Depois do sucesso de bilheteiras que se revelou “Variações”, com praticamente 300 mil espectadores nas salas, a nova aposta nacional em torno das biografias ligadas à música desta vez leva-nos até ao universo das Doce, a primeira girls band nacional que deu que falar na década de 1980, não só pelos sucessos musicais e participações na Eurovisao, mas também devido a escândalos associados a algumas das mulheres que integravam a banda, em particular Laura Diogo e o boato ruidoso que se instalou na sua vida sobre um determinado caso com o futebolista Reinaldo.
Para executar este “Bem Bom” foi chamada Patricia Sequeira, realizadora do bem conseguido “Snu“, que aqui mais uma vez mostra qualidade perante as limitações orçamentais óbvias, que mais uma vez – e como também se sentia em “Variações” – levam as filmagens destes dois projetos essencialmente a decorrerem em interiores, com muito poucos figurantes e uma necessidade clara de focar a câmara, especialmente nos concertos, na própria banda e não no publico, fazendo a direção de fotografia e a montagem tudo o que pode para nos dar mais que qualquer telefilme ou novela de luxo o faria.
No seu jogo entre drama biográfico com alguns momentos de humor, “Bem Bom” é sempre ligeiro, romanceado, timidamente tocando aqui e ali em alguns temas mais complexos, como o machismo (sucessivas situações), o racismo (o caso Reinaldo) e até o snobismo (“Um cirurgião alguma vez vai casar com a loira das doce?”). Porém, e principalmente, esta é uma jornada de fraternidade entre quatro mulheres que partem em tournée por um país que ainda não estava preparado para a invasão pop que elas representam. E visitando-se a banda visita-se – ainda que superficialmente – alguns factos das suas vidas pessoais.
O elenco de atrizes surge de forma compacta, com particular destaque para Carolina Carvalho (a viver Lena Coelho), um poço de charme e sensualidade que invade os ecrãs e nos rouba a atenção a cada instante, um pouco como acontecia com a Lena Coelho nas Doce. Menos bem está o elenco masculino, muito caricatural e orientado para a comédia, empalidecendo um pouco o filme.
Contudo e no final, temos assim um objeto fílmico simpático, com qualidade mas também limitações e entraves. Está na altura de Patrícia Sequeira ter um pouco mais de orçamento e avançar para algo que não seja uma biografia, até porque já anteriormente mostrou que tem aquela costela de realizadora, principalmente para o pequeno ecrã, mas que entende e sabe lidar perfeitamente com a linguagem do cinema, como demonstrou em “Snu” e “Jogo de Damas“.




