San Sebastián iça a ‘Bandeira’, o próximo filme de João Paulo Miranda Maria

(Fotos: Divulgação)

Dois anos depois de deixar San Sebastián boquiaberto com o retrato cru do racismo brasileiro em “Casa de Antiguidades”, João Paulo Miranda Maria retorna ao norte de Espanha para a 70ª edição do festival anual basco, agora para receber um prémio de fomento para a realização da sua nova longa-metragem, “Bandeira”, que terá Rodrigo Teixeira (“Me Chame Pelo Seu Nome”) como produtor. O projeto, em fase de guião, passou pela residência artística Ikusmira Berriak. É a saga de um casal que, após um acidente numa floresta tem de decidir o que fazer com o filho, uma criança especial, hostilizada pela oral normativa da sociedade, a libertar o seu lado selvagem.

O que esse prémio representa para o projeto e em que estágio ele se encontra?

É um prémio da indústria, que me foi dado agora no mesmo festival onde estreei o filme na Europa, em 25 de setembro, quando me preparava para comemorar o meu aniversário. Vou passar este ano a trabalhar no guião, onde moro hoje, em Paris, juntamente com o Jacques Toulemonde Vidal, que escreveu “O Abraço da Serpente”. Nessa trama sobre uma criança especial, os pais terão que criar um mundo alternativo para ela. No projeto, o antagonista é a sociedade, que não aceita o que é selvagem, o que não se encaixa em normas.

Qual é a conexão de tom autoral que você consegue, conscientemente, perceber entre essa premissa e as abordagens críticas para as mazelas morais brasileiras dos seus filmes anteriores?

Em venho de uma cidade do interior de São Paulo, Rio Claro, que foi berço do Integralismo e é um lugar conservador. A natureza tem um papel muito forte na vida de quem vem de onde venho e, desde cedo, aprendi a valorizar as pessoas que levam uma vida mais simples. O meu pai era cozinheiro. Um dia, alguém deixou com ele uma câmara Nikkon e eu pedi para usar e tentar aprender a fotografar. Voltando da escola, parava e registava imagens, sempre com atenção à natureza e às pessoas que encontrava. E, desde cedo, nesse processo, eu sentia incomodo com o conceito de “feio” e de “bonito”. As pessoas acham que shopping é “bonito” e o mundo de mato é “feio”. Essa é a tendência. Detesto isso. Detesto “bom gosto” e fujo do que é chamado de tendência. O que é vejo e o que faço é um cinema mais conectado à terra, e que as minhas personagens são como pedras. Eles se rebelam.

Que filme serviu de gatilho para esse seu processo de alumbramento com o cinema?

Havia uma videolocadora (clube de vídeo) perto do restaurante em que meu pai trabalhava. Via muita coisa. Um dia, descobri “2001”, de Kubrick. Aquilo chocou-me. Ali, descobri como o abstrato pode expressar algo com que você se identifique.

É unânime a surpresa positiva da crítica, no Brasil e no mundo, diante do que você extrai de um ator icónico como Antonio Pitanga, um divo do Cinema Novo, associado à estética de Glauber Rocha. Como foi esse processo em “Casa de Antiguidades”?

Eu não poderia utilizar um ator daquela maturidade como um corpo exótico. Queria ele a pensar a cena, imaginando aquele mundo. Com poucos gestos, ele revelou uma força colossal no brilho do seu olhar.

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