisitar a sua trajetória depois de tantos anos, para pensar como ele teria evoluído.
Como o primeiro “Estômago” mudou a sua carreira?
Estreamos em Roterdão e me arrisco a dizer que o filme tenha conquistado uns 40 prémios, incluindo o de melhor direção no Festival do Rio. Ele foi distribuído para mais de 20 países no cinema, em uma época em que não havia streaming. Lembro-me de estar no Festival de Cannes, voltando para o Brasil, o “Estômago” era a capa da “Pariscope”. Ele mudou a minha vida em vários sentidos, pois abriu-me a oportunidade de fazer filmes originais e algumas séries. Fiz recentemente uma comédia de ação – “Abestalhados 2” – produzida pela Disney, que se passa no mundo do cinema. Filmei durante a pandemia com Paulinho Serra, Leandro Ramos e um super elenco.
O que você sente de mais diferente, no cenário atual do cinema brasileiro, enquanto prepara essa volta do Raimundo Nonato?
Houve um desaparecimento do filme médio de arte. Os grandes lançamentos ocupam 90% das salas exibidoras. E eu sou um fã das salas. Os meus filmes são feitos para a sala de cinema. “Estômago” foi lançado com 13 cópias e somou cerca de 100 mil espectadores. Em 2016, lancei “Mundo Cão” e ele fez 30 mil espectadores, sendo que esperava mais. Hoje, a maior parte dos filmes brasileiros não consegue fazer 5 mil espectadores. Há quatro anos, sou curador e programador de um centro cultural na cidade de Curitiba, no Paraná, de onde venho. Há salas de exibição lá e elas são um enorme sucesso na cidade. O Cine Passeio é uma referência na discussão do cinema. São salas que vivem lotadas. Conseguimos um índice de lotação alto com o cinema brasileiro. É uma sala muito diferenciada na cidade. Tenho contato com o mercado exibidor há quatro anos, por conta desse centro, e vejo como a realidade do mercado mudou.

