Raimundo Nonato (João Miguel) é um maltrapilho que chega a uma cidade e entra num café com uma simples mala na mão. Sem dinheiro pede comida, e deixa-se ficar para não ter de a pagar. Em troca o dono oferece-lhe trabalho, sem salário, só por alojamento e comida. E ai revela-se o verdadeiro talento do aparentemente ingénuo Nonato, conquistar as pessoas pelo estômago.
Paralelamente a acção decorre noutro tempo – não temos inicialmente a certeza se antes ou depois – onde Nonato é um presidiário que pretende garantir a sua sobrevivência, e até ascensão “social” na prisão, ao reconfortar os seus colegas com comida “caseira”.
Tanto num lado como noutro, Nonato é um mestre de sobrevivência e de adaptação, mostrando que por trás da sua figura fraca e simpática pode está um manipulador que não dá ponto sem nó, sobretudo no ambiente prisional, onde ganha o cognome de Alecrim.
O filme vive sobretudo do talento do seu protagonista, o fantástico João Miguel, que a cada minuto faz o crescimento de Nonato mais querido aos olhos do público. O seu sotaque, os seus trejeitos e a forma entusiasmada como descreve a comida tocam-nos profundamente, e o filme leva-nos até ao final num mistério que nos vai intrigando. O que poderá ter o inocente Nonato feito para merecer estar na cadeia?
Para além de João Miguel, destaque igualmente para os desempenhos de Bujiu (Babu Santana) um manda-chuva na prisão conquistado pelo tempero de Nonato, e Iria (Fabiula Nascimento), uma prostituta que irá viver uma relação de amor com o protagonista pela comida.
No final cai a pele de cordeiro e aparece então o verdadeiro predador. Certo é que “Estômago”, sem nunca perder a sua aura de filme “boa onda”, vai-nos mostrando algumas realidades do Brasil, e do mundo. Vemos as condições degradantes das cadeias, o patrões exploradores dos pobres diabos que chegam às cidades em busca de algo melhor. E até da iliteracia quando Nonato conta entusiasmado a história do Gorgonzola, identificando a Itália perto dos Estados Unidos.
A edição em que as duas linhas paralelas de tempo se vão intercruzando ajuda muito a criar interesse no filme, e sobretudo a adensar o seu mistério sobre o motivo da prisão de Nonato.
“Estômago” é um filme com uma história simples, que ganha por si só complexidade nas situações do quotidiano, sem esquecer, claro, que se trata de um filme sobre poder. Uma agradável surpresa!
Carla Calheiros






















