Como Me Tornei um Super-herói: super-heróis à francesa

"Comment je suis devenu super-héros" está disponível no catálogo da Netflix

(Fotos: Divulgação)

Estava previsto chegar às salas em 2020, mas a pandemia trocou as voltas ao lançamento do filme e “Comment je suis devenu super-héros“ (“Como Me Tornei um Super-herói“) acabaria por ser lançado no streaming, mais propriamente na Netflix.

Adaptação do romance homónimo de Gérald Bronner, no filme seguimos um polícia responsável por desmantelar uma rede de traficantes que fornecem uma droga com efeitos muito especiais: quem a consome ganha super-poderes, colocando em perigo o equilíbrio da sociedade onde os verdadeiros super-heróis existem entre os homens.

No elenco encontramos nomes como Pio Marmaï, Swann Arlaud, Vimala Pons, Leila Bekhti e Benoît Poelvoorde, num filme que não esconde as suas referências: Watchmen, Batman e Demolidor.

Douglas Attal é o realizador em estreia nas longas-metragens e foi com ele que falámos em janeiro deste ano sobre o filme que pega na mitologia dos super-heróis e trespassa-a para uma realidade bem francesa. Aqui ficam as suas palavras.

Trabalhou muito tempo nesta adaptação ao cinema. Como foi esse processo?

O que me agradava muito no romance era o tom, o universo e as suas personagens. Queria realmente fazer um filme com um toque francês. Apesar de ser uma obra gaulesa, originalmente a ação decorre em Nova Iorque. Para dar esse toque e essa especificidade houve do meu lado um trabalho profundo em transformar Nova Iorque em Paris. Mudei muito a intriga e adicionei elementos que reforçassem a sua forma de filme policial. O tom policial já estava presente no romance original, mas eu reforcei essa força, tal como o realismo presente em cena.

No fundo, imaginei um contexto e universo onde os super-heróis estão banalizados. E adicionei personagens femininas pois estas não existiam no livro original. Foi um trabalho intenso este de adaptação.

Quando fala em realismo, quer dizer que não podemos imaginar os super-heróis como os da Marvel em Paris?

Não imaginei de todo ter um super-herói clássico no meu filme a vaguear pela Torre Eiffel ou por Notre Dame. Para já, existe uma grande diferença entre os franceses e os americanos. Em França temos menos admiração pelas autoridades, pelos bombeiros, polícias, etc. Forçosamente era necessário dar a estes heróis algo de diferente. A verdade é que se os franceses olhassem para um super-herói plantado num desses monumentos icónicos a reação seria muito diferente da norte-americana. Por isso pensei: o que posso fazer? Como será um super-herói francês? Normalmente falamos dos polícias, dos trabalhadores sociais quando falamos de heróis. Foi isso que explorei, dar-lhes uma forma francesa de serem. 

Acha que a pandemia e o adiar da estreia do filme o prejudicou? Digo isto no sentido em que entretanto foram lançados filmes – como o “Project Power” da Netflix – que de certa maneira jogam no mesmo campeonato deste filme…

Ainda não vi o “Project Power”, mas há duas coisas a ter em conta aqui. O ponto positivo e egoísta é que tive mais tempo para trabalhar nos efeitos especiais do filme. Precisava de pelo menos 6 ou 7 meses para fazer corretamente os efeitos visuais e com este tempo pude mudar certas coisas que funcionaram no set mas depois não estavam bem na versão final. Nesse aspeto, foi muito bom para mim ter mais tempo.

Depois, sinceramente, não sei se o filme, mesmo sem a pandemia, seria lançado antes do Project Power. Talvez as pessoas tenham tempo para esquecer de certa maneira esse filme e vejam o meu sem o comparar. Mas, claro, teria sido melhor o “Como Me Tornei um Super-herói” ter sido lançado antes desse.

Como Me Tornei um Super-herói

É fã dos super-heróis? Da Marvel, etc.?

Totalmente. Grande fã das bandas-desenhadas. Cresci e fui habitado por elas. As séries animadas do Batman, na década de 1990, também me fascinaram. Era viciado nelas. Mesmo sendo um grande fã disso tudo, nunca pensei fazer um primeiro filme sobre super-heróis.

Era um pouco irrealista para mim, mas a leitura do romance fez-me refletir e avançar de uma forma francesa e inédita. Encontrei também temáticas que me interessam e um universo de personagens desencantadas com o estado das coisas. 

Quais as maiores dificuldades e os maiores desafios que encontrou para concretizar este projeto?

Para mim foi a escrita do argumento, o encontrar o equilíbrio entre o filme de super-heróis e o policial. Temos muitas vezes aqui a impressão que temos dois filmes que coabitam num só. Foi complicado encontrar a dose certa de cada um desses elementos. 

As primeiras versões do guião tinham vários super-heróis, mas fui cortando. Encontrar também os fatos certos para eles foi um desafio, isto porque eles estão enfiados num universo de polícias. A preocupação pelos tecidos, acessórios e a mistura disso tudo no universo policial foi um grande desafio.

Cineastas como Martin Scorsese dizem que os filmes dos super-heróis, os da Marvel, não são propriamente cinema. Acha que Scorsese ia gostar do seu filme?

Não faço ideia (risos). Primeiro, acho que ele nem sequer o vai ver. Mas vamos lá ver, é o Martin Scorsese. Ele pode dizer o que quiser, eu não sou ninguém para o contradizer. Para mim, um filme é cinema, existem depois é bons e maus filmes. 

Na verdade não concordo muito com essa coisa de isto é cinema e aquilo não. Todos os filmes são cinema. Há bons filmes de super-heróis e outros que são verdadeiramente maus.

Qual é um bom filme de super-heróis?

Gosto dos mais recentes da Marvel, mas prefiro os mais antigos como o Homem-Aranha do Sam Raimi. Ou o segundo Batman do Tim Burton. E sou um grande fã do Unbreakable, do M. Night Shyamalan. Aliás, inspirei-me de certa forma nele em certas ideias do meu filme. Uma coisinha aqui e ali.

E quando começou a trabalhar neste filme tinha a ideia de uma continuação ou era um projeto isolado?

Não tinha a ideia de uma sequela, mas temos uma cena final onde não queria privar os fãs do género de uma eventual hipótese de continuação. Lanço de certa maneira a questão se será que estão interessados nisso. Gostariam de ver uma continuação?

Os espectadores agarraram-se às personagens e por isso comecei a pensar numa eventual continuação. Para já, este está feito, o resto vê-se depois. Talvez até possa fazer uma série de TV com os jovens que estão no filme, como a personagem da Leila Bekhti.

Gostaria de fazer uma minissérie onde estes jovens estariam e iríamos acompanhar aquilo em que eles se iriam transformar.  

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