Antes de “Titane” agitar ânimos no último Festival de Cannes, e conquistar a Palma de Ouro de 2021, narrando os feitos de uma jovem grávida de um automóvel, o cinema mundial andou à boleia no debate sobre a mecanização das relações afetivas com “Carro Rei”, uma longa-metragem brasileira, vinda de Pernambuco, e assinada por Renata Pinheiro. A sua estreia mundial aconteceu no Festival de Roterdão, na Holanda, em janeiro.
É possível descrevê-lo como um “Transformers” meets Bob Wilson meets Stuart Hall, embalado numa direção de arte inventiva e aditivada por um Matheus Nachtergaele em estado de graça. Não por acaso, a fita é uma das favoritas a prémios na disputa do 49º Festival de Gramado, a mais popular das mostras competitivas do Brasil, realizada online, via Canal Brasil, até sábado.
Provocante e inquietante na sua reflexão sobre a “maquinização” do humano, este trabalho mais recente de Renata, vindo após “Açúcar” (2017) e “Amor, Plástico e Barulho” (2013), é uma tradução audiovisual precisa do “Manifesto do Ciborgue”, livro de Donna J. Haraway, sobre a obsessão humana por próteses e aparelhos tecnológico. A sua trama lembra muito “Bumblebee” (2018) nos seus momentos iniciais, quando um rapaz é salvo de um atropelamento por um carro com quem estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o rapaz (Luciano Pedro Jr.) retoma a relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio, Zé Macaco (Nachtergaele), conectar-se com esse totalitarismo.

Na entrevista a seguir, Renata conta ao C7nema como o filme espelha as recentes feridas morais brasileiras.
O que a alegoria do carro que sonha ser gente representa politicamente sobre o Brasil de hoje e o que essa metáfora da máquina que se humaniza aponta sobre a desumanização das relações pessoais e sociais?
É uma alegoria, onde a gente está entrando no universo do realismo mágico e, nele, esses carros são máquinas, são a tecnologia que passa a fazer parte de todo o quotidiano das pessoas. Não é de hoje, mas, à medida que a tecnologia vai avançando, fica muito mais evidente a facilidade com que as grandes empresas podem manipular a opinião pública. Grandes empresas, grandes organizações. Elas podem manipular a opinião pública, os desejos das pessoas e suas necessidades. Tivemos recentemente, no Brasil e no Mundo, alguns casos muito particulares de manipulação em eleições para a presidência. Tivemos ataques massivos de fake news, que acabaram direcionando o voto das pessoas e fizeram a cabeça de centenas, a ponto de virarem o voto e conseguirem eleger o candidato que estava aliado a essa força maior. Há uma tendência de acharmos que o nosso conforto emocional vem da companhia desses aplicativos e de toda a sorte de aparelhos electrónicos que nos afastam da solidão. Parece que eles nos fazem companhia e nos dão o carinho que a gente precisa para viver emocionalmente equilibrado. Isso está bem evidente na pandemia. O aparelho de televisão já fazia esse papel. Mas, agora, a coisa se tornou menos coletiva e mais pessoal. Você tem o próprio smartphone, configura como você quer, coloca a capinha da cor do seu gosto. Parece que se agravou nesse sentido de você ter o próprio “companheiro máquina”. A ciência é uma coisa muito boa e a tecnologia também. Somos um animal moderno, a gente precisa disso, mas é preciso prestar atenção nessas informações que nos chegam. É preciso fazer um filtro para que não estejamos a ser manipulados sem perceber. Acontecem muitas doenças emocionais ligadas a esse distúrbio. Um exemplo é o excesso de consumismo, entre outras tantas doenças sociais. O gatilho pode vir exatamente dessas máquinas e dessa tecnologia.
Como a sua experiência como diretora de arte serve como alicerce para a construção de uma narrativa quase fabular?
Essa experiencia em direção de arte é bem importante para mim, mas o meu repertório se fez muito desde a faculdade. Sou formada em Artes Visuais, fiz exposições, trabalhei muito anos em atelier e, posteriormente, atuei como diretora de arte. Mas esse meu imaginário se faz muito na solidão do atelier, no desenho, na pintura, na escultura e nessas experimentações que fiz. Sinto que é mais fácil eu falar por meio da ficção, dando voz a pessoas de diferentes comunidades, personagens fictícios ou reais. Esse mundo que crio me coloca numa zona, que não é de conforto, porque é tudo desconfortável, mas é a forma a partir da qual eu consigo construir uma gramática visual. Adoro filme naturalista, mas tenho dificuldades em criar uma voz num filme naturalista. Nada é exatamente a realidade, tudo é uma construção. A arte não é uma coisa natural. Ela é uma articulação de ideias. O domínio de linguagens constrói a obra.
“Titane” ganhou a Palma de Ouro com uma paixão de uma mulher com uma placa de titânio por um carro. Mas o seu filme veio antes dele, em janeiro, em Roterdão já com esse registo do desejo humanos x máquina. O que há de ciborgue, de “maquínico”, em figuras como Zé Macaco, vivido por Matheus Nachtergaele?
Não vi esse filme, o “Titane”, mas acho que o caso emocional e sentimental que existe entre Mercedes e o Carro Rei, na nossa longa-metragem, passa pelo fetiche, porque é uma máquina, mas há o facto de essa máquina ser inteligente, saber falar e ser capaz de conquistá-la pela conversa, pelo intelecto, por uma identificação. O que queriamos era tornar essa máquina mais humana. Não sei dizer se o filme é exatamente sobre fetiche por máquina, acho que fomos por outro caminho. É interessante entender que, talvez, em um futuro possível, seja esse relacionamento afetivo e erótico dos homens. Acho isso possível, mas acho triste. O sexo é onde a gente se aproxima mais do primitivo, do animal, do sensorial. É aquele momento em que você não pensa em nada e está em um estado de não consciência. É legal que seja entre duas pessoas.Quero dizer que, talvez, isso já tenha até começado. Algumas pessoas já possuem uma relação mais além da utilização dos seus objetos tecnológicos apenas como objetos utilitários. Às vezes, é mais que isso. É como a gente entende o carro quase como um ente querido por algumas pessoas. É um suporte a mais na vida.O filme aponta para um possível futuro, inclusive, próximo da humanidade. O filme cria essa personagem, o do Nachtergaele, que é primitivo, porque parece um primata, mas, ao mesmo tempo, ele tem a inteligência acima da média. O menino (personagem do jovem que fala com o carro) já é um transumano por natureza. Ele já avançou nessa evolução humana que seria o homem ter, na sua genética de nascença, alguma tecnologia que o faz se relacionar com máquinas. Em Zé Macaco existe uma alegoria: um homem que se torna um grande inventor, mas se aproxima do mundo selvagem. É como se se fosse uma involução, pois ele fica mais selvagem, mais perigoso. A gente quis inverter isso, é como se a evolução o levasse a ficar uma pessoa mais perigosa.

O que o Festival de Gramado, onde o seu filme nasce para o Brasil, representa no seu imaginário de realizadora? O que significa nascer nas telas brasileiras na briga pelo Kikito?
Acho bem legal a gente estrear no Brasil pelo Festival de Gramado. Por muito tempo, o festival exibia filmes com lançamentos grandes e com nomes conhecidos. Esse não é, exatamente, o mundo onde eu faço meu cinema. Temos a Aroma Filmes, uma produtora que tem algumas longas-metragens, muitas curtas, mas somos pequenos. Acho que dá uma visibilidade muito interessante, porque é um festival tradicional no Brasil, que possui um público que gosta do glamour do tapete vermelho.
É muito legal ver realizadores de cinema independente ter lugar nesse festival. É um filme em que a gente fez o que queria, ele é arriscado. Não criei grandes expectativas para a carreira dele. Estou muito feliz dele estar entrando em festivais e estar causando uma reflexão, uma polémica. As pessoas se interessam em escrever sobre o filme, gostando ou não. Tem muita gente escrevendo sobre o filme em vários países por onde passamos. Estamos também no Festival Fantasia, o maior do Canadá em relação a filmes de género.
Quase que diariamente lemos matérias e críticas sobre o filme. Não me considero na briga pelo Kikito de forma alguma. Acho que seria maravilhoso esse reconhecimento, caso a gente venha a ganhar prémios, mas a luta é pelo cinema brasileiro continuar a sua produção num momento tão destrutivo como estamos a passar. Estão destruindo o nosso acervo e a nossa história com o cinema, ameaçando os novos talentos que possam vir e a nossa produção anual. É muito difícil isso e a nossa luta é essa.
Diante disso, só tenho a agradecer por ter uma equipa maravilhosa e um elenco maravilhoso, com todo mundo muito unido para fazer esse filme, que está agora em Gramado, reverberar. Estou gostando até quando não gostam. Estou colocando no mundo uma produção que é coletiva, porque todos contribuíram e acreditaram no projeto.

