Depois de expor muito de si na personagem de “Lady Bird” McPherson, Greta Gerwig volta a “despir-se” nesta nova versão de As Mulherzinhas na forma de Jo March, novamente interpretada por Saoirse Ronan, isto depois da personagem já ter sido vivida no cinema por nomes como Katharine Hepburne e Winona Ryder.

Tal como Jo March, que por si só já era um alter ego da autora Louisa May Alcott (“a solteirona” que “preferia remar a sua própria canoa”), Gerwig tenta afirmar-se num mundo regido por uma visão patriarcal, entregando uma história fiel às suas origens do século XIX, mas de forma moderna e com uma enorme ressonância com o presente, especialmente em tempos de movimentos como o Time’s Up e 50/50 (é incrivel como um século depois ainda se pede por igualdade).

Não é à toa que a certo momento um editor diz a Jo que no final da história que ela está a escrever, a protagonista feminina tinha de casar ou, em alternativa, morrer. Essas eram as duas únicas hipóteses para o término de uma história no feminino naqueles tempos, mas esta conversa do editor podia bem servir para um produtor de cinema de Hollywood nos últimos 30 anos, demonstrando que as metas e ambições no feminino continuam a ser uma questão primordial, ainda que pelo caminho tenham-se aberto novos trilhos e liberdades, ou como a Tia March (Meryl Streep) ressalva a certo momento neste filme, dinheiro e riqueza sempre foram “a chave” para a independência e emancipação. Mas Jo, tal como a sua família, não tem esse dinheiro, e a própria autoria e venda dos seus contos é vista como uma forma de atingir essa independência, ou pelo menos de sobrevivência (ou isso, ou a venda do cabelo).

Ora, o nascimento de um artista – Jo e Gerwig – e a fuga à dependência e ao predestinado (o casamento e a maternidade como o apogeu no feminino) são o centro nevrálgico desta viagem de mais de duas horas de cinema, mesmo que tudo o que venha até nós seja entregue em doses adocicadas de melodramatismo, e os bons e os maus momentos sejam esteticamente trabalhados de forma semelhante, como que impondo um olhar formatado, académico e comercial, que não deixa de ser belo, mas que revela ser mais anónimo do que uma autora a tentar impor-se deveria mostrar.

É que é verdade é que Gerwig filma bem e constrói um conjunto de planos e enquadramentos – em parceria com a direção de fotografia – que não só respeitam a estrutura e tom clássico da história de base e dos filmes antecessores, mas acrescentam modernidade, no entanto falta ainda uma assinatura muito própria da realizadora, uma chama, algo que curiosamente ela conseguiu rapidamente atingir na interpretação, e que Saoirse Ronan – mais uma vez num papel que há anos atrás seria certamente seu – não consegue igualar.

Mas são mais os aspetos positivos que os negativos por aqui, e um bom exemplo de uma boa decisão que trouxe um novo dinamismo vem na forma como Gerwig conta a história através de linhas temporais distintas que se entrecruzam de maneira ritmada, estruturada e sem qualquer confusão.

Tudo isto (onde se alia a direção de atores) representa um avanço considerável na maturidade cinematográfica da realizadora, que facilmente tem aqui o seu melhor filme e uma das melhores adaptações ao cinema de uma história que não só fala de Jo, Meg, Beth e Amy, mas também de Louisa, Greta e de todas as mulheres que lutam por reconhecimento e emancipação.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Fernando Vasquez
Hugo Gomes
little-women-classico-com-sotaque-moderno-mulherzinhasJo, Louisa, Greta. Não interessa o nome, mas o reconhecimento e emancipação nesta nova versão de As Mulherzinhas