San Sebastián rediscute o olhar afetuoso de Claude Sautet

(Fotos: Divulgação)

Depois de celebrar o melodrama do mexicano Roberto Gavaldón (1909-1986) e de abrir os arquivos do cinema sul-coreano clássico, o espaço de retrospectivas do Festival de San Sebastián escolheu o realizador francês Claude Sautet (1924-2000) como homenageado da sua 70ª edição, festejando o romantismo. São 13 títulos que integram a seleção arquitetada pelo crítico Quim Casas a partir das propostas de revisão estética do passado do audiovisual propostas pelo diretor artístico do evento, José Luis Rebordinos. E uma obra como a de Sautet, iniciada em 1951 e coroada com o culto em torno de “As Coisas da Vida” (“Les Choses De La Vie”, 1970), graças ao bem-querer de Roy Schneider (1938-1982) por Michel Piccoli (1925-2020), só poderia ser resgatada se contextualizada a partir do seu maior trunfo: a delicadeza. Leves, as suas longas-metragens estruturaram uma espécie de crónica afetiva de uma França que se pautava pela lealdade nas relações, fosse na cama, fosse nas ruas.  

Sautet é um dos que gostamos muito e sentimos que é importante ver o seu trabalho retornar ao grande ecrã”, disse Rebordinos ao C7nema, comemorando as lotações esgotadas de filmes como “L’Arme à Gauche” (1965) e “César et Rosalie” (1972). Todas as cópias da mostra dedicada ao cineasta são DCPs restaurados pelo Studiocanal e por outras companhias. O ciclo só não traz uma curta-metragem perdida (“We Won’t Go To The Woods Anymore”) e “Classes Tous Risques”, que não pode ser exibido devido a problemas legais.

Sautet tem um estilo diferente de outros cineastas franceses ‘comerciais’ dos anos 1970, como Claude Lelouch ou Bertrand Blier”, avalia Casas. “A cumplicidade que ele estabeleceu com Romy Schneider, Michel Piccoli e Yves Montand é fundamental para o cinema que fez. Ele escreveu personagens para Romy ou contou com ela quando não conseguiu outras atrizes. E, com Sautet, Romy conseguiu as suas melhores atuações”.

Faz parte do ciclo o aclamado “Un Coeur En Hiver” (“Um Coração no Inverno”), brindado com cinco prémios no Festival de Veneza de 1992. “O papel estético dessa retrospectiva é recuperar um cineasta europeu que teve sucesso na Espanha nos anos 1970, começando com ‘Les Choses De La Vie’, mas cujos filmes realizados ao longo dos anos 1980 permaneceram inéditos comercialmente por cá”, diz Casas. “É uma forma de reabrir o debate crítico sobre o seu trabalho, uma vez que sempre foi altamente considerado pela Positif, mas duramente questionado pela Cahiers du Cinéma. Ele surge com a Nouvelle Vague, e nunca saberemos o que teria acontecido se ele tivesse sido mais influenciado pelo estilo da sua primeira longa-metragem autoral, o ‘Class Tous Risques’, e como seria a sua obra se o fizesse”.

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