Clássicos do C7nema: «Vertigo», de Alfred Hitchcock

(Fotos: Divulgação)

O C7nema começa hoje uma série de artigos sobre os filmes mais importantes da história do cinema. Assim, e tal como os arquivos históricos da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, que todos os anos adicionam obras ao seu espólio, nós decidimos imortalizar algumas obras que consideramos, pelo seu valor cultural, histórico e artístico, merecedoras de fazer parte dos Clássicos do C7nema. 

E para inaugurar esta secção escolhemos «Vertigo», uma das obras mais importantes do século XX e um projecto chave na carreira de Alfred Hitchcock.  

VERTIGO – A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES 
De Alfred Hitchcock (1958)

Filme de mistério, história de amor ou drama policial, «Vertigo» é primeiramente uma obra que não se cataloga facilmente. Mas, como muitas das grandes obras do Cinema, constitui um exemplo único e impressivo. Certo é que a sua história envolve fantasmas, um crime, um detective em investigação e um homem em direcção aos seus terrores máximos. Mas este não é um filme sobre forças naturais, nem um policial comum. Como é que «Vertigo» pode ser dotado de tantas particularidades sem ser nada em específico? Talvez essa ambiguidade esteja na própria natureza ambivalente do filme. 

ESPECTÁCULO DE ENCENAÇÕES

Como qualquer película, «Vertigo» encena uma realidade. Mas no interior dessa realidade, está contida outra encenação. Por isso, o filme se revela um perfeito espectáculo de encenações, simbolicamente expresso de modo sublime nas espirais dentro de espirais a convergirem para dentro de um olho de mulher – imagens do fabuloso genérico de abertura. Hitchcock trabalhava histórias e ideias como matérias-primas. Mas era também um técnico. Para a recriação deste pesadelo que se assemelha pontualmente a um sonho idílico, Hitchcock decidiu recorrer a filtros adequados que tornassem os brancos mais intensos e luminosos. Há abundância de luz e de brilho nas imagens solarengas da Califórnia e aqui Hitchcock não remete para o cliché das trovoadas e dos relâmpagos.  Pelo contrário, nas belas imagens de S. Francisco por onde Kim Novak passeia e James Stewart a persegue, existe uma enorme e plácida serenidade. Seja no Museu onde ela medita diante de um quadro; seja no próprio cemitério onde – pasme-se – por entre as campas se respira paz; seja nas estradas ladeadas de árvores frondosas como aquela que vai ter à Baía de S. Francisco.    

FILME DE FANTASMAS E DE POSSESSÕES

«Vertigo» foi composto como um filme de fantasmas e de possessões. (O mesmo viria a suceder com «Psico», que Hitchcock realizaria dois anos depois, e que se converteria no seu filme mais famoso.) Repare-se na neblina luminosa assente sobre as campas do cemitério ou no feixe de luz esverdeada do letreiro de néon sobre a imagem da mulher renascida.«Vertigo» é visualmente um dos mais belos filmes de Hitchcock. Mas por detrás daquela beleza poética há uma obscuridade doentia. E para cimentar todo o ambiente de angústia e de obsessão, a partitura de Bernard Herrmann é central e funciona como um instrumento perfeito para veicular a inquietação.  

O IRRACIONAL E AS EXPLICAÇÕES

As explicações, a lógica racional, a descoberta dos fenómenos que estão por detrás das aparências até nem interessam tanto, embora sejam coerentes e revelem inteligência. O filme é uma adaptação do inspirado «D’entre Les Mortes» da dupla de autores franceses de literatura policial, Pierre Boileau e Thomas Narcejac. Hitchcock transpôs a acção do filme do contexto francês para a cidade de S. Francisco. Poder-se-á dizer que o realizador se documentou sobre S. Francisco antes de filmar lá a história do seu filme. Mas para Hitchcock, nunca o nosso mundo é o mais interessante. Nunca o mundo real das nossas vidas palpáveis.Ao contrário de alguns filmes de David Lynch ou de David Cronenberg, os enigmas de «Vertigo» têm uma explicação e o argumento desenvolve-se para a compreensão dos factos. Hitchcock não se limita a filmar fenómenos sem coerência lógica, factos de uma realidade marginal ou de uma perspectiva esquizofrénica. Hitchcock conduz o espectador ao completo abismo de uma realidade vertiginosa – vertigem pela sensação de estonteamento, de impotência e de perda na queda. Realidade vertiginosa que não é racional nem razoável. O protagonista (e o espectador com ele) está tão confuso como obcecado. Mas depois compreende a dimensão lógica daquela aparente irrealidade.    

OBRA-PRIMA DE ANGÚSTIA E OBSESSÃO

«Vertigo» é uma obra-prima de angústia e de obsessão. Das vidas que vivem para além das vidas ou em realidades paralelas. Hitchcock desvenda o enigma meia hora antes do termo do filme, sempre defendendo que o espectador deve saber tanto ou mais que o protagonista. Porque se souber que uma bomba está debaixo da mesa, o espectador temerá muito mais por aqueles que conversam amenamente em redor dessa mesa. Nenhum perigo será plenamente vivido senão houver consciência dele. A partir do momento em que sabemos mais do que Stewart, resta-nos saber (com angústia e expectativa) como irá ele reagir à verdade.De resto, o filme poderá parecer inverosímil e fantasioso. Sendo tão hipnótico e onírico, não parece ter muito a ver com o mundo real. Mas esse é também um aspecto da película que curiosamente o enriquece. Concebe com sucesso uma realidade obsessiva, leva a obsessão e o onirismo do protagonista à mente do espectador. Desenvolve um universo de desejos, de fantasmas, de construções psíquicas sem perder por completo o contacto com a realidade. E remete também o espectador para assumpções filosóficas, éticas e metafísicas em torno dos conceitos de amor, sexualidade, morte e pecado. 

O TRIÂNGULO DE PERSONAGENS

No centro do filme, está Kim Novak, a loira misteriosa que encerra dentro de si o enigma da história e se acaba convertendo numa vítima desse enigma. A presença magnética da actriz está imbuída de elegância e declarado erotismo – numa época em que a censura limitava muito a produção fílmica, em Hollywood. James Stewart é o homem comum com o qual é fácil o espectador se identificar. Não é perfeito nem virtuoso mas, antes pelo contrário, cede às tentações como o comum dos mortais. Tem fraquezas e inseguranças, agrada-se do que é mais apelativo e deixa-se cegar pelas suas conveniências. Barbara Bel Geddes é a mulher comum e mortal – por quem Stewart nutre uma enorme simpatia mas nunca amor. (Repare-se como quase não há uma nota de Bernard Herrmann para as sequências com Bel Geddes. Com ela não há mistério, não há perigo, não há emoção extrema.)     

UM FILME DE SEMPRE

À época da estreia, «Vertigo» foi recebido apenas como «mais um filme de Hitchcock» Não se converteu num imediato sucesso de público nem de crítica. Hoje é considerado um dos filmes mais impressivos da História do Cinema. O amor platónico de James Stewart e Kim Novak é uma referência iconográfica do Cinema dos anos 50. E alguns locais de S. Francisco são visitados por fãs de todo o mundo num ritual de celebração perene. Não faltam também estudiosos do Cinema que o situam na lista dos melhores filmes de sempre. Mais de 50 anos depois da sua estreia, a magia do filme permanece intacta. Esteja ela no seu ambiente hipnótico, ou no seu romantismo lírico.

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