Até ser reinventado por Peter David, nos anos 1990, em BDs nas quais teve o seu punho trocado por um gancho, Aquaman sempre foi objeto de chacota oceano afora, por culpa da sua versão animada, flamboyant em demasia, feita para o canal CBS de 1967 a 70. Nela, o vigilante de madeixas louras singrava os mares montado num cavalo marinho e falava com os peixes, com um visual à la Troy Donahue, com o cabelo sempre alinhado. David fez-lhe crescer cabelo, dando-lhe um ar grunge à la Kurt Cobain, libertou a selvageria e ofereceu aos comics uma nova contingência: sob a pressão oceânica, o DNA híbrido (metade humano, metade cidadão da Atlântida) garante ao herói uma superforça capaz de rivalizar com a do Superman. Muda tudo ali para o justiceiro criado em 1941 por Paul Norris e Mort Weisinger, na edição número 73 de “More Fun Comics”. Mudou mais ainda quando o Maciste havaiano Joseph Jason Namakaeha Momoa aceitou interpretá-lo nas telas, a partir da sua participação em “Batman vs. Superman” (2016). Momoa deu-lhe músculos, humor e picardia. Tudo o que faz de “Aquaman and The Lost Kigdom” o cinema pipoca que faltava para fechar o ano cinematográfico de 2023 com um sucesso hollywoodesco marinado com especiarias de inteligência. James Wan é o culpado. E, graças a ele, o filão “super-heróis”, hoje em ruínas, pode ter sobrevida.

Antes que se esmiúce a sua indisfarçável alusão ao formato space opera de “Star Wars”, dando a Aquaman um jeito Han Solo de ser, a assumir o outrora vilão Rei Orm como um Kylo Ren bem resolvido, é necessário que se elogie a exuberante direção de arte da longa-metragem. Cerca de dois anos depois do engenhoso “Maligno” (2021), Wan depura plasticamente todo o legado gráfico do Rei dos Mares, conversando sobretudo com a saga “A Reconquista da Atlântida”, com argumento de Robert Loren Fleming, guiões do génio Keith Giffen e desenhos de Curt Swan. A fotografia do filme, já em circuito, é de Don Burgess, parceiro habitual de Robert Zemeckis, nomeado ao Oscar por “Forrest Gump”, em 1995. Habitualmente apolíneo, Brugess entra mar adentro com uma luz mais dionisíaca, a conversar com todo um receituário pop dos comics, construindo quadros hipercoloridos, próximos à linguagem das graphic novels da DC Comics, a editora do Aquaman.   

No papel do ex-rei Orm, o Mestre dos Oceanos, Patrick Wilson devora para si os holofotes de “O Reino Perdido”

Wan vem do terror. Construiu a sua (boa) reputação no terreno do medo. Mas saiu-se bem no âmbito das tramas de vigilantes uniformizados. Responsável por uma receita estimada em 3,7 mil milhões de dólares, relativa às bilheteiras de todos os filmes que realizou desde o sucesso inesperado de “Saw – Enigma Mortal” (2004), o australiano de descendência malaia tinha todas as razões (de mercado, não artísticas) para se manter 100% focado na seara das longas-metragens milionárias e não se dispensar em projetos de baixo orçamento, sem estrelas. No entanto, ele segue a namoriscar com expressões autorais em múltiplos níveis, incluindo os de baixo orçamento, sem arredar pé do chamado cinema mainstream.

Produtor de prestígio, responsável por supervisionar rentáveis derivados da sua própria obra autoral, como “Annabelle” (2014) e “A Freira” (2018), Wan quebrou com os protocolos ditos operacionais da indústria que o acolheu. É praxe no cinema ver realizadores que ascendem ao sucesso nas engrenagens de Hollywood, no comando de uma superprodução, optarem, na sequência da sua consagração, por filmes tão ou mais caros, de modo a verem nessa aposta em orçamentos gigantes uma casta para se encaixarem. É como se o encaixar no ambiente dos blockbusters os obrigasse a lá ficar, olhando com certo desprestígio a circulação por projetos de baixo custo. O mesmo se passa com realizadores estrangeiros que, uma vez “importados” pelos EUA, recusaram a voltar a filmar na sua pátria natal, considerando esse gesto uma involução. São posturas que jogam a ambição estética para um segundo lugar em nome de um padrão de excelência industrial. Pouca gente ousou desafiar essa norma, como foi o caso da polaca Agnieszka Holland, do catalão Jaume Collet-Serra e, agora, de Wan. Ele não virou marca por se ajustar a padrões e, sim, por transcendê-los, sem desrespeitá-los. Daí fazer “Maligno” como filme B e regressar ao esquema dos filmes de custo altíssimo e lá impor suas regras, entre elas marcar a presença da atriz Amber Heard (no papel da rainha e heroína Mera). Problemas com a Justiça afetaram o prestígio dela, num litígio com o seu ex-companheiro, o ator Johnny Depp. Só que Wan – apoiado por Momoa – exigiu que ela ficasse no novo filme de Aquaman, e com bom destaque. Todas as sequências dela são carregadas de efeitos visuais impressionantes (e nada repetitivos ou óbvios). Aliás, todo o “The Lost Kingdom” é assim, à exceção da desnecessária (e escatológica) sequência pós-créditos. É uma aventura ligeira, leve e calcada no carisma de todo o elenco.

Jason Momoa traduziu no cinema o perfil grunge dado pelo escritor Peter David, nos anos 1990, ao herói criado em 1941



Depois do retumbante fracasso de “As Marvels”, precedido por desastres também com as recentes aventuras do Homem-Formiga e do Shazam, a hegemonia dos filmes de super-heróis sobre as bilheteiras, em todo mundo, depende de “Aquaman 2: O Reino Perdido” para se salvar do desastre iminente. O filme entra em cartaz de olho nas plateias e o enredo fala de vingança, o tema dos temas. Após fracassar no seu primeiro confronto com Aquaman (Momoa), o já citado Black Manta (interpretado por Yahya Abdul-Mateen II), movido pela necessidade de vingar a morte do pai, não vai desistir enquanto não derrotar Aquaman de uma vez por todas. Agora mais temível do que nunca, ele detém o poder do mítico Tridente Negro e a sua ancestral força malévola. Para derrotá-lo, Aquaman recorrerá ao irmão Orm, o ex-Rei da Atlântida, o vilão da longa-metragem anterior, ainda na prisão, para forjar uma aliança improvável. Nas raias da irascibilidade, essa personagem é encarnada por Patrick Wilson, ator fetiche de Wan.

Fora do habitat do medo, Wan transformou o que deveria ser “mais um filme de super-heróis” em uma fábula nos moldes de “Excalibur” (filme de culto de John Boorman de 1981). Com o seu estilo singular de representar o Mal, o cineasta pode salvar um género e provar que Aquaman é uma iguaria fina. Mais do que isso: pode ampliar a relevância de Wilson na cultura nerd. É um ator em estado de graça, que se lançou como realizador este ano com “Insidous: The Red Door”. No papel de Orm, ele quase rouba o filme da DC para si.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
aquaman-e-o-reino-perdido-aguas-serenas-para-aclamar-a-turbulencia-dos-super-heroisWan transformou o que deveria ser “mais um filme de super-heróis” em uma fábula nos moldes de “Excalibur”