Ao ver uma imagem de Sylvester Stallone impressa na capa de um smartphone, Giona A. Nazzaro dispara a falar sobre uma masterclass com o eterno Rambo em que participou. Uma tatuagem com o bárbaro Conan, no traço de John Buscema, tem nele o mesmo efeito.
Imagens pop tiram do atual diretor artístico do Festival de Locarno um misto de nostalgia e paixão, que denota um processo semiológico emotivo com o que os signos da arte ainda geram. Klingons, escritos de Marshall McLuhan e sessões na Piazza Grande de “Speed – Perigo a Alta Velocidade” (1994) fizeram a cabeça do crítico responsável pela curadoria de um dos maiores festivais de cinema do planeta, ao lado de Roterdão, Berlinale, Cannes, Veneza, Toronto e San Sebastián.
Mas Ivan Cardoso, Pasolini e “Viridiana” também talharam um olhar que o levaram a apostar num grau de diversidade que Locarno nunca viu igual. Diversidade que se traduz em excelência narrativa e surpresa, com títulos vindos de todo o mundo, não faltando os filmes de género. Há comédias, fantasia, sci-fi e até cinema catástrofe. Aos 56 anos, este respeitado teórico fílmico, nascido em Zurique, é um expert no cinema de ação asiático, tendo publicado livros seminais sobre o setor, com um sobre John Woo, além de ter lançado o obrigatório “Il Dizionario Dei Film Di Hong Kong”.
Na entrevista a seguir, ele explica ao C7nema a lógica por trás da 74ª edição da maratona cinéfila suíça, que vem sendo uma mina de encantamentos.
Locarno fez história por ter uma carga social muito forte na sua seleção, mesmo nos seus títulos mais experimentais. Mas, agora, parece haver uma diversidade maior, com foco em filmes de género e em reflexões sobre a própria estética. Onde é que o Locarno de outrora vive no seu Locarno?
O velho festival está aqui, mas as estratégias mudaram, sob uma decisão consciente de trazer o evento para mais próximo do público. Preservamos a preocupação com o facto de que há filmes que precisam ser falados para existirem, que precisam da força de um festival para se comunicarem. Mas há muitos desses filmes que não saem de um escopo pequeno. E não há como exigir mais deles. Mas é preciso um equilíbrio, que pode acontecer quando a gente opera sobre o desenho da competição, trazendo filmes que conseguem conversar com mais pessoas sem perderem a sua essência.
Um grande festival não sobrevive se as plateias não se interessam pelo que existe nas suas mostras competitivas. Quando Glauber Rocha levou o seu “A Idade da Terra” ao Festival de Veneza, em 1980, gerou-se um debate forte, pois aquele grande filme não foi entendido como deveria, e as conversas em torno dele, na época, foram atonais. Ou seja, eram conversas impressionistas sem trocas. Não havia o diálogo de que aquela experiência bravíssima necessitava. E essa atonalidade hoje nos assombra. Hoje vês “os fãs do hardcore”, “os fãs do experimentalismo”, “os fãs das séries”, “os fãs dos festivais”, mas esses fãs não conversam mais. Locarno quer conversa. Por isso tenho desde um filme de horror taiwanês até uma produção de 600 minutos do Nuno Leonel e Joaquim Pinto sobre o estado de coisas do mundo. Isso não significa que apostamos na lógica do “um pouco de tudo”, pois não acredito no ecletismo. Isto significa que temos extremos. Extremos que surpreendem. Ninguém espera encontrar um filme como “Seperti Dendam, Ridu Harus Dibayar Tuntas” (“Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”), da Indonésia, que está em competição. Ao vê-lo, deparei-me com uma narrativa curiosa. Há outras narrativas igualmente curiosas, seja na experiência fantasmagórica de Betrand Mandico, seja na dimensão de superstição de Juju Stories, passando por comédias e olhares sobre como as mulheres veem a sua luta para sobreviver ao dia a dia, que é o caso de “Gerda”. Essas curiosidades levaram-me a inclui-los na seleção, para compartilhar o que me surpreende. Eu não estou aqui em Locarno para confirmar o que já se sabe. Selecionar o que já sei que é bom seria uma repetição e não uma proposição.
Se eu tivesse que usar uma metáfora para definir o seu trabalho aqui, mencionaria Alan Grant, a personagem de Sam Neill em “Parque Jurássico” (1993). É alguém que olha para o passado, numa paleontologia da memória, mas torna esse olhar uma aventura. Quão desafiante foi… e tem sido… esta aventura?
Pensar o cinema só é divertido se saíres da zona de conforto. Trouxe para a Piazza Grande um filme como “Hinterland”, que é um thriller, que é político, que faz uma experiência plástica com as bases do expressionismo. É um filme qque tem vários elementos familiares, mas não se parece com nada que já tenha visto. E funciona. As plateias gostam de ser desafiadas.
Todos os grandes festivais do mundo valorizam o cinema dos países que os sediam. Como fica o cinema suíço em relação a Locarno?
Temos filmes da Suíça em várias seções como forma de promover artistas interessantes que seguem criando por aqui. “Soul of a Beast”, que está na competição, é um deles, e é uma grande surpresa, por ser um filme que tem uma fé absoluta no poder da imagem. Precisamos de mais filmes para o futuro. Daí estimular essa produção desde já.
Locarno posicionou-se publicamente contra a tragédia da Cinemateca Brasileira, que parte do seu acervo destruído por um incêndio, no dia 29, mas como o senhor encara o que está a acontecer no Brasil?
Não quero insultar ninguém, sobretudo porque, agora, não respondo só por mim, uma vez que passei a representar uma instituição, um festival. Mas se você viu o filme de Maria Augusta Ramos, “O Processo”, que considero um dos maiores filmes já feitos, ela mostrou que tudo isso que vemos agora estava debaixo de nossos olhos há tempos. Quando Kleber Mendonça Filho fez um protesto contra um golpe de estado, em Cannes, quando exibiu “Aquarius”, o mundo olhou para uma outra direção, e não prestou a atenção devida. Essa situação já estava presente ali. Maria Augusta mostrou isso para mim no seu documentário. Sabíamos exatamente quem era esse homem (uma menção ao presidente Jair Bolsonaro). É uma situação vergonhosa. Fico chocado ao ver a Amazónia ser violada, ao saber de populações indígenas sendo assassinadas, ao ser informado da violência contra corpos não binários. A hipótese de que, num incêndio, a obra de Zé do Caixão, de Glauber e de tantos outros possa ser destruída, é algo terrível. Se um filme como “O Bandido da Luz Vermelha” fosse destruído, isso seria um crime contra a Humanidade, por atentar contra a memória. Que o Brasil tenha força para o poder enfrentar.
Quando foi que o cinema chamou a sua atenção, pela primeira vez, como experiência transcendente?
Cresci nos anos 1970. Em 1975, vi-me cercado por pósteres gigantes de filmes do mundo inteiro espalhados pelas ruas, numa época onde o cinema popular era celebrado por todos os cantos. Era o ano da experiência assustadora de “Tubarão”. Pouco depois, viria o espetacular “Superman”, de Richard Donner. Mas, logo depois, cheguei ao “Medeia” de Pasolini, que foi o meu primeiro contato com a obra dele. O choque com aquele cinema foi tanto que nem conseguia dormir. Parecia um filme de horror, mas era outra coisa… uma coisa viva. E aí veio Buñuel, com seu “O Obscuro Objeto do Desejo”, e provei de algo igualmente chocante. Era o cinema a mostrar-se para mim, ficando melhor. E hoje ainda trabalho com o prazer de ser desafiado pelos filmes.

