Basil da Cunha e Eliana Rosa emocionam com “Manga d’Terra”

(Fotos: Divulgação)

A frase é de Basil da Cunha, mas foi subscrita pelo público do Festival de Locarno e por este escriba: “Nasceu uma estrela”. A jovem Eliana Rosa, portuguesa e cabo-verdiana, brilha e encanta todos os frames em que surge no novo filme de Basil da Cunha, que novamente centra a sua atenção na Reboleira, Amadora, nos subúrbios de Lisboa.

Em “Manga de Terra” ela é uma jovem que ambiciona ser cantora, e que após alguns atritos com as mulheres que a vão acolhendo, vê-se à deriva num local onde tem de lidar com invasões policiais constantes e o machismo generalizado. 

Muito intuitivo e sempre se sentindo orgânico, “Manga dTerra” nasceu como curta-metragem, mas foi crescendo, transformando-se mesmo numa longa-metragem com contornos musicais onde solta-se o humor com igual frequência. “Queria fazer uma coisa em que as mulheres são o centro da história e mostrar a sua força. Queria mostrar tudo o que não mostrei nos meus filmes anteriores, que eram filmes de rapazes, de cowboys”, explicou-nos Basil da Cunha, por entre risos, no Festival de Locarno, onde o filme teve a sua estreia mundial.

Nascido na Suíça, Basil da Cunha tem dedicado grande parte do seu tempo e carreira a filmar na Reboleira, tendo assinado obras como “Até ver a luz “ (2013), que marcou presença na Quinzena dos Realizadores de Cannes, e “O Fim do Mundo” (2019), que estreou em Locarno. Mas em Manga dTerra” o realizador supera-se, admitindo isso mesmo: “Ri imenso nos outros filmes que fiz, mas depois vi que era só eu que o estava a rir”.

Sempre com a improvisação dos diálogos a surgir, e com a montagem a acertar as coisas, Basil da Cunha carregou na universalidade do mundo feminino, criando situações de puro drama, mas outras de humor em pleno, com mulheres ciumentas a serem carregadas às costas, ou conversas sobre o volume do “material” dos homens nas fotos do Instagram, que certamente são “coisa de Photoshop”.

Quando vives nestes bairros sentes que a comédia e o drama andam lado a lado”, explica-nos Basil, acrescentando que, por exemplo, quando alguém da equipa técnica é da classe média alta, sente um ambiente pesado, como que olhando para tudo com miserabilismo. “Há malta muito fixe, de esquerda, antirracistas, mas que [sem se aperceberem] mostram uma condescendência. Tenho sempre de pensar o que vou fazer para o pessoal sair desse registo e começar a rir e divertir-se nas filmagens”.

Sobre as cenas cantadas, os olhos de Basil brilham quando diz, repetidamente, foi tudo cantado ao  “vivo, sem pós-produção [musical]”, identificando o trabalho de correção de cor à base das cores primárias, à la Melvin Van Peebles: “O cinema pode criar mitos e o papel que devemos ter é inscrever estas pessoas [que ninguém fala] na nossa história, na Tuga.”

Já Eliana Rosa, a estrela cintilante de Manga de Terra”, vê esta sua primeira experiência no cinema como “cansativa”, mas “incrível”, sentindo-se completamente “maluca” com a reacção que o público de Locarno está a ter ao filme e aos seus dotes musicais, que foram aqui também apresentados num pequeno espetáculo. “Sou muito abençoada, juro. Tudo isto é muito gratificante”, disse-nos a jovem cantora, transformada em atriz, ainda a tentar aperceber o carinho que está a receber. “Conseguir fazer um filme, trabalhar naquilo que quero trabalhar, viajar para outros países, cantar para as pessoas ouvirem. Tenho tudo o que quero”.

Sobre a Rosa que vemos no ecrã, muito dela está na própria Eliana, “principalmente a parte do assédio”, como nos disse: “Imensas vezes sinto esse assédio, os olhares, a falta de respeito. E sou igualmente imigrante, por isso sinto isso também. E sou cantora. Muito do que está no filme é também a minha história. (…) Tenho uma facilidade que muitos cabo-verdianos não têm. O meu pai veio há muitos anos para Portugal e passou mal aqui. Ele dizia-me sempre que quando eu viesse ia-me dar os documentos. Eu não ligava, não fazia ideia da importância disso. Agora que sou cantora e tenho de viajar a outros países, sei a importância disso tudo para um visto. Já me aconteceu, quando não tinha nacionalidade, não ter visto para viajar. Quando vim para Portugal e tive logo os documentos percebi e dei logo mais valor a essa questão. Claro que sinto saudades de casa, Cabo Verde, mas também gosto muito daqui. E sou muito bem tratada. Quando se fala do imigrante, muitas vezes fala-se do que não tem os documentos e é injuriado por isso. Eu tenho muita sorte. Eu, a Eliana. Com a personagem que interpreto, a Rosinha, não é assim e acontece-lhe o que acontece à maioria. [Por causa dessa falta de documentos] têm de trabalhar nos piores empregos, submeter-se a muitas coisas e viver uma vida de porcaria.”

Com a certeza que irá participar no próximo filme de Basil da Cunha – que inicia uma trilogia onde vai juntar todos os atores com quem trabalhou até agora (os que podem), e que vai ter a Reboleira novamente em foco, mas sairá dela – Eliana vai prosseguir a apostar na carreira musical, autoproduzindo as suas músicas de forma a ter mais liberdade criativa: “Quero conseguir fazer as minhas coisas sem ficar presa a ninguém. Estamos a preparar um EP de quatro músicas, algumas das quais estão no filme. Já era para ter sido lançado antes de Locarno, mas com a preparação do videoclipe é um bocadinho complicado. Queremos, até o filme ser lançado em Portugal, ter um videoclipe no ar. Se Deus quiser, vão surgir mais contactos. O concerto aqui ontem foi incrível. As pessoas gostaram imenso, estava tudo a dançar. Agora queremos ter mais oportunidades. Levar o filme para outros sítios”.

Manga de Terra” chega aos cinemas portugueses a 6 de junho.

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