“Defeitos especiais” marcaram a conversa de Gianfranco Rosi com o C7nema. O Zoom simplesmente abortou qualquer canal de som do lado dele, inviabilizando a conversa, gerando uma pantomima em que nós e o entrevistado tentávamos acertar as coisas, numa situação mais próxima a uma comédia Jacques Tati do que ao cinema documental, terreno onde o realizador de origem italiana (com cidadania americana), nascido na Eritreia, há 57 anos, milita com ardor.
Depois de muitas tentativas e troca de instruções do que fazer, a conversa transitou para o telefone, de modo a evitar as turbulências digitais, numa conversa acerca dos procedimentos narrativos da sua mais recente longa-metragem: “Notturno” (Nocturno).
Filmada ao longo de três anos no Médio Oriente, nas fronteiras entre Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, procurando a rotina daquele canteiro do mundo por trás das suas contínuas guerras civis e ditaduras ferozes, a produção está prestes a estrear em Portugal, cercada de elogios.

O filme foi ovacionado do Festival de Veneza, levando o prémio da Unicef pelo humanismo na sua colagem de diferentes formas de se lidar com a violência, a fé e os desígnios do Estado Islâmico. O seu sucesso só fez ampliar prestígio a um dos raros cineastas em atividade no cinema a ter no currículo um Leão de Ouro (dado a ele por jurados chefiados por Bernardo Bertolucci, em 2013, por “Sacro GRA”) e um Urso de Ouro (atribuído por um júri presidido por Meryl Streep a “Fogo no Mar”, em 2016). Essas duas láureas fizeram de Rosi um dos documentaristas de maior prestígio da atualidade, tendo conquistado, no Brasil, uma retrospectiva online recente, organizada pela plataforma MUBI.
O streaming dedicou a ele uma retrospectiva das suas longas, chamada O Esplendor da Verdade. Nela estão pérolas como “Boatman” – aclamado em Sundance, em 1994, pelo seu retrato de uma viagem pelo rio Ganges – e “Below Sea Level” (2008), vencedor do Prémio Horizontes de Veneza, na terra das gôndolas, ao registar a realidade de pessoas que viraram as costas ao sonho americano, vivendo um deserto. Alguns dos segredos que fizeram de Rosi uma popstar da não ficção podem ser conferidas nas perguntas do C7 a seguir, misturando essa troca que o Zoom quase boicotou e conversas anteriores, em Berlim.
Como se dá, na prática, o seu procedimento de filmagem?
Não acredito no conceito “observação”, na maneira como trabalho, uma vez que me engajo com o universo que retrato, vivendo nele, interagindo com as pessoas que dele fazem parte, assumindo para mim a responsabilidade de operar a câmara e de captar o som. Nesse empenho de concentrar os esforços criativos, vivo aquele ambiente de maneira frontal e, nessa relação, consigo decidir e definir como a expressão sonora será desenhada, em termos técnicos, pois tenho tempo de escuta.
O que transforma “Notturno” num filme político, se é que assume o termo?
Seria mais fácil perguntar o que não o transforma, uma vez que todo discurso cinematográfico ganha um tónus político, sobretudo quando olha para uma realidade que não lhe pertence. Não é a imposição de uma ideologia o que determina a natureza política de um filme, mas a própria aproximação a um modo de viver. O documentário, por sua natureza de orçamento mirrado em comparação com a ficção, parece necessitar um sentido político para existir. Discordo. Documentários podem ter bandeira, mas eles são exercícios de linguagem antes de tudo. A instância poética da narrativa documental é a liberdade de se ver diante de um mundo palpável, belo, mas com cicatrizes.

Um dos pontos mais elogiados de “Notturno”, desde a projeção em Veneza, em setembro, é a maneira como o senhor parece esgarçar o tempo, deixando cada núcleo de pessoas pelas quais flana expressar o seu quotidiano, sem intervenções ou interferências. Numa recente entrevista ao Estadão, no Brasil, disse que “Momentos são metonímias de uma vida”. Qual é a relação que o seu cinema documental procura estabelecer com o tempo?
Existe o tempo do filme, aquilo que preciso narrar, e existe o tempo das descobertas, que são feitas ao longo do processo. Os dois trabalham juntos na montagem. Os meus “protagonistas” são os lugares em que filmo. Entender o “tempo desses lugares” é entender como a sua gente se relaciona, como a natureza baliza as convivências.
“Notturno” é um filme que se passa num contexto geopolítico de guerras. Como se dá a sua abordagem da violência nesse ambiente?
A minha proposta é abordar o dia a dia das pessoas que vivem ali e a brutalidade é parte dele. Dar voz a mães, a crianças, a pessoas que vivenciam a violência é a maneira de documentá-la sem incorrer em idealizações ou glamour.

