Especial Tintin: Parte I | Especial Tintin: Parte II | Tintin: As personagens inesquecíveis
Em cada novo livro, Tintin e Milú não se vêem confrontados apenas com hábitos e culturas diferentes. Em cada nova terra pisada, Tintin e Milú travam conhecimento com uma legião interminável de figuras, umas hostis e outras amigas. Algumas dessas personagens tornar-se-ão velhos conhecidos e amigos do repórter, surgindo em mais do que uma aventura. Com o tempo, essas personagens que gravitam à volta de Tintin e de Milú passarão a desempenhar um papel cada vez mais relevante, livro após livro, entrando, desse modo, por direito próprio no imaginário colectivo das aventuras de Tintin e no coração dos seus leitores.
Eis uma lista de algumas dessas personagens (Cyrille Mozgovine inventariou 325, de Abdallah a Zorrino, num dicionário de nomes próprios publicado em 1992 pelas Edições Casterman) e suas respectivas características, com a referência também aos livros onde fizeram a sua primeira aparição:
Milú
É o fiel companheiro de Tintin. Segue-o em todas as aventuras, para todas as latitudes, para o bem e para o mal.
Chega mesmo a salvar o seu dono de algumas embrulhadas (das mãos dos empregados do Dr. Müller em “A Ilha Negra” e põe o capitão Haddock K.O. utilizando um osso, quando o “marinheiro alcoólico” tentava degolar Tintin, pensando que a sua cabeça era uma garrafa de champagne).
Louco por ossos ou por um bom pedaço de carne, como compete a qualquer cão, Milú passa as aventuras a enfiar o focinho e a boca nos armários e despensas alheias.
Capitão Haddock
O Capitão Haddock conhece Tintin em “O Caranguejo das Tenazes de Ouro” e nessa aventura surge-nos como um alcoólico inveterado, disposto a qualquer coisa para obter um copo de Whisky. Aliás, o seu caso é mesmo problemático e diversas vezes compromete até a vida dos seus amigos. Alguns exemplos: quase que incendeia por completo o bote que ele e Tintin utilizaram para fugir aos bandidos; confunde a cabeça de Tintin com a rolha de uma garrafa de champagne e quase o decapita; parte uma garrafa de whisky na cabeça de Tintin quando este está aos comandos do hidroavião em que seguiam.
Todavia, após uma difícil e perigosa viagem ao deserto do Saara (em “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”), o capitão retracta-se de todas as asneiras e é graças a ele que a polícia consegue capturar o bandido Djebel Amilah e prender toda a tripulação do Karaboudjan. No final, tudo chega a bom porto, com um curado capitão a fazer uma palestra radiofónica subordinada ao tema: O álcool, inimigo do marinheiro”. Mas se os admiradores de Tintin julgavam que esta tinha sido a completa pacificação do Capitão Haddock na sua relação com a bebida, Hergé reservou-lhes um volte-face. É que, precisamente, aqui inicia-se a aversão do capitão por um simples copo de água! E o seu gosto pelo whisky não desaparece!
Em “A Estrela Misteriosa”, Haddock é apresentado como o presidente da LMA – Liga dos Marinheiros Anti-Alcoólicos, o que não o impede de rechear a caixa de primeiros-socorros do seu navio com inúmeras garrafas de whisky! Afinal de contas, trata-se de álcool. E que melhor desinfectante há para além do álcool? Na verdade, não obstante o capitão Haddock tenha ficado curado da sua dependência, isso não o impede de saborear o seu copito e todos os pretextos e ocasiões são válidos para molhar a garganta.
Irascível e bastante susceptível no que toca à sua honra e palavra, o capitão Haddock criou um autêntico dicionário para uso pessoal, mais especificamente, para “quando lhe chega a mostarda ao nariz”. Dessa verve de impropérios debitados a plenos pulmões, constam os seguintes vocábulos: canalhas, emplastros, pés-descalços, trogloditas, selvagens, astecas, sapos do deserto, vendedores de tapetes, iconoclastas, poltrões, macacos, parasitas, bexigosos, sacripanta, renegado, herético, esclavagista, espécie de semáforo, tecnocrata, flibusteiro, quadrúpede, anacoluto, invertebrado, celerado, bicho-de-conta, judas, pançudos, papuas, catacreses, mujiques, coleópteros, atarracados, piróforos, girassóis-batateiros, bichas-solitárias, colocíntidas, zigomicetes, gargarejos, emplastros, pirata e bebedores!!!
Este eterno resmungão que é Haddock no que concerne a embarcar em aventuras perigosas e a saídas da sua mansão de Moulinsart (de que a ida à lua à paradigmática), acaba, contudo, sempre por acompanhar Tintin, quaisquer que sejam os perigos e com o risco da própria vida em jogo, como sucede com o já referido salvamento improvável de Tchang em “Tintin no Tibete”. E evidencia ainda ser generoso e caridoso: ao reparar que um grupo de ciganos se encontra acampado em condições pouco dignas, oferece-lhes os jardins de Moulinsart para sua estadia.
Dupont e Dupond
São detectives que aparecem pela primeira vez em “Os Charutos do Faraó”. São peritos em prender sempre a pessoa errada e a maior parte das vezes, a pessoa errada é… Tintin, embora o “nosso herói” seja um cavalheiro e nunca lhes guarda qualquer tipo de rancor por causa desses mal-entendidos. Vejam-se duas dessas situações nas quais a dupla Dupont e Dupont se embrulham: em “Os Charutos do Faraó”, os detectives prendem Tintin por alegada posse de droga, tráfico de armas e rebelião à autoridade; em “A Ilha Negra”, Dupont e Dupond detêm Tintin por suposto furto e agressão.
No álbum “O Segredo do Licorne” é a vez do capitão Haddock não escapar a esta incrível propensão para o erro das investigações da equipa Dupont e Dupond. Aliás, a maior parte dos mistérios que esta célebre dupla tenta esclarecer é resolvida por Tintin, o qual lhes oferece de bandeja os criminosos. Isso sucede, por exemplo, com a prisão do árabe Omar Ben Sallaad em “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”.
A entrada em cena destes gémeos introduz sempre uma pitada de humor na acção. Dupont e Dupond vestem sempre disfarces do mais espampanante que é possível imaginar (a predilecção vai para disfarces com vestes locais e tradicionais que os fazem ser ainda mais notados), de tal como que não conseguem passar despercebidos e a discrição que pretendem é sempre gorada.
Ao seu carismático tique – um repete o que o outro disse mas trocando a sequência das palavras (ver imagem em baixo) – junta-se uma outra característica: o de cumprirem todas as ordens à risca, por vezes, ainda que isso vá contra as suas convicções (“Nunca acreditámos que fosse culpado, mas que quer, é preciso obedecer às ordens!”, pode ler-se numa aventura).
E assumindo-se como fiéis cumpridores do dever, chegam, inclusive, a simular a morte de Tintin – com enterro pelo meio – com o intuito de o salvarem, ou melhor de o prenderem! Da mesma forma, salvam Milú de um sacrifício ao Deus Xira só para que este encontre o seu dono, Tintin, e, através disso, lhe possam dar ordem de detenção. Por fim, Dupont e Dupond têm uma inclinação natural para o desastre. Por outras palavras: são desastrados. Estão constantemente a cair e a tropeçar.
Escorregam por causa de um piso molhado (em “A Ilha Negra”), caem do comboio e do cais de embarque da estação de caminho e ferro (“O Lótus Azul”), caem de um hidroavião (em “O Ceptro de Ottokar”) e destroem um lustre do palácio real (em “O Ceptro de Ottokar”).
Trifólio Girassol
{module [365]}

