Difícil não lembrar do cinema de Tsui Hark quando observamos este “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, mais um produto da Marvel, mas que se não tivesse para lá os portais portais místicos que permitem atravessar para outros reinos, e algumas personagens desse mundo vindo dos comics, passava facilmente por um objeto a solo e nada dependente desse universo.
E entenda-se que quando dizemos universo, ainda falamos do da Marvel, não no da Disney, que mais uma vez sente-se em toda uma narrativa baseada em entropias familiares que colocam novamente o mundo em risco.*
Wuxia ocidentalizado e comercialmente espertalhão (tanta nova criatura para encher prateleiras de merchandise), “Shang-Li” tem no seu primeiro terço os seus melhores momentos, especialmente quando a personagem título (interpretada por Simu Liu) abandona o seu nome americano (Shaun) para usar o chinês (Shang), arrastando a sua colega e amiga de sempre, Katy (Awkwafina), com quem trabalha e desperdiça talento a arrumar carros num hotel, numa aventura repleta de artes marciais e magia
Sequências de luta num autocarro (com um toque inspiratório de Jackie Chan) e depois num edifício cercado de andaimes em Macau são uma delícia para o espectador sedento de cenas de ação energéticas, mas a partir do momento em que Shang-Li reencontra o pai, o peso aborrecido e sentimental da Disney lá nos atropela, num vai e vem de guerras familiares que adormecem a ação e não contribuem em nada do ponto de vista emocional ou para o desenvolvimento das próprias personagens.

É quando começa o último terço que o filme volta a ganhar fulgor e espetacularidade, especialmente nos momentos em que várias criaturas místicas, na velha luta do bem contra o mal, começam a decorrer em paralelo a um outro conflito entre exércitos. É nesta fase que se sente mais o toque inspirador do cinema de Tsui Hark, que regou boa parte da sua carreira com obras que misturavam ação, mistério e muita ficção científica e fantasia, fugindo do rótulo sobrenatural supersticioso para escapar à censura chinesa.
Naturalmente, esse toque de Hark é aqui contido entre quatro paredes num objeto que nunca perde a sua orientação dramática e coloca em cena um humor ligeiro e circunstancial para entreter as massas, com Awkwafina a ser o principal motor das piadas.
Ainda nas interpretações, Simu Liu demonstra ser eficaz e carismático, dotes que sobejam a Tony Leung e Michelle Yeoh, e são mal aproveitados por um Ben Kingsley de regresso com muito pouco para acrescentar além de umas graçolas imediatas.
Feitas as contas, “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” revela-se um objeto competente e espetacular q.b. dentro de um universo, fórmula e modelo industrial que dificilmente deixa alguém ser verdadeiramente arrojado e refrescante. Destin Daniel Cretton esforça-se nesse sentido e deixa alguns toques do seu cinema aqui e ali, mas tudo é esmagado pela formatação imposta por uma grande empresa que agora já não se preocupa apenas em fazer novos filmes, mas séries para encher o streaming e outros produtos derivados.
*Talvez fosse hora da Disney enviar psicólogos ou terapeutas de família para tratar dos seus grande vilões, dica que tanto serve para o mundo Marvel, como Star Wars e até Pixar





