Axelle Ropert: “ir a uma sala de cinema tem de ser algo natural”

(Fotos: Divulgação)

Axelle Ropert começou o seu percurso no cinema tal como muitos dos nomes que marcaram a Nouvelle Vague, ou seja, através da crítica cinematográfica. Foi aí que ganhou a alcunha de “Ayatollah da crítica”, uma referência ao carácter incisivo dos seus textos, considerados por muitos como “demasiado duros”. Foi nessa experiência na revista La Lettre que se cruzaria com Serge Bozon, de quem tem sido colaboradora frequente, ora na escrita, ora na atuação.

Em 2005 lançou a sua primeira longa-metragem como realizadora, “Étoile violette”, surgindo posteriormente em 2009 com “La famille Wolberg”. Quatro anos passaram e assinou “Tirez la langue, mademoiselle”, executando a sua quarta longa-metragem em 2016, “La prunelle de mes yeux”.

Não fosse a pandemia, o seu mais recente filme estrearia em 2020, mantendo o hiato de 4 anos entre longas-metragens que o seu percurso evidencia. Mas Ropert, uma defensora do cinema como o conhecemos, decidiu esperar um ano e lançar em Locarno este drama que acompanha o divórcio de um casal sob o ponto de vista da filha,

Um filme distinguido recentemente com o Prémio Jean Vigo, criado há 70 anos para incitar à independência e originalidade do cinema francês. Foi em Locarno que nos sentamos com ela e falámos do seu filme, da sua carreira e dos perigos que o cinema enfrenta no pós-pandemia.

Antes de falarmos do seu filme, sei que começou a sua carreira como crítica de cinema e que ficou conhecida como a “Ayatollah” (risos). Como é que isso aconteceu?

(risos) Nunca fui jornalista, mas sempre fui uma grande cinéfila e entre os 20 e 30 anos passei a minha vida na Cinemateca Francesa e nas salas de cinema do Quarteirão Latino em Paris. Ganhei uma paixão pela crítica de cinema e tive o desejo de entrar nesse mundo, sempre a título amador. Descobri então que escrever sobre cinema é uma ótima formação, algo que te combina a ti, a mise-en-scène e a prática. Foram anos muito importantes para mim e posso dizer que sem essa experiência na crítica de cinema nunca teria feito filmes. 

Mas era muito dura nas críticas para ganhar essa “alcunha”?

Sim, o meu gosto era muito incisivo, fossem obras que adorasse ou aquelas que não gostasse. 

E o que pensa da crítica hoje em dia, pegando por exemplo na Cahiers du Cinema que tem um novo dono e uma nova equipa?

A crítica de cinema está em dificuldades e por razões exteriores tenho a sensação que de maneira geral há menos jornalistas e críticos de cinema nas redações. A crítica de cinema sofreu uma desvalorização e acho isso dramático.

Quando acontece uma crise, a primeira coisa que se corta é sempre na cultura…

Sem dúvida. E é uma das coisas mais idiotas de se fazer. 

Jade Springer

É uma questão complexa, mas o que acha que devemos fazer para mudar esse pensamento?

É preciso ação, raiva, e explicar que a cultura não é um luxo. Na verdade, ela é indispensável. Sem a cultura morremos todos como os animais. Neste momento o problema da crítica de cinema é a falta de dinheiro para a cultura. É um reflexo do mundo que vivemos. Tem sido um ano difícil para se ser crítico de cinema [profissional].

Passando agora para a sua carreira no cinema, o seu estilo é muito particular. Como se definiria no panorama do cinema francês?

 É muito difícil nos definirmos a nós próprios, mas posso dizer que tenho uma grande variedade de gostos dentro da ficção. Gosto de inventar histórias e personagens incríveis. Não gosto de todo do cinema que se aproxima da vida real. O meu gosto fundamental é do cinema clássico norte-americano, por isso gosto de criar grandes personagens que nos levem para longe daqui. Por outro lado, sou obcecada pela mise-en-scène. Por isso defino-me como alguém com o gosto pela ficção e gosto pela mise-en-scene.

E tem uma particular atenção pela “família” no seu cinema…

Sim, tenho interesse nesse conceito como objeto de ficção. A família como material para a ficção é apaixonante. É algo universal e podemos contar mil coisas a partir dela. 

No caso do “Petite Solange” estamos perante um divórcio, algo que é visto como nefasto. Há algo de biográfico nele?

Bem, antes de mais, o filme não diz de todo que o divórcio é algo horrível. Temos todo o direito de nos divorciar e ter outras histórias de amor na vida. É melhor o divórcio que ficar com alguém que não amas. Este não é de todo um filme anti-divórcio, ele apenas conta a dor de uma criança ao ver os pais separarem-se. Não é de todo um filme biográfico, embora seja filha de pais divorciados. Acima de tudo, a dor de um filho/a ao ver os pais se separarem é algo muito ausente no cinema. Uma criança que vê que os pais não se amam mais. Como é que o seu mundo muda? Isso para mim foi um grande desafio, o de contar um tema que nunca foi abordado no cinema. Foi isso que me interessou e não o divórcio por si só. 

E tinha o Philippe Katerine e a Léa Drucker na cabeça quando escreveu o guião? E a jovem Jade Springer?

Gosto bastante deles e sem eles não me interessava de todo fazer o filme. E gosto de atores que carregam em si uma espécie de fantasia. O Philippe Katerine é muito conhecido na França e carrega essa fantasia com ele. É um ator incrível, tal como a Léa Drucker. Eles entram no filme imediatamente. Já a Jade… ela nunca tinha atuado antes. Todo o filme cai sobre ela, por isso fizemos um casting sob muita pressão. Nunca se sabe bem o que pode acontecer e se ela não fosse capaz depois de aguentar o peso do filme, este morria. Tivemos a sorte dela ser muito boa para o papel.

Philippe Katerine e Léa Drucker

Pegando nas opções estéticas no seu cinema, o que a inspira?

Este é um filme muito simples, mas queria algo que respirasse cinema. Escolhi filmar em película porque acho que é um meio que permite restituir o mundo. O digital para mim é frio. Analisamos tudo na mise-en-scène e tudo passava por ela. 

Antes deste filme tinha quatro longas-metragens na sua carreira, desde que começou em 2005. Tem sido difícil encontrar financiamento para eles ou faz parte da sua forma de ser o de filmar espaçadamente?

Não tem sido difícil encontrar financiamento, é mais uma questão de ritmo. Além disso, escrevo argumentos para outras pessoas e isso ocupa muito do meu tempo. Escrevo muito para cinema, por isso é uma decisão completamente voluntária não fazer um filme de dois em dois anos.

E vai continuar a escrever guiões para outros realizadores no futuro? Pergunto isto porque falei recentemente com a Céline Sciamma e ela disse-me que se ia focar em escrever filmes para ela e não para outros? [isto apesar de entretanto ela ter escrito o guião do último filme de Jacques Audiard]. 

Vou continuar. Adoro escrever, mesmo filmes para os outros. Até séries. Adoro fazer as duas coisas e vou continuar.

E falando nas séries e no streaming, crê que o cinema está em perigo por causa disso?

Acho que está em grande perigo e temos de dar muita atenção a isso. Por exemplo, adoro as séries, mas acho que é bastante perigoso e acredito mesmo que as séries e o streaming podem destruir o cinema. Temos de manter o cinema vivo, que não nos deixemos completamente absorver por estas plataformas. É preciso fazer filmes ainda mais fortes que antes.

E com a pandemia tudo piorou…

Foi uma catastrofe.

Além disso, em França, para ir ao cinema, é preciso o passe sanitário… [a entrevista foi feita em agosto]

Sim, tem sido terrível. A frequentação das salas baixou muito à custa disso. Tudo se conjugou para atacar o cinema. É dramático e temos, mais que nunca, ser muito combativos contra esta situação. Se o cinema se transformar uma prática cultural de luxo será horrível. O cinema tem de se manter popular e ir a uma sala cinema tem de ser algo natural. Temos de lutar muito pelo cinema nos próximos dois anos. E temos de nos unir. Eu faço parte da SRF (Société des Réalisateurs de Films), que é uma associação muito combativa e dinâmica na luta por guardar o espaço do cinema. Temos de ser muito solidários. Os distribuidores, os realizadores, os jornalistas de cinema, os programadores de festivais têm mesmo de se unir para nos próximos dois anos manter o cinema como algo vivo. 

E certamente as plataformas vão tentar contrariar isso, pois já se vê a pressão que fazem em França para diminuir a janela de exibição exclusiva para os cinemas. França é, aliás, um caso único na proteção ao cinema…

Em França o cinema é muito protegido pelo que chamamos de cronologia dos media. Os distribuidores são muito fortes e vão lutar para que os filmes sejam exibidos em sala. O lugar natural de um filme é numa sala. As plataformas querem estreias simultâneas e não entendem a nossa lógica. Será necessário a nível europeu seres muito fortes para defender isto. Há que resistir…

Resistir é uma boa palavra. Crê que a presença do seu filme em Locarno no festival é um ato de resistência?

Mais que nunca, os festivais têm um papel fulcral na defesa do cinema. Cannes, por exemplo, ao não ter os filmes dessas plataformas de streaming – que não querem ter de esperar para estrear os seus filmes – faz algo muito poderoso. Creio que são muito corajosos e têm toda a razão para o fazer. É preciso que o cinema defenda o seu lugar. O meu filme estar aqui em Locarno e ser projetado numa sala imensa perante milhares de pessoas… para mim isso é o cinema. Temos de manter isso.

E pondera filmar para essas plataformas?

Não sou contra as plataformas. Como disse, adoro as séries. Há que ter a inteligência de ver que o cinema passa pelas salas de cinema e não necessariamente pelo streaming. E que o cinema precisa da crítica cinematográfica. As plataformas têm de respeitar tudo isso. 

Eu sou pelo diálogo com essas plataformas. Elas têm de compreender isto. 

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