Depois de várias curtas e médias metragens, ensaios experimentais e a longa-metragem estreia “Les Garçons Sauvages”, Bertrand Mandico, que dedica particular foco na sua obra à fluidez corporal e de género, leva-nos no seu novo filme a um planeta – After Blue (menção à Terra como planeta azul)– onde apenas as mulheres podem sobreviver no meio da flora e fauna inofensivas. Na verdade, tudo isto é um novo Éden, ou uma nova América, pronta a ser colonizada e corrompida pela natureza humana.
Estreado mundialmente no Festival de Locarno, de onde saiu com o prémio FIPRESCI, o filme chega agora ao MOTELX para abanar com as convenções. Foi na cidade suíça que nos sentamos a falar com Mandico, percorrendo a conversa a visão de cinema do cineasta, as suas inspirações e naturalmente o seu futuro. E também falamos com ele de “Titane”, o vencedor do Festival de Cannes. Sobre esse filme, Mandico tem uma interpretação muito peculiar.
Antes de mais, parabéns pelo seu filme, ele continua a linha que demarcou com o seu” manifesto pela incoerência”…
Sim, o “manifesto da incoerência” foi algo em que trabalhei com a Katrin Olafsdotir há uns anos que procurava ir um pouco contra todo o pragmatismo que encontrava no cinema. Tudo digital, cheio de efeitos especiais, guiões esquemáticos. Era algo que se opunha a toda essa corrente que também invadia o cinema de autor.
E esse manifesto também se aplica a contrariar os novos tempos de streaming, ou não? Acha que o cinema vai-se tornar algo como a Ópera, uma arte entregue apenas a espaços muito específicos?
Sim, tenho medo que se torne em algo assim. De qualquer forma, é necessário criar filmes que tenham potência no grande ecrã. Filmes que produzam uma experiência verdadeiramente única para o espectador, que façam a diferença entre o ver num pequeno ou grande ecrã. O grande problema para mim neste mundo dos festivais de cinema é que frequentemente pedem-nos os links dos screeners, ou seja, quem o selecionou tem tendência a ver os filmes em streaming. Sei que aqui em Locarno o Giona e a sua equipa viram e selecionaram o filme depois de o verem num grande ecrã, conseguindo assim perceber toda a sua amplitude. Com o espectador é o mesmo, é importante eles verem o filme no grande ecrã para entender a diferença em relação, por exemplo, a um filme da Netflix.
Por falar em Netflix, hoje em dia – como o Scorsese o disse – falamos cada vez mais em “conteúdo” e menos em cinema. Que lhe parece isso?
Sim, o que mais me incomoda nessas plataformas é que os cineastas interessam cada vez menos. Falamos dos atores, dos temas, tudo formatado em que os filmes são classificados por género. Visualmente são todos também muito similares, tornando-se uma espécie de cinema permutável. A personalidade do cineasta é apagada. É preciso que o autor tenha a sua palavra.

Continua assim a defender a política de autor…
Certamente
Pelo seu trabalho, o Bertrand parece fascinado pelos westerns, a ficção científica e a banda-desenhada. Por exemplo, Moebius, Enki Bilal e outros parecem estar omnipresentes no seu trabalho. Quais são as inspirações para o seu cinema?
O cinema e toda a sua história. O clássico e o experimental, mas também aquele mais de entretenimento dos anos 70. Bem, se olharmos agora para trás notamos que esse cinema era bastante experimental, especialmente na forma de dilatar o tempo, que é extraordinária. E isso também encontramos no cinema japonês, que na década de 1970 comunicou e trocou muito de si com o cinema italiano. Os filmes de samurais inspiraram os westerns italianos, e vice-versa. E o mesmo aconteceu no cinema de horror, o fantástico. Encontrei muita inspiração nisto.
E gosta da expressão “cineasta de género” ou nem por isso?
Sim, pois na verdade quando um cineasta faz um filme de género tem automaticamente a tendência de seguir as suas convenções. Pessoalmente, acho importante ensaiar a mutabilidade entre géneros para podermos evoluir. Se assim não for repetimos e repetimos. É como na música, ou fazes sempre a mesma música ou combinas vários géneros e realmente crias algo novo.
Pensa o cinema como pensa a música?
Completamente. Quando faço um filme é como se estivesse a preparar um álbum. O meu modelo cinematográfico é mais David Bowie que qualquer outro cineasta. (risos). O meu objetivo é ser o David Bowie do cinema. (risos)
Voltando atrás, as bandas-desenhadas são também uma influência importante. Quando era novo lia muito a Métal Hurlant e tinha como referência o trabalho do Richard Corben. É curioso, fiz um teste de som numa projeção em Paris do “After Blue” e estava lá o Jean-Pierre Dionnet, fundador da revista. Ele viu e disse-me que eu era um herdeiro da Métal Hurlant.
Uma das ideias mais curiosas neste seu “After Blue” é o nome das armas, todas elas associadas a marcas de moda chiques. Porquê essa escolha?
Para mim representam os resquícios da sociedade de consumo. É um pouco como no Planeta dos Macacos, quando vemos a Estátua da Liberdade. Quando vejo grandes autores associados a grandes marcas da moda, isso faz-me doente (risos). Acho que é algo que não conjuga.
Sim, mas pegando nessa questão do autor e grandes empresas, temos nomes como o Martin Scorsese, grandes “autores” associados a grandes empresas como a Netflix e agora à Apple.
Não consigo compreender isso, até pelo seu discurso em relação ao cinema. Se ele fizesse uma série de TV, era outra coisa. O Lynch quando fez uma série de TV teve o apoio dessas plataformas e canais, e agora faz outra para a Netflix. É algo coerente. Todo o discurso de Scorsese sobre o cinema, o que é e não é, os autores, etc, é um pouco estranho, pois depois trabalha para eles a fazer filmes.
Falei ontem com a Axelle Ropert, que, como tu, ainda trabalha em película. De certa forma é um ato político?
Sim, penso que sim. Um ato alquimista, mágico e político (risos). É uma forma de mostrar como vemos o cinema. Película é erótica e sensual. Todos os meus efeitos especiais, tudo o que observam foi feito durante as filmagens, não acrescento nada no pós-produção. Para mim é uma forma de dizer a verdade. O meu realismo – apesar de não gostar muito do termo – é mostrar tudo o que filmo, sem o retrabalhar depois.
Pegando agora mais diretamente no seu filme, o “After Blue”, como surgiu esta ideia de um novo planeta para a humanidade.
O guião original era de um western com a ideia de um novo mundo por explorar, uma nova América. Mas era impossível fazer isso hoje em dia, pois já tudo foi feito e refeito no que diz respeito a westerns. Transpus assim o ambiente deles para uma ficção científica. Esse novo mundo é o novo planeta. Tudo foi passado como no tempo dos pioneiros europeus que foram para a América, tudo num novo planeta. E queria que nesse planeta não existisse aquilo que faz parte do nosso dia a dia hoje, como os telemóveis ou qualquer outro tipo de máquinas. Fiz o futuro por subtração. E existe uma ligação ecológica, eliminando assim os elementos que mataram o Planeta Terra.
O filme carrega em si um erotismo que não estamos já muito habituados a ver no cinema. Não tens medo que venha aquele discurso de hoje em dia do “male gaze”, etc?
Não me considero um homem, por isso estou-me a lixar para isso. O meu olhar é não binário. Não sou um homem nem mulher, por isso essa conversa para mim não tem sentido.
Mas o que pensa dessa conversa de “male gaze”?
Para mim foi como o soar de um alarme para os excessos claros de alguns homens no olhar sob as suas atrizes. O que me mete medo são sempre as derivações totalitárias. O ataque a autores que claramente não têm uma visão “macho” das coisas. Muitas vezes esse é o problema. Pessoalmente, lido também mal com a ideia de apagar da História do Cinema alguns autores. Há que contextualizar as coisas, explicar, mas não eliminar. Isso para mim é horrível. Temos de criar um muro e avançar. Não podemos estar sempre a olhar para o retrovisor.
Muitas vezes, o Yann Gonzalez, a Caroline Poggi e o Jonathan Vinel são referidos como “anomalias” dentro do cinema gaulês atual. Outros também colocam a Julie Ducournau, especialmente depois do “Titane”, nessa categoria. Viu o “Titane”? Gostou do filme?
Vi e gostei principalmente do caos que provocou (risos). Caos no Festival de Cannes e no próprio cinema francês. Tem uma energia que gostei muito, mas tenho uma visão muito bizarra do filme. Tenho a impressão que a Ducournau fala dela (risos), da sua história no cinema francês, do seu percurso de autora e do seu programa em obter a Palma de Ouro. Ela na verdade consegue a sua a Palma de Ouro (risos) e o Lindon representa o Thierry Frémaux, a testosterona.(risos)
O que se segue ao “After Blue”? Tem um novo projeto?
Sim, vou começar em outubro a filmar uma adaptação do “Conan, o Bárbaro”. A história de uma personagem e como ela se torna um bárbaro. Na verdade, são quatro filmes: uma longa-metragem; uma peça de teatro onde faço um filme em palco, que não tem ligação à longa; uma média-metragem que serve de preâmbulo ao universo; e uma curta-metragem virtual em torno das atrizes. Tudo isso vai criar uma peça conjunta sobre o mundo de Conan. É uma experiência que nunca se viu no cinema.
Fecha uma trilogia depois do “Garçons Sauvages” e o “After Blue”…
Sim, de certa maneira o “Garçons Sauvages” é o Paraíso, o “After Blue” o purgatório e o “Conan” o Inferno (risos)

