Ao longo das suas sete décadas de existência e de triagem de vozes autorais, San Sebastián já abriu as portas (e as telas) do seu festival anual para Cuba muitas vezes, sobretudo quando Fidel Castro (1926-2016) fez da Ilha, como o país é chamado, um galhardete vivo da luta de classes. Por lá passaram grandes estrelas audiovisuais do Caribe, que teve em Tomás Gutiérrez Alea (1928–1996), conhecido como Titón, o seu maior criador, à força de filmes de culto como “Histórias de la Revolución”, em 1960, e “Las 12 Sillas”, em 1962.

Este ano, há um par de longas-metragens gestadas a partir de Havana na programação do certame do norte da Espanha, ambos na seção Horizotes Latinos: o documentário “El Caso Padilla”, de Pavel Giroud, e a ficção “Vicenta B.”, de Carlos Lechuga.
Giroud reconstrói os bastidores da prisão do poeta Heberto Padilla (1932-2000), desencantado com a influência da URSS sobre a sua pátria. Lechuga (que dispara como favorito a prémios na seção) celebra a tradição da religiosidade afro-americana narrando o périplo de uma vidente, abalada pela distância do o filho, para recuperar a clarividência.
“Durante muito tempo, a representação religiosa no nosso cinema caiu numa dimensão folclórica caricata, com pessoas a sacrificar galinhas ou cabritos, pelo facto de a nossa intelectualidade ter procurado uma distância de certos valores populares, como a fé”, explica Lechuga, ao C7nema, abrindo uma problemática sobre a atual situação de Cuba no cinema. “É mais fácil encontrar ‘Batman’ nas nossas salas de exibição que os nossos filmes”.
Em 2021, Cuba destacou-se no circuito dos festivais com “Corazón Azul”, um filme de ficção científica dirigido por Miguel Coyula. Em 2017, um dos fenómenos cinematográficos cubanos, “Últimos Dias em Havana”, de Fernando Pérez (que está finalizando “Riquimbili o El mundo de Nelsito”), brilhou na Europa, a partir da Berlinale.
“O cinema está em crise em todo o mundo, mas o problema em Cuba é que as coproduções que fazíamos diminuíram e, hoje, a nossa produção beira cinco longas-metragens por ano, dos quais só duas são lançadas comercialmente. O restante é parte de uma propaganda do regime”, afirma Lechuga. “O governo prefere os Guardiões da Galáxia do que filmes que denunciem a nossa realidade”.

