Especial Tintin: Parte I | Especial Tintin: Parte II | Tintin: As personagens inesquecíveis
Desenhos claros e comunicativos
Uma característica de estilo em que Hergé se haveria de especializar seria na criação de desenhos claros e muito comunicativos em que o rigor do detalhe existente (a caracterizar os personagens, a delinear a fisionomia das paisagens ou dos modelos automóveis, por exemplo) nunca perturbaria o fio da narrativa. É, por exemplo, um desafio descobrir sombras nas vinhetas de Tintin. Nos raríssimos casos em que isso acontece, a acção desenvolve-se, curiosamente, de noite!
A própria evolução de uma vinheta em Tintin acontece apenas com o lápis a trabalhar em torno de meia dúzia de traços, como se constata nas imagens seguintes.
O “pai” de Tintin
Hergé (1907-1983) é o criador de Tintin. Ao contrário do que se possa pensar, Hergé não é, todavia, o nome verdadeiro do “pai” do Tintin. Hergé é o nome artístico de Georges Remi, um belga nascido em 22 de Maio de 1907, em Etterbeek, comuna de Bruxelas, Bélgica.
Em 1966, Hergé explicava a um fã como é que a ideia de criar Tintin lhe surgiu. Esta história dentro da história de Tintin foi recuperada pelo jornal Público em 13 de Setembro de 2003, segundo o qual Hergé, em carta a um admirador, afirmou que tudo ocorreu “em cinco minutos. Isto quer dizer que ele [Tintin] não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos. É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintin: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé”.
Mas se Tintin é um destemido repórter sempre em busca de aventura pelas “sete partidas do mundo” não o será por acaso. Este desejo de aventura está também relacionado com o facto de Hergé ter sido escuteiro. E Tintin é uma espécie de escuteiro activo e cheio de dinamismo, amante da natureza, cultivador da paz e defensor dos mais fracos.
Em 1936, Tintin chega a Portugal em “O Papagaio”
De acordo com a investigação do jornalista Carlos Pessoa, especialista em BD do jornal Público, data do meio dos anos 30 do século XX o primeiro contacto dos leitores portugueses com a figura de Tintin. As primeiras aventuras que começaram a ser editadas foram “Tim-Tim [sic] na América do Norte” e apareceram nas páginas do número 45 da revista “O Papagaio”. As datas da publicação: de 16 de Abril de 1936 a 20 de Maio de 1937. Ou seja, cinco anos após a mesma obra ter saído originalmente no “Le Petit Vingtième”. O mais fantástico é que Portugal foi o primeiro país não-francófono a publicar as aventuras de Tintin. Mais: Tintin surgiu logo de início em 1936 a cores, quando na própria Bélgica as suas histórias eram ainda publicadas a preto e branco.
O responsável por esta iniciativa editorial no nosso país foi Adolfo Simões Müller, ao tempo, director de “O Papagaio”, e a quem se deve igualmente a primeira tradução desta aventura de Tintin. No ’“O Papagaio” seriam posteriormente publicadas outras bandas desenhadas de Tintin, como “Os Charutos do Faraó” e “O Lótus Azul”.
Interessante é constatar que Tintin no ’“O Papagaio” era identificado como português e como repórter não do “Le Petit Vingtième” ou do “Le Vingtième Siècle” mas sim do próprio “O Papagaio”. Esta “reposicionamento da pátria de nascimento de Tintin” fez com que a castiça personagem Oliveira de Figueira (português de ginja na obra original de Tintin e atrás mencionada) aparecesse nas páginas de “O Papagaio” como espanhol!
É, aliás, curioso perceber como é que o director de “O Papagaio” toma conhecimento com Tintin e Hergé. O episódio é, novamente, trazido a lume por Carlos Pessoa que evoca uma entrevista concedida ao “Jornal de Letras” em 1987 pelo próprio Müller: “O conhecimento da obra de Hergé [é devida] ao padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina (Bélgica) e conheceu pessoalmente o autor. A segunda Guerra Mundial obrigou Hergé a refugiar-se, em 1940, em França, residindo durante algum tempo em casa de Marijac, um criador francês de BD. É daí que escreve a Adolfo Simões Müller, pedindo-lhe para ser pago não em dólares, mas em géneros alimentares, que se destinavam a um irmão, Paul Remi, prisioneiro de guerra dos alemães durante cinco anos. Em Setembro de 1941 [numa altura, portanto, em que Tintin já era lido em Portugal no “O Papagaio”], Hergé escreve de novo ao director de “O Papagaio” para lhe agradecer o envio de alimentos ao irmão e também um cabaz de biscoitos, café, cacau, chocolate, açúcar e enchidos que ele próprio recebera entretanto de Portugal”.
A partir do fim da década de 60 do século passado – explica Carlos Pessoa -, “as histórias de Tintin voltariam a ser publicadas entre nós na edição portuguesa da revista homónima. A edição em álbum, uma aspiração antiga de Adolfo Simões Müller, só ocorreu nos anos 80 [em 1988, mais precisamente], pela [Difusão] Verbo, porque até essa data os direitos em língua portuguesa eram propriedade de uma editora do Brasil [a Record]”, conclui.
Embora os estúdios Hergé tenham redesenhado as primeiras aventuras por exigências de produção dada a sua extrema simplicidade, depois da morte de Hergé nenhum outro livro de Tintin foi publicado. Espantoso é que as praticamente duas dúzias de álbuns de originais publicados continuem a ter saída ano após ano e a conquistar novos leitores.
Portugueses nas aventuras de Tintin
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