Já com duas décadas de carreira, Michel Leclerc tem usado a comédia como opção privilegiada para confrontar as convicções políticas e sociais com as contradições da vida quotidiana. Basta olhar para Le Nom des gens (2010), onde uma militante de esquerda procura converter homens de direita através do sexo; Télé Gaucho (2012), mergulhado numa televisão militante de extrema-esquerda; La Lutte des classes (2019), com um casal progressista a descobrir os limites dos próprios ideais quando chega a hora de escolher a educação do filho; ou Le Mélange des genres (2025), já no terreno do #MeToo.

Mudam os assuntos e os dispositivos, mas em Leclerc permanece o gosto por personagens cujas certezas ideológicas são postas à prova pela realidade. Isso volta a acontecer em Les Caprices de l’Enfant Roi, que, longe de representar qualquer rutura, revela traços de continuidade. É que se o debate entre esquerda e direita, burguesia e povo, ou homens e mulheres toca sempre, de uma maneira frontal ou não, nas questões do privilégio e da classe, o confronto entre o jovem Luís XIV, que é chave neste seu novo filme, e aqueles que vivem fora da corte volta a colocar mundos sociais distintos em colisão.

Les Caprices de l’Enfant Roi começa por avisar que aquilo que vamos ver é “uma história rigorosamente verdadeira, exceto para os historiadores”. Estamos em 1651, em plena Fronda, período de revoltas contra o poder real, quando Ana de Áustria (Doria Tillier), temendo pela segurança do filho, decide retirar o jovem Luís XIV (Niels Hamel-Brochen) da corte e colocar um sósia no seu lugar.

D’Artagnan (Franck Dubosc, em modo pateta) fica encarregado de o proteger, mas acaba por entregá-lo a Cyrano de Bergerac (Artus), que, por sua vez, o esconde junto da companhia teatral de Madeleine Béjart (Julia Piaton) e do ainda jovem Molière (Némo Schiffman).

Há que entender que dificilmente todas estas figuras históricas se terão cruzado desta maneira, e é precisamente nessa improbabilidade, nessa invenção, que Leclerc encontra o ponto de partida para a sua fantasia histórica, especulando sobre cada uma das figuras que apresenta, seja o romântico Cyrano, o patético D’Artagnan, o mimado Luís ou a desleal prima do rei, Anne-Marie-Louise d’Orléans (Suzanne de Baecque), a Grande Mademoiselle.

Movendo-se sempre numa construção de sketches que tanto pisca o olho ao romance como ao registo de capa e espada, sempre sob os auspícios da comédia, Leclerc requisita também o teatro para introduzir a questão das máscaras sociais que cada um usa, enquanto a linguagem contemporânea colide com o verso clássico num filme de época que, afinal, não está assim tão distante do cinema que o cineasta vinha a fazer.

Embora tenha momentos em que é inevitável rir, tudo acaba por ser demasiado familiar, como se toda esta liberdade para brincar com a História e colocar o poder no palco nunca encontrasse uma irreverência equivalente na própria forma, que, ainda que burlesca, cede mais ao óbvio do que ao inusitado.

Também os atores parecem, por vezes, puxar o filme em direções diferentes. Veja-se Artus, entregue aos excessos de Cyrano, enquanto Franck Dubosc transforma D’Artagnan numa máquina de gags, entre o patético e o heroico em decadência. Já Julia Piaton e Némo Schiffman encontram um tom mais contido na relação entre Madeleine Béjart e Molière, enquanto Niels Hamel-Brochen tem a difícil tarefa de distinguir Luís XIV do seu duplo. Nisto tudo, Suzanne de Baecque parece ser quem melhor aproveita a liberdade prometida pelo filme, fazendo da Grande Mademoiselle, Ana Maria Luísa de Orleães, uma presença tão excêntrica e desvairada que quase parece ter percebido antes dos outros o filme verdadeiramente hilariante que Leclerc deixou escapar entre os dedos.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/0k10
Pontuação Geral
Jorge Pereira
les-caprices-de-lenfant-roi-o-filme-hilariante-que-michel-leclerc-deixou-escaparEmbora tenha momentos em que é inevitável rir, tudo acaba por ser demasiado familiar, como se toda esta liberdade para brincar com a História e colocar o poder no palco nunca encontrasse uma irreverência equivalente na própria forma, que, ainda que burlesca, cede mais ao óbvio do que ao inusitado.