Issa Rae é uma jóia, com muitos quilates. Predicados comparáveis a Phoebe Waller-Bridge. As características de ambas são muito semelhantes: mulheres emancipadas, repletas de humor e com a genuína capacidade de olharem para as suas próprias vidas e brincarem com elas. Ambas têm a capacidade de usar os contextos que as rodeiam e inspirarem-se nos detalhes mais incríveis.
Foi em 2021, com a série YouTube “Awkward Black Girl” que Rae chamou a atenção do público e da crítica. A série online segue a vida de J (interpretada por Rae) e as suas interações com colegas, amigos e relações amorosas. A crónica é contada através de uma narrativa na primeira pessoa. Em 2013, “Awkward Black Girl” venceu o prémio Shorty de Melhor Programa Web.
Em 2013, Issa Rae avança com um outro projeto. Em parceria com o co-criador Larry Wilmore, criam – para a HBO – um episódio piloto da série que viria a ser designada de “Insecure”.
“Insecure” foi estruturada para ser muito semelhante à série que Rae desenvolveu no YouTube: as experiências vivenciais de uma mulher afro-americana contemporânea. O episódio piloto foi bem recebido pela HBO, que adquiriu o projeto em 2015 e que posteriormente deu luz verde para a produção de uma temporada completa.

Assim, em 2016, o mundo é apresentado a Issa Dee (a Issa Rae), à sua melhor amiga Molly (Yvonne Orji), a outras duas amigas muito próximas: Kelli, (Natasha Rothwell) e Tiffany (Amanda Seales) e Martin (Jay Ellis). Cinco personagens base de toda a história, inseridas num elenco 99% negro.
A história de “Insecure” e das suas cinco temporadas é sempre contada na perspetiva da experiência feminina negra das duas protagonistas, Issa e Molly, melhores amigas desde a faculdade. Com quase 30 anos, a vida destas mulheres é analisada através das suas experiências pessoais e profissionais.
Ao longo dos 37 episódios, as duas mulheres partilham um vínculo extremamente intimo mas nem sempre linear. Enquanto enfrentam lutas internas, a sua relação de afeição é várias vezes abalada.
Entre relações amorosas, insucessos e sucessos profissionais, a relação de Issa e Molly sofre mutações que as afastam, mas que as voltam sempre a unir, tal como a distância e as reconciliações de Issa ao seu eterno namorado / ex-namorado / namorado, Martin. O cenário da série é sempre abrilhantado pela comunidade afro-americana. Elemento central da série e dos seus bastidores.

Assim, a maior importância de “Insecure”, além das relações de amizade / amor entre as várias personagens é a sua cultura. Todos os episódios são uma ode à cultura afro-americana, elemento que ao longo das temporadas vai crescendo e tornando-se a marca central da série HBO. Nas últimas duas temporadas a protagonista Issa, entra no mundo dos negócios, criando uma empresa promotora que tem como objetivo lançar e fomentar a arte, a música, a moda, etc. criada – por negros – nas áreas suburbanas de Los Angeles. O caminho não foi fácil, nem na ficção nem na vida real.
Quando terminarem de ver a quinta e ultima temporada de “Insecure”, é totalmente aconselhável verem o documentário “Insecure: The End”, também ele disponível na HBO Portugal.
Issa Rae, a criadora e autora deste auspicioso projeto sempre procurou mostrar na série a realidade da comunidade afro-americana: promoveu artistas e negócios que realmente existem e com isso foi acusada de gentrificação. Isto da fama tem os seus problemas. O publico fã da série invadiu as áreas, sobretudo Inglewood, foi aos mesmos restaurantes e bares que as personagens da série e partilharam nas redes sociais o bom e o mau que encontraram. Este aspeto promoveu algum mau estar entre a população, que chegou mesmo a acusar a produção de promover gentrificação.
Issa Rae teve que aprender a viver com este outro lado da fama mas nunca descorou do seu intuito maior. Nos bastidores da série, a Rae e Larry Wilmore contrataram realizadores, argumentistas, diretores de fotografia, figurinistas, estilistas, cabeleireiros, maquilhadores, etc. negros. Usaram compositores e músicos negros. Em vez de criarem cenários fictícios, filmaram nas ruas de várias áreas de Los Angeles, algumas famosas por não serem as mais pacíficas da área.
A herança de “Insecure” é imensa. Não é uma série apenas sobre a luta contemporânea de se ser uma mulher afro-americana e dos desafios destas na época contemporânea, é uma série sobre a cultura afro-americana no seu todo, sobre os problemas e as lutas que esta sociedade trava diariamente mas é sobretudo uma janela imensa e brilhante que impulsiona e expõe o talento gigante que há nesta parte ilustre da cultura americana.


