Vencedor do prémio de cineasta emergente na secção Cineasti del presente do Festival de Locarno, o italiano Hleb Papou estava visivelmente feliz e emocionado quando subiu ao palco do GranRex para receber a estatueta.
Realizador de “Il Legionario“, onde seguimos um polícia de intervenção negro (Germano Gentile) que tem de lidar com o despejo de centenas de famílias, incluindo a sua, de um edifício na capital italiana, Papou começou o projeto em 2017, ano em que lançou uma curta-metragem homónima que serviu para se diplomar em realização.
“Fiz este filme por uma exigência de contar a Itália segundo o meu ponto de vista, a Itália de hoje, do presente. Um país que mudou e ainda está a mudar. Um país rico de contradições e estereótipos”, explicou-nos o realizador em Locarno, detalhando posteriormente como tudo começou: “O filme parte da imagem que construí de um polícia negro, um polícia de intervenção. Juntamente com os meus dois coargumentistas trabalhamos a partir desta imagem com muita pesquisa no terreno do mundo policial e também do mundo das ocupações em Roma. O sítio onde filmamos a ocupação é um verdadeiro espaço ocupado no centro de Roma. Não é um sítio na periferia, está inserido num bairro burguês da capital.”

Influenciado por filmes como “Sicário“, “Tropa de Elite” e “Les Miserables”, além do cinema de Jacques Audiard, Papou pretendia mostrar os dois lados da moeda, não caindo na tentação de desumanizar a polícia no confronto com os “ocupas”. E deu o exemplo de “A.C.A.B. – All Cops Are Bastards”, filme de Stefano Sollima, sobre o qual muitos policiais lhe disseram que não mostrava um retrato próprio deles.
Para elevar o conflito inerente ao enredo, a de um polícia (o legionário) preso entre as responsabilidades com a profissão e com a sua família, o realizador e argumentista criou a figura de um irmão mais novo do agente da lei, mas que está no outro lado da barricada e lidera mesmo o movimento contra os despejos do bairro.
“O meu objetivo final não era um filme marcadamente político, mas um drama de ação. Quero falar de problemas sociais na forma de entretenimento (…) e queria contar a realidade italiana com um toque de género”, disse-nos Papou, esperando agora viajar com o filme por vários festivais de cinema.
E depois do triunfo em Locarno, o interesse em “Il Legionario“ aumentou certamente.

