Clássicos do C7nema: «The Shining», de Stanley Kubrick

(Fotos: Divulgação)
O C7nema iniciou em Julho de 2011 uma série de artigos sobre os filmes mais importantes da história do cinema. Assim, e tal como os arquivos históricos da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos, que todos os anos adicionam obras ao seu espólio, nós decidimos imortalizar algumas obras que consideramos, pelo seu valor cultural, histórico e artístico, merecedoras de fazer parte dos Clássicos do C7nema.
 
A inaugurar esta secção escolhemos «Vertigo», uma das obras mais importantes do século XX e um projecto chave na carreira de Alfred Hitchcock. Como segundo filme da nossa lista de obras imortais, a opção recaiu sobre um dos trabalhos mais aclamados de Stanley Kubrick. 

THE SHINING  
De Stanley Kubrick (1980)
 
 
Neste filme antológico, Kubrick desenvolve caprichosamente uma atmosfera de terror crescente mas realiza também um retrato do medo e da obsessão sob a forma do que bem poderia ser a «loucura vista por dentro». Bem poderia ser mas não é. A obra encerra um pouco de tudo o que os filmes de horror haviam sido até então: fantasmas, alucinações, monstros e demónios, loucos possuídos por forças malignas; e muito sangue. Mas Kubrick não é demasiado espalhafatoso nem limitado no uso barato do espectáculo da violência – tal como Brian De Palma em «Carrie» e «Sisters», Tobe Hooper em «Massacre no Texas» ou John Carpenter em «Halloween», só para nomear alguns filmes de anos imediatamente antecedentes. O filme é visualmente impressivo mas também subtil e inteligente, cruzando pistas e pormenores num clima de suspense gradualmente mais intenso.
 

AUTOR DE UMA UNIDADE NAS DIVERSIDADES

O cineasta americano Stanley Kubrick foi não só criador de um conjunto muito particular de filmes mas também de uma peculiar forma de perspectivar o Cinema, de o conceber desde a génese até à sua distribuição. Filmando argumentos de estilo muito distinto, é ainda assim perceptível um nítido paralelismo entre as suas diversas películas. Essa é aliás uma marca comum a alguns dos maiores cineastas de sempre.

No caso de Kubrick, insinua-se frequentemente no seu trabalho uma meditação filosófica sobre as realidades que condicionam a natureza humana e a vida em sociedade. Os seus filmes são retratos de disfunções humanas e sociais – aos quais ele imprimiu uma dimensão impressionante a todos os níveis. Em todos eles há uma inquietante apreensão da realidade, nos seus aspectos mais frios e maniqueístas. Os personagens da filmografia de Stanley Kubrick não são pessoas amáveis ou que gerem especial empatia mas peças de uma engrenagem inteligente, um universo que os envolve e determina mas cuja lógica não é transparente.
 

HISTÓRIA DE ENIGMAS

O argumento de «The Shining» – inspirado no romance homónimo de Stephen King – assume contornos bizarros e elementos narrativos sobrepostos mas obedecendo a uma coerência intrínseca. O espectador é confinado a um cenário sinistro de suposições e suspeitas – desde o genérico com imagens abertas e amplas até à derradeira imagem que encerra a história com o enigma dos enigmas.
 
O mistério do Hotel Overlook, onde decorre quase toda a acção do filme, traduz-se numa rede de sub-enigmas e talvez nem Kubrick quisesse atribuir verdades absolutas à totalidade dos factos, delegando nas mãos do seu espectador a missão de os interpretar. Ou simplesmente gerando algum debate e justaposição de ideias.
 
 
 

CINEASTA DA ANGÚSTIA RACIONALIZADA

Aqui como no final de «2001 – Odisseia no Espaço», Kubrick apresenta-nos meias verdades, meias soluções mas parece que a realidade que emana destes filmes é bem mais complexa do que aquelas que derivam da percepção comum. Na sua memorável carreira, o cineasta usou e trabalhou com afinco os universos da obsessão, do metafísico, do onírico, do sobrenatural e do sobre-humano. Os seus filmes traduzem-se por isso em quadros desconcertantes e pontualmente incómodos ou desagradáveis.

Kubrick deixa o seu espectador com a sensação de saber pouco, com a necessidade de relativizar o seu conhecimento. Confia-o a um ânimo em que se sente pequeno e frágil, impotente para compreender a dimensão do cosmos e as limitações da natureza humana. Os filmes de Kubrick são dedutivos como uma ciência e inteligentes como o jogo de xadrez (que também o fascinava). 
 

DESORIENTAÇÃO E PERDA

Para construir o clima de crescente desorientação nos espaços do Hotel Overlook, Kubrick recorre à filmagem dos personagens na teia de corredores com portas e esquinas num ambiente em que tudo é demasiado amplo, frio e intrincado e será fácil a alguém perder-se ali. Perder-se física e emocionalmente. A estrutura dos corredores assemelha-se à de um labirinto como aquele que existe no exterior da casa e que é desenhado com linhas de canteiros cortados minuciosamente.
 
Os corredores dão espaço a outros corredores. Aquela casa é uma abertura para a perdição onde o jovem casal de protagonistas e o seu filho dificilmente poderiam sair ilesos depois de um severo Inverno de reclusão e isolamento. Naquele ambiente claustrofóbico e crescentemente abstraído do mundo real só parecem existir duas saídas: a morte ou a loucura.
 
O pequeno Danny passeia pelos corredores no seu triciclo. As câmaras filmam-no frequentemente por detrás. Para sentirmos o que ele sente. Para vermos o que ele vê. Estes passeios da câmara mostram-nos a recorrência das mesmas imagens e o declarado suspense mediante os pormenores sórdidos lentamente revelados. Até a própria alcatifa que cobre o chão dos corredores exibe um padrão labiríntico. 
 
 

OBSESSÃO E ESQUIZOFRENIA 

A incursão no universo do Hotel Overlook é um penoso, arrastado e alucinante mergulho na patologia mental. O pensamento obsessivo do pai (Jack Nicholson), escritor em busca de inspiração, está patente na sua criação literária: páginas e páginas de texto dactilografado com a mesma expressão repetida vezes sem fim, de modo inconsequente e esquizofrénico. 
 
Depois, Kubrick utiliza o recurso a espelhos e a imagens distorcidas. A música é eficaz, aqui e ali perturbante. Desde o genérico com belíssimas imagens das montanhas do Colorado, a música evidencia a presença do Mal e a inquietação perante o perigo. Música dissonante e agressiva como algumas das composições usadas em «2001» ou em «De Olhos Bem Fechados».
 

AUTOR DE AMBIGUIDADES

Kubrick foi também um autor de ambiguidades onde a realidade encena uma faceta e a sua contrária. A título elucidativo eis alguns exemplos: Em «Dr. Strangelove», o poder nuclear é a destruição da vida e um tema musical romântico ilustra o rebentamento de uma bomba atómica. Em «Full Metal Jacket», os soldados combatem o inimigo apesar da insensatez da guerra que os aniquila a eles mesmos. 
 
Em «Laranja Mecânica», o sádico delinquente é submetido a tratamentos tortuosos que visam retirar-lhe a inclinação para comportamentos anti-sociais mas o espectador quase se apieda daquele ser humano que fora tão brutal e desprezível. Em «Lolita», a jovem adolescente tem a sedução de uma mulher adulta e nem um pouco da inocência de uma criança.
 
Em «The Shining», Jack Nicholson é vítima e vilão simultaneamente. O Hotel Overlook é a maldição de um homem inocente tornado monstro e carrasco. No cinema de Kubrick, nada é simples ou revelador de uma única faceta.
 
 

FILME DE TERROR ANTOLÓGICO

O terror de «The Shining» é algo que se impõe ao olhar (a imagem do sangue a encher o ecrã de uma mancha vermelha). Mas como um bom filme de suspense, muita da inquietação reside no que não se vê.
 
Aquele hotel maldito permanece uma referência na História do Cinema de Terror. Trinta anos depois. Talvez o seu relativo insucesso comercial tenha perturbado Kubrick. Mas a memória de Jack Nicholson com um machado na mão, na perseguição homicida da sua mulher e filho, estabeleceu-se como uma imagem antológica. Ou a palavra REDRUM. 
 
No estranho hotel, onde os personagens vivem claustrofobicamente emparedados, uma música antiga, estranhamente etérea, ressoa pelas paredes. Vinda aparentemente de um sonho nostálgico – que cedo percebemos não ter nada de idílico.  
 
http://www.youtube.com/watch?v=S014oGZiSdI 
 
José Varregoso   
 

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