Ao lado do Kursaal, o centro nervoso do Festival de San Sebastián, existe uma óptica, famosa na Península Ibérica pela boa qualidade da armação dos óculos, que escolheu um quadro com o rosto de David Cronenberg como decoração. Existem imagens do cineasta do Canadá por todos os lados do evento, sobretudo entre os títulos à venda nas prateleiras de Cinema da Hontza, a livraria mais famosa da cidade, no norte da Espanha. “Cronenberg Por Cronenberg” (Editorial El Cuenco de Plata) e a colectânea “Videodrome – La Distopía Según David Cronenberg” (publicado pela Asociación Shangrila Textos Aparte) são alguns deles, além do romance “Consumidos” (Editorial Anagrama), lançado pelo cineasta. Toda essa adoração se integra à homenagem que o realizador de “Eastern Promises” (2007) e “The Fly” (1983) vai receber nesta terça-feira, com a conquista do Prémio Donostia, em homenagem aos 56 anos da sua trajetória na realização. Hoje dedicado ao projeto sobrenatural “Shrouds”, com Vincent Cassel, ele vai exibir “Crimes of the Future” na maratona cinéfila espanhola.

Apesar de não ter sido premiado na sua passagem por Cannes, onde parte da plateia deixou a projeção incomodada com a representação da fisiologia humana, “Crimes do Futuro” teve um lançamento comercial nas Américas e na Europa bem restrito (em Portugal chega aos cinemas em novembro), cavando espaço para a sua estreia no streaming, via MUBI. Ainda assim, transformou-se num filme de culto e periga entrar nas listas de melhor filme de 2022 da crítica internacional.
“Há dois verbos que desconheço: ‘Envelhecer’ e ‘Morrer’. A morte acontece quando tiras uma foto de um objeto, de uma pessoa. Aquela imortalização, num clique, é a centelha da nossa angústia diante a finitude. A velhice é um sinal do corpo. E é do corpo que partem todas as verdades”, disse Cronenberg ao C7nema em Cannes. “Criamos imagens como maneira de encapsular o Tempo, mas este age sobre os corpos num avanço que não pode ser paralisado”.
Embalado numa serena banda-sonora de Howard Shore, similar a um mantra, “Crimes of the Future” faz jus à toda a expectativa que o cercou na Croisette, onde lutou pela Palma de Ouro. Foi o espectáculo autoral mais radical de Cannes. É um filme de uma dramaturgia intimista e de uma riqueza inestimável no seu reflexo das angústias que movem o mundo em 2022. No seu guião filosófico, filmado em Atenas, encontramos o abandono gradual do toque e do contacto físico; a radical espetacularização das opiniões; identidades performáticas; doenças sistémicas; e um conceito brilhante: “o design do tumor”, que sugere o crescimento desenfreado de ideias comatosas. Somem a isso um Viggo Mortensen em estado de graça.
Coroando tudo, há o facto de Cronenberg estampar a sua marca venérea, intestinal, a cada plano, sem abrir mão, em algum momentos, dos códigos de género da ficção científica.
Na sua tenebrosa projeção do Amanhã, o filme de Cronenberg regista o fracasso do projeto humanista que pretendia gerar harmonia entre as civilizações. No filme, à medida que a espécie humana se adapta a um ambiente sintético, o corpo passa por novas mutações. Essa é a realidade de Saul Tenser (papel de Viggo), artista performático célebre, apaixonado pela sua parceira, Caprice (Léa Seydoux, igualmente potente). Ele faz shows públicos das suas cirurgias de órgãos, em performances de vanguarda. Porém, algo nessa rotina vai mudar quando Timlin (Kristen Stewart), uma investigadora do Registo Nacional de Órgãos, passa a seguir obsessivamente os seus movimentos, esbanjando desejo por Saul e pelos seus métodos de auto-análise. Há, ainda, uma espécie de investigador, encarnado por Welket Bungué, que carrega o filme com uma carga de mistério. Vale especial aplauso o guarda-roupa, em especial o traje à la Darth Vader de Saul.
“Estive cercado de grandes estrelas com um nível de atuação muito elevado neste trabalho com o David, que não exigia de mim o falar na língua portuguesa”, disse Welket via Zoom ao C7. “Cronenberg é um realizador mundialmente respeitado por ter criado uma linguagem própria, num discurso pautado pelo corpo. Nesse filme, “Crimes of the Future”, ele aborda, a partir de uma leitura intelectualizada, a impermanência e o fenecer”.

Com “Crimes of the Future”, o cinema mundial entrou num casulo onde revê as microfísicas do absurdo e do abandono dos nossos tempos, aplaudindo o nascimento de um filme seminal. Há uma sequência nele que se candidata à posteridade: a dança de um performer cego e de boca costurada que tem uma profusão de orelhas presas ao corpo. É um sinal da nossa incapacidade corrente de ouvir o mundo e de escutar o outro.
San Sebastián mima Cronenberg em gratidão com esse gesto de autor.

