O C7nema iniciou em Julho uma série de artigos sobre os filmes mais importantes da história do cinema. Assim, e tal como os arquivos históricos da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, que todos os anos adicionam obras ao seu espólio, nós decidimos imortalizar algumas obras que consideramos, pelo seu valor cultural, histórico e artístico, merecedoras de fazer parte dos Clássicos do C7nema. E depois de «Vertigo», «The Shinning» e «Blade Runner», chega a vez de «Citizen Kane».
Citizen Kane – O Mundo a Seus Pés, de Orson Welles (1941)

Omais aclamado filme de Orson Welles pode ser sumarizado como o retrato cinematográfico da vida de um homem. Obra inovadora, revolucionária e imaginativa, revela múltiplas estratégias narrativas e interessantes recursos técnicos. Lição de Vida e lição de Cinema, «Citizen Kane» permanece um filme moderno e arrojado. Impressionou na sua época mas ainda fascina hoje pela sua inteligência cinematográfica.
RETRATO CINEMATOGRÁFICO DA VIDA DE UM HOMEM
Os mecanismos narrativos de Orson Welles nunca estiveram limitados aos modelos instituídos de Hollywood. Esse facto tornou-se evidente logo aquando da realização do seu primeiro filme que se converteu na sua mais saudada película. «Citizen Kane» conta-nos a vida do cidadão Charles Foster Kane (personagem fictício inspirado directa ou indirectamente no magnata da Imprensa, William Randolph Hearst). O filme usa um argumento inteligente, concebido por Welles em parceria com Herman J. Mankiewicz. Narra uma história com avanços e recuos no tempo e revelando diferentes ópticas de visão. Dispõe de um elenco competente, encabeçado pelo próprio Orson Welles. E de várias ideias criativas. Ao contar a vida de um homem, Welles reúne todos os ingredientes necessários a uma linguagem cinematográfica madura e moderna. A enigmática fotografia do filme, num preto-e-branco ideal, está densa de sombras, luzes, penumbras e névoas. A música que percorre os diferentes ambientes é variada – bombástica, festiva ou misteriosa – mas é nos seus momentos sombrios que se revela mais interessante e envolvente. O mecanismo de montagem e encadeamento das imagens é cuidadoso e pioneiro, revelando estratégias de grande eficácia.Orson Welles expõe uma narrativa e analisa o impacto de uma vida humana no universo à sua volta, construindo um esquema de percepções diferentes. Usando imagens, sons, música e palavras reveladoras.
A SOMA DAS PEÇAS DE UM «PUZZLE»
«Citizen Kane» apresenta-nos a visão da vida de um homem. Um retrato do seu percurso e a busca da sua identidade. A vida de Charles Kane é-nos mostrada como o resultado da soma das peças de um puzzle. Cada peça é o testemunho de uma pessoa que o conheceu. Os primeiros minutos da obra revelam uma sequência de imagens brilhantemente filmada e intensamente enriquecida pela música do grande Bernard Herrmann (aqui no seu primeiro trabalho para Cinema). É a morte de Kane, no seu palácio monumental – onde há abundância de sombras, de penumbras e de silhuetas enigmáticas. Kane tem na mão uma bola de vidro. Está no leito da sua agonia. No momento do fim, a sua boca solta uma palavra: “Rosebud”. A bola de vidro desliga-se dos seus dedos sem vida e quebra-se no chão. Uma enfermeira vista através do vidro quebrado surge de imediato. A abertura do filme é fascinante. Segue-se-lhe uma peça documental com cerca de dez minutos. É um registo jornalístico, verosímil e realista, dos setenta anos do magnata. Mostra testemunhos pertinentes e vários dos ambientes onde Kane viveu e trabalhou. As imagens são compactadas e editadas. A montagem é narrativamente apoiada pelo discurso de uma «voz-off» – à semelhança de um boletim informativo da época. Vários jornalistas se reúnem para visionar o documentário. É interessante verificar que eles nunca são muito claramente mostrados. Surgem como sombras sinistras e algo incógnitas. Quando conversam, questionam-se sobre a última palavra proferida por Charles Kane. E é assim que somos conduzidos na busca da resolução desse enigma. Não será “Rosebud”, seja lá o que isso for, a chave para a compreensão daquele homem? Inicia-se a investigação e a procura de informações junto das pessoas certas.

A REALIDADE EM CAMADAS
Em «Citizen Kane» está imanente a oposição filosófica entre realidade e percepção dessa realidade. Charles Kane fora um homem só mas várias realidades distintas se lhe podem associar: a do comunista, a do fascista, a do demagogo, a do democrata; a do homem carente, dedicado ou dominador; a do ser construtivo ou destrutivo, perseverante ou obsessivo; inteligentemente hábil ou diabolicamente manipulador. Simultaneamente a percepção da vida de Kane é-nos transmitida segundo prismas diferentes, desenvolvidos de modo distinto. O registo documental; os depoimentos dos entrevistados que remetem a narrativa para flashbacks estratégicos. A morte de Kane e a sequência final com a revelação do “Rosebud”. A realidade parece ser constituída por camadas. Se cada fragmento é verdadeiro, então o total da vida de Kane só é perceptível de modo não linear ou uniforme.
O ENIGMA “ROSEBUD”
“Rosebud” não será a palavra que explica a vida de Charles Kane. É antes uma peça do puzzle que foi a sua vida. Uma peça que não será mais preponderante que as outras. Para Charles Foster Kane, a Vida inclui e manifesta-se em centenas e centenas de peças que ele acumulou ao longo dos anos no seu palácio majestoso. Nos minutos finais do filme, Welles mostra-nos uma visão sobranceira da extensão dos objectos. Colocando a câmara acima deles e o nosso olhar a perder-se na sua multiplicidade. Ao avistarmos toda aquela parafernália de obras de arte e de objectos inúteis, é também para a vida de Kane que o realizador nos convida a olhar. Para o que ela tinha de majestoso, egocêntrico ou carismático. Compreendemos que a vida dele foi a soma dessas partes. Tal como “Rosebud” era o nome de uma delas. Uma só. O enigma “Rosebud” é desvendado mediante o nosso olhar. Mas nenhuma das pessoas que investigou a vida de Kane o consegue decifrar. Por momentos, o nosso olhar está acima do olhar humano, vê mais do que ele.
A IMAGEM DE KANE MAIOR DO QUE ELE PRÓPRIO
Há uma perspectiva muito divulgada nos cartazes promocionais do filme. É a de Charles Foster Kane proferindo um discurso político. Por detrás do próprio Kane está um retrato seu, de enormes dimensões. De modo directo, a imagem mediática do personagem parece ser maior e mais poderosa do que ele próprio. É que Kane soubera, acima de tudo, criar uma imagem para si. Tal como desejava teimosamente esculpir uma imagem para a sua segunda mulher. E do mesmo modo que fizera do seu palácio um lar majestoso, visualmente muito mais impressivo do que cómodo. As imagens filmadas na sua residência (Xanadu) são particularmente enigmáticas. O edifício é assombroso, está repleto de obras de arte, jardins e escadarias sublimes. Tudo em Xanadu remete para o assombro e para a grandiosidade mas nunca para o calor humano. Lá dentro, os dialógos entre marido e mulher são frios e distantes. Eles falam mantendo uma distância enorme entre um e outro. Ela quase grita para se fazer ouvir e é audível o próprio eco das suas vozes. O preto-e-branco das imagens de «Citizen Kane» é perfeito para captar o brilho sinistro, quase fantasmagórico de Xanadu. Como sucede nas casas enigmáticas de «Rebecca» de Alfred Hitchcock, «O Segredo da Porta Fechada» de Fritz Lang, «Gaslight» de George Cukor ou «Jane Eyre» de Robert Stevenson (para citar filmes da época).
LIÇÃO DE CINEMA E LIÇÃO DE VIDA
O trajecto pelo qual Orson Welles nos leva não é comum nem inconsequente. Ao compor este peculiar retrato humano usando uma linguagem cinematográfica tão pessoal e liberta de alguns padrões instituídos, o cineasta reafirmou em 1941 a necessidade constante do Cinema se reinventar e redefinir. O cineasta acaba questionando afinal o valor da Vida e a condição efémera da existência humana face à ambição pouco razoável de certos homens. Segundo uma máxima famosa, nada aconteceu verdadeiramente se não foi notícia. De facto, Charles Kane era um desses manipuladores das opiniões públicas que ditam o que é importante para os leitores dos seus jornais. «Títulos grandes fazem notícias grandes», dizia. Os mecanismos da comunicação social operam percepções desfocadas da realidade. Mas em «Citizen Kane», Welles remete-nos ainda mais profundamente para o papel da memória na percepção da Vida. Memória como bênção mas também como maldição. Parece que se ninguém se lembra do “Rosebud”, o “Rosebud” não existiu nem interessou muito. Mas isso não é verdade. Existiu e a sua memória traduz um estado de inocência e de imaculabilidade na consciência de Kane. «Citizen Kane» mostra-nos que nada verdadeiramente morre enquanto for recordado. Somos a soma das nossas partes e a memória que temos delas. E somos também a memória que os outros têm de nós. Setenta anos após a sua estreia, «Citizen Kane» permanece uma acesa obra de referência. Nunca foi um campeão de bilheteiras. Em 1941, terá causado estranheza e alguma perplexidade. As suas personagens frias não despertaram a emoção dos espectadores de «E Tudo o Vento Levou» ou «Casablanca». No decurso das décadas, cimentou-se, no entanto, um largo consenso quanto ao valor técnico e artístico do filme. Ocupa a posição cimeira em muitas listas dos melhores filmes de sempre. Por isso, se Charles Foster Kane morreu, Orson Welles está vivo. Vive na memória de cinéfilos do mundo inteiro. Muito em particular graças a «Citizen Kane.»

