Em virtude da crise global causada pelo Covid-19, o CPH: DOX decidiu lançar sua edição 2020 numa versão digital. Uma edição que o C7nema seguiu com particular atenção
Todos os anos, cerca de 20 milhões de metros cúbicos de madeira são extraídos ilegalmente das florestas da Roménia. As realizadoras e produtoras Ebba Sinzinger, Monica Lazurean-Gorgan e Michaela Kirst tentam neste seu documentário Wood mostrar quem está por trás do gigantesco negócio do abate ilegal, transformação e posterior venda ao público, entrando num submundo de verdadeiros criminosos, capazes de assassinarem guardas dos parques florestais ou até mesmo tentar envenenar ministros com poder de decisão legislativa sobre o negócio.
Nesta peça do que há de melhor na investigação jornalística, transformada em documentário para circuito em festivais, a chave das descobertas está em Alexander von Bismarck, diretor de uma ONG que junto a uma equipe internacional disfarça-se e infiltra-se em grandes empresas madeireiras, documentando como várias produzem e vendem madeira cortada ilegalmente. O caudal de investigação acaba por desaguar particularmente na austríaca Holzindustrie Schweighofer, a qual emprega 3 mil pessoas na Roménia, mas o que entendemos – ou ganhamos uma maior noção – é que essa empresa é apenas a ponta do iceberg de um negócio demasiado frágil na sua regulação, comparativamente às implicações que tem à escala planetária.
Visitando a Roménia, os EUA, e o Perú, entre outros locais, o trio de cineastas desconstrói em jeito de thriller alguns esquemas que bem conhecemos do mercado financeiro e mafioso, como a “lavagem de dinheiro”, aqui centrada neste cosmos laboral, com indígenas a serem usados como peões numa verdadeira “lavagem de madeira”, algo que certamente acontece igualmente em Portugal, tal o enorme volume de incêndios florestais com origem criminosa e dificuldade de escoação do produto.
E se há algo que este objeto demonstra bem, é que as ramificações criminosas e a ganância corporativa nunca surpreendem na produção e novas vítimas, e na mais absoluta falta de noção e injustiça na execução de verdadeiros crimes ambientais.

