A sala estava longe de estar cheia e não se contabilizou o tempo da ovação final ao filme. Isso não era preciso, porque na estreia mundial do filme francês “L’astronaute” (O Astronauta), em vários momentos, enquanto o filme decorria, as imagens da projeção foram acompanhadas de ruidosos aplausos e até gritos de alegria espontâneos.
Convém dizer que, quando um filme chega aos festivais do final da época ainda com o selo de estreia mundial, é porque falhou a presença em Toronto, Veneza e San Sebastián. Por isso, desconfia-se sempre do pior. Mas o pior aqui é o já famoso desfasamento entre opinião da crítica (especializada) e audiência.
“L’astronaute” é um obstinado crowd-pleaser, daqueles que no seu término evoca sentimentos primários e mesmo lamechas, mas que remete a maioria do público para o “não desistir dos sonhos” a partir de uma história que deve muito (espiritualmente) à fantasia e ficção científica dos anos 80. E é uma daquelas obras, dramaticamente sensíveis, onde a suspensão voluntária da descrença é uma obrigação para o espectador.
Mas se o público se deixou levar pela história de um engenheiro aeronáutico que sonhava ser astronauta e constrói, ele mesmo, um foguetão, a crítica certamente vai fechar as portas ao filme, que não ficaria nada mal no catálogo de um serviço de streaming, embora a exibição cinematográfica, pelo menos no Cairo, mostrasse uma elevação da moral individual a partir de uma energia coletiva.
No final, e depois de um Q&A concorrido, “L’astronaute” passou com distinção na sua estreia no Festival do Cairo, conquistando o público e irritando a crítica.

