«Monsieur Lazhar»
Nos últimos dias, e com o aproximar da data limite para as submissões à Academia, tem sido um corrupio no que toca às escolhas dos países para a candidatura à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
América do Norte e Central
O Canadá optou por «Monsieur Lazhar», uma obra de Philippe Falardeau que foi recentemente premiada no Festival de Toronto e que conta com a produção dos mesmos responsáveis por «Incendies» (nomeado no ano passado). No filme seguimos um imigrante argelino que procura asilo político no Canadá. Quando surge a oportunidade de ir dar aulas numa escola primária ele aproveita, focando-se o filme na relação que ele vai ter com duas crianças; o rapaz que encontrou morto o docente que o argelino veio substituir e uma menina cujo ressentimento para com o seu amigo trás revelações nunca imaginadas.
O México, sem grande surpresa, escolheu «Miss Bala», um filme de Gerardo Naranjo (Voy a Explotar) que passou pelo Festival de Cannes e por Toronto.
Com a produção da Canana, de Diego Luna e Gael Garcia Bernal, o filme segue a ambição de uma jovem que deseja ser rainha da beleza num México dominado pelo crime organizado.
América do Sul
O Chile escolheu «Violeta», de Andres Wood. A escolha acabou por ser surpreendente pois «Post Mortem», de Pablo Larrain, e «Ulysses», de Oscar Godoy, estavam muito bem cotados para essa selecção. «Violeta» é uma cinebiografia sobre a cantora, poeta, activista e pintora Violeta Parra.
No que toca à Colômbia, a obra escolhida foi «The Colors of the Mountain», um projecto de Carlos César Arbeláez que acompanha um grupo de crianças que começa a entender o conflito armado no seu país quando a bola de futebol com que jogam vai parar a um campo de minas. Com a guerra perto da sua vila, tanto eles como os pais, apesar de não desejarem, terão de tomar partido.
Um pouco mais a sul no mapa mundo, o Perú escolheu «October», uma fita de Daniel Vega Vidal. Aqui acompanhamos Clemente, um tímido dono de uma loja de penhores. A sua vizinha Sofia, uma mulher solteira, vê nele a esperança de abandonar a solidão. Quando Clemente descobre à porta de sua casa um bebé recém-nascido, fruto de uma relação com uma prostituta, ele parte em busca da mãe da criança. Entretanto, Sofia começa a tomar conta do pequeno rebento.
Já a Argentina, com muita tradição na categoria, já escolheu um candidato, mas pediu à Academia alguma flexibilização das suas regras. Tudo por causa de «El estudiante», produção independente local que não cumpre com todas as regras exigidas, estando assim o país à espera de autorização, ou não, para apresentar oficialmente a sua escolha.
Europa
A Irlanda optou por «As If I Am Not There», um filme de Juanita Wilson que acompanha a verdadeira história de uma mulher que estava na altura errada e no sítio errado quando em 1992 se encontrava em Sarajevo.
E se é curioso que o candidato Irlandês viaje até Saravejo, o mesmo acontece com o concorrente da Lituânia. «Back to Your Arms», de Kristijonas Vildžiūnas, é o filme escolhido e nele estamos em Berlim após a 2ª Guerra Mundial. É aí que um pai e uma filha vão ser separados, iniciando uma verdadeira jornada para se voltarem a encontrar.
Já a Bósnia Herzegovina escolheu «Belvedere», um filme de Ahmed Imamović que acompanha o pós guerra dos Balcãs e as feridas que custam a sarar nos sobreviventes.
A Bulgária escolheu «Tilt», um filme de Viktor Chouchkov, obra sobre um amor jovem que terá de sobreviver a tempos de confusão e caos na transição do regime comunista para o sistema democrático.
No que concerne à Rússia, a sua escolha foi bastante polémica e ainda dá que falar. A opção recaiu sobre «Burnt By The Sun 2: Citadel» (“O Sol Enganador 2: Cidadela”, no título em português), um filme de Nikita Mikhalkov. O filme foi escolhido na segunda-feira através de votação realizada entre os membros da Comissão do Óscar da Rússia. Porém, esse sufrágio foi embargado pelo próprio responsável máximo da comissão que alega falta de quórum na reunião e parcialidade na votação, tendo este se recusado a assinar o protocolo final.
«Burnt By The Sun 2: Citadel» (“O Sol Enganador 2: Cidadela”) é a sequela do clássico de 1994 que acabaria por ganhar Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1995. Essa prémio certamente influenciou o comité, mas esta sequela – ao contrário do primeiro filme – foi muito mal recebido pela crítica e conseguiu apenas 1.5 milhões de dólares nos cinemas russos, um valor baixíssimo para um orçamento equivalente a 45 milhões de dólares, naquele que foi um dos mais altos da história da indústria de cinema local.
Quanto à Eslováquia, a escolha recaiu sobre «Gypsy», de Martin Sulik, uma obra que esteve presente no Festival de Toronto. Na película seguimos um jovem cigano de 14 anos que após a misteriosa morte do pai é arrastado para uma vida de crime pelo padrasto. Quando a polícia o detém durante um dos esquemas dessa nova figura paternal, o jovem pondera uma decisão que irá afectar para sempre a sua vida.
A Islândia seleccionou «Volcano», de Rúnnar Rúnnarsson. A obra tem passado por diversos festivais (Toronto, Veneza) e foca-se num funcionário administrativo de uma escola que está prestes a reformar-se. Sempre rezingão e constantemente a afastar todos aqueles que lhe são próximos, este homem vai ter a sua vida abalada quando a sua esposa fica bastante doente. Forçado a tomar conta de si pela primeira vez, Hannes depressa vai descobrir sentimentos há muito enterrados e escondidos na sua personalidade.
Finalmente, a Albânia optou por «The Forgiveness of Blood», um filme falado em albanês, mas realizado pelo norte-americano Joshua Marston. A obra estreou no Festival de Berlim (saindo de lá premiada pelo seu argumento) e nela acompanhamos as contradições de uma sociedade enraizada em selvagens tradições feudais. Particularmente seguimos uma família que tem de viver enclausurada, sob ameaça de morte, de forma a pagar o assassinato que o patriarca cometeu.
Médio Oriente
Israel optou por «Footnote», de Joseph Cedar, o grande vencedor dos prémios Ophir, atribuídos pela Academia de Cinema local e uma das obras que marcou presença este ano em Cannes. Nela seguimos a rivalidade entre um pai e um filho, ambos académicos peritos no Talmud.
Ásia
Hong Kong vai ser representado nesta categoria por «A Simple Life», de Ann Hui, filme que viu a sua actriz, Deanie Ip, ser premiada em Veneza com um prémio pela sua actuação. No filme ela desempenha o papel de uma empregada doméstica que trabalha há meio século para uma família. De notar que esta obra é inspirada em factos verídicos.
Quanto ao Vietname, «Thang Long Aspiration», um trabalho de Lưu Trọng Ninh que acompanha o caos da transição entre a Dinastia Le e Ly no Vietname do século IX, foi o escolhido.
Jorge Pereira

