“Num mundo em que os filmes são feitos com milhões de dólares, nós fazemos um filme sobre uma menina que quer comprar um peixe por menos de um dólar (em “O balão branco”) – é isto que estamos a tentar mostrar.”
“A essência reveladora da arte ajuda o artista a vencer os problemas, mas também a transformar qualquer limitação em tema de trabalho artístico através do processo de criação”. Foi esta a mensagem dirigida por Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb ao Festival de Cinema de Cannes, a propósito de “Isto não é um filme”, a sua mais recente longa-metragem em forma de documentário, que alterna realidade com ficção. Chegou à Cinemateca Francesa numa pen USB colocada dentro de um bolo, e foi entregue à direcção do Festival que o exibiu, fora de competição, em sessões que contaram com a presença da esposa e filha de Panahi entre o público. Passou pela edição deste ano do doclisboa e estará nas salas a 3 de Novembro, lançado simultaneamente em DVD, a par de “Offside”.
O Reconhecimento da Obra
Jafar Panahi nasceu no Irão, em 1960. Estudou realização e foi assistente de Abbas Kiarostami em “Através das oliveiras”, de 1994. Um ano mais tarde realizou o seu primeiro filme, “O balão branco”, ao qual foi atribuída a Câmara de Ouro em Cannes. Dois anos depois, “O espelho” foi Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Na viragem do século, “O Círculo”, sobre a prisão das mulheres nas ruas de Teerão, ganhou o Leão de Ouro em Veneza. “Sangue e Ouro” (2003) teve o prémio do júri Un Certain Regard, em Cannes, e “Offside” (2006), onde uma rapariga se disfarça de rapaz para conseguir assistir a um jogo de futebol, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim. O jogo a que ela quer assistir nunca nos é mostrado. A rapariga vê-se “presa”, vigiada por soldados, atrás das grades que a impedem de entrar no estádio. E é apenas quando entra no autocarro para se ir embora que consegue festejar a “vitória”. A perspectiva, nos filmes de Panahi, assim como em “Dez” de Kiarostami, é sempre a da mulher, é a vida das mulheres no Irão de hoje que ele quer denunciar.
Offside
A Repressão Política
Em Fevereiro de 2010, Panahi foi apreendido e ficou sem o seu passaporte, alegadamente por se ter juntado ao grupo de opositores ao regime de Mahmoud Ahmadinejad. Foi-lhe negado o pedido de viajar até ao 60º Festival de Berlim para participar na discussão “Cinema Iraniano: Presente e Futuro. Expectativas dentro e fora do Irão”. Um mês depois foi de novo preso, em Evin, Teerão, destino dos presos políticos, acusado de se encontrar a realizar um filme contra o regime, a seguir aos eventos que sucederam as eleições. Por essa altura foi nomeado membro do júri no Festival de Cannes. Perante a impossibilidade de se deslocar, a sua cadeira foi deixada vazia, episódio que se repetiu por vários festivais que se lhe seguiram.
Durante o tempo que esteve preso, sofreu de maus tratos e a sua família foi ameaçada, o que o levou a entrar numa greve de fome. Juliette Binoche chorou numa conferência de imprensa quando um jornalista lhe disse que Panahi iniciara uma greve de fome, e ao receber o prémio de interpretação por “Cópia Certificada” (2010), de Kiarostami, exibiu o seu nome num placar.
Três meses mais tarde, Panahi foi libertado sob uma caução de 200 mil dólares. O co-realizador de “Isto não é um filme” esteve em Cannes, mas em Setembro foi retirado de um avião em Teerão e preso também em Evin, acusado de ser um espião ao serviço do Reino Unido. Por lá continua sem saber o que esperar.
Em Dezembro desse mesmo ano, Panahi foi acusado de participar em crimes contra a segurança nacional do país e em propaganda contra a República Islâmica. Recorreu e aguardou a decisão em prisão domiciliária. Há poucas semanas viu a sua pena ser aprovada: seis anos de prisão, vinte sem poder filmar, dar entrevistas ou sair do país.
O Regime Iraniano e o Cinema
A guerra do regime fanático iraniano contra o cinema é muito antiga. Os realizadores são obrigados a estar sempre de olho nos censores. Vários deles têm sido presos, acusados de fornecerem informações e relatórios secretos a televisões estrangeiras. Em Outubro, a actriz Marzieh Vafamehr foi condenada a um ano de prisão e apanhou noventa chibatadas por participar no filme “My Tehran for sale” (2009) que relata as condições em que os artistas trabalham. Esta semana foi libertada, tendo recebido uma redução da pena para três meses, que já cumpriu. No entanto, as acusações não foram retiradas. O regime sente-se ameaçado, sabe que já falhou, mas recusa afastar-se e torna-se mais conservador. Mas sabe também que não pode ignorar o cinema porque o reconhecimento internacional é demasiado grande. A condenação de Panahi foi um aviso, uma espécie de lição social, uma tentativa do regime mostrar o seu poder. Mas talvez este seja um jogo demasiado alto. Panahi é conhecido, tem vários prémios atribuídos às suas obras, e já muitos realizadores e actores se indignaram contra esta decisão, movendo petições e acções de protesto. O cinema iraniano tem grande reconhecimento internacional, lembremo-nos que Kiarostami venceu a Palma de Ouro em Cannes com “O sabor da cereja” (1997), e este ano “Nader and Simin, a Separation”, de Asghar Farhadi, recebeu o Urso de Ouro em Berlim.
Os Filmes Proibidos
“Isto não é um filme” foi documentado na casa de Panahi, durante o cativeiro. Começa com uma conversa telefónica entre ele e a sua advogada. Depois fala das cenas e dos personagens dos filmes que não chegou a poder fazer. Lê os guiões para que consigamos visualizá-los no nosso imaginário. É a frustração a par da vontade de criar, é um combate à censura.
Impedido de escrever argumentos e realizar filmes, surge como actor e pergunta: “Para quê fazer um filme se podes apenas falar sobre ele?”. “Isto não é um filme” porque não se pode dizer o que é um filme contando-o, caso contrário a sua profissão seria uma farsa. “Isto não é um filme” é um dia na vida de Panahi enquanto aguarda a decisão das autoridades ao recurso da sentença. O que importa é documentar e ter sempre uma câmara ligada, como diz Mirtahmasb, operador de câmara e realizador de documentários, filma Panahi até este se lembrar de pegar no seu iphone e filmar o co-realizador, as visitas, os vizinhos nos corredores do prédio, o fogo de artifício que vê da sua janela, e que os iranianos continuam a lançar, apesar de ser proibido celebrar o ano novo. “Quando os cabeleireiros não têm clientes, cortam o cabelos uns aos outros”, lembra Mirtahmasb. Foi dele que surgiu a ideia de fazer um making of com os filmes proibidos do Irão. Panahi pegou nela e começou a desenhar storyborads no tapete da sua casa. Conta a história de uma rapariga que pendura uma corda para se enforcar por os pais não a deixarem frequentar a Faculdade de Belas Artes. Ela está presa em casa, assim como ele. Mas “Isto não é um filme” termina com uma abertura ao exterior, à liberdade, aos tempos de mudança. Porque há um cinema jovem no Irão, de cariz mais social, que não vai ser fácil controlar.
Inês Monteiro

