Julian Temple revisita Shane MacGowan em “Crock of Gold” (Pote de Ouro: Nos Copos Com Shane Macgowan)

Gíria omnipresente em qualquer bar, “abaladiça”pt ou ““saideira”br, significa a última garrafa (ou dose) que se pede ao se fechar a conta, mas serve também para simbolizar a “sobrevida” de quem bebe litros além da conta, como é o caso da personagem central de “Crock of Gold: A Few Rounds With Shane MacGowan” (Pote de Ouro: Nos Copos Com Shane Macgowan).

Laureado com o Prémio Especial do Júri no 68º Festival de San Serbatián, no Pais Basco, o filme é uma carta de amor documental à rebeldia do rock’n’roll e aos poderes analgésicos (ainda que autodestrutivos) do álcool, produzida pelo ator americano Johnny Depp. 

Aos 63 anos, Shane Patrick Lysaght MacGowan é um deus para o eterno Jack Sparrow e é adorado como divindade pelos fiéis ao credo do punk rock. Orgulhoso de suas raízes irlandês, o músico escreveu e cantou algumas das letras mais selvagens da língua inglesa das últimas quatro décadas. Entre os entusiastas de seus hinos rebeldes está Julien Temple, realizador britânico que filmou o Rock in Rio em 2011 e rodou “Running Out Of Luck”, com Mick Jagger e Paulo César Peréio nas orlas cariocas dos anos 1980.

Foi Depp, amigo pessoal de Shane, quem convidou o veterano realizador de videoclipes e de documentários musicais, para registar as carraspanas do roqueiro e poeta, considerado um dos maiores letristas da Europa. “Compartilhei a era punk com Shane e fiz uma primeira entrevista com ele ainda em P&B. Ao rodar ‘Crock of Gold’, percebi que o velho punk ainda está lá. Ele passou dos limites numerosas vezes, mas sempre voltou, firme, com a mesma indignação de antes”, disse Julien – espécie de Bob Dylan do documentário musical – ao C7nema em San Sebastián.

Debilitado por litros e litros de bebida e confiando a uma cadeira de rodas após um acidente, Shane fala com dificuldade, mas preserva a sua ferocidade ao analisar os conflitos sociais e políticos da Irlanda e da Inglaterra. Shane bebe (e muito) enquanto conversa com o próprio Depp no filme, cuja montagem (memorável) intercala entrevistas, imagens de arquivo, fotos e quilos de cenas em animação, revivendo as memórias do cantor em mesas de bar e nos palcos.

Temple incluiu na edição cenas do clipe “That Woman’s Got Me Drinking”, que Depp filmou em 1994. “O filme mistura muitas linguagens, com idas e vindas no tempo, emulando o modo como Shane pensa. É demiúrgico”, disse Temple.

Avesso a melancolias e aborrecimentos, “Crock of Gold” é um daqueles documentários pessoais (o foco é no poeta, cantor e compositor por trás dos The Pogues) que extrapolam – e muito – os limites de seu biografado, fazendo um painel de uma época ou de um modo de ser. E não há uma só sequência que não termine em risos (dos participantes e da plateia) ou em doces lágrima. “Neste momento em que o Reino Unido encara a ressaca do Brexit, é fundamental que a juventude possa conhecer os feitos de um ‘outsider’ como Shane, a partir de uma linguagem cinematográfica igualmente jovial”, disse Temple. “A sonoridade de Shane carrega toda a tradição da cultura irlandesa, aplicando essa melodia do passado a uma reflexão sobre o valor da ferocidade para a preservação de uma expressão nacional”.

Julien Temple, Johnny Depp, Stephen Deuters | Foto: Montse Castillo

Consagrado também na ficção com filmes como “The Eternity Man” (2008) e “Absolute Beginners” (1986), Temple já realizou vídeos para David Bowie, Neil Young, Billy Idol, Depeche Mode e Sade. O cineasta explica que a aposta em desenhos animados na edição de “Crock of Gold” remonta a uma experiência antiga com o rock. “Tenho uma estrada longa no rock, com artistas que exigiam de mim o que poderia haver de mais transgressor. Trabalhei com o Sex Pistols, em ‘God Save The Queen’, no fim dos anos 1970, e lembro-me de ter sugerido que usassem trechos de animação num vídeo, para dar conta do que precisavamos expressar. Era uma forma de inovar a narrativa dos videoclipes. Lembro-me de ouvir uma reclamação de Sid Vicious: ‘Não quero virar um bicho animado’. Mas quando a banda viu do que o cinema animado é capaz, percebeu o quanto essa linguagem pode trazer para a arte”, diz Temple. “Tex Avery, que realizou o Bugs Bunny, por exemplo, foi um dos maiores cineastas do mundo. Procurei inspiração nele. Animadores autorais precisam ser respeitados como bons realizadores”.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/laa6