Conhecido do público após dar nas vistas em 120 batimentos por minuto (2017), de Robin Campillo, e Anatomia de uma Queda (2023), de Justine Triet, o ator francês Antoine Reinartz marcou presença em Portugal na Festa do Cinema Francês através de dois projetos: o filme La Troisième Nuit, de Daniel Auteuil, onde interpreta Gilbert Lesage, um funcionário do Serviço Social dos Estrangeiros que em 1942 salvou crianças judias detidas pelos nazis; e Bataclan: Os Que Viveram, uma minissérie de Jean-Xavier de Lestrade, onde dá corpo a Grégory, um dos sete reféns do Bataclan que formariam o grupo conhecido como “Potages” após os atentados de 13 de novembro de 2015.
Com a estreia desta série já marcada em Portugal para 12 de outubro, às 22h10, no TVCine Edition e no TVCine+, o C7nema esteve à conversa com Antoine Reinartz sobre o projeto, o seu percurso como ator e os desafios que o cinema francês enfrenta atualmente.

Em projetos como La Troisième Nuit e Bataclan: Os Que Viveram, interpreta personagens baseadas em pessoas reais. Onde encontra a liberdade enquanto ator perante figuras que realmente existiram?
Há muitas limitações, mas a ideia é aproximarmo-nos da personagem e, ao mesmo tempo, saber que temos de fazer escolhas.
Mesmo sendo personagens reais, não sei exatamente que emoção sentiram num determinado momento, mesmo sabendo as coisas que foram ditas. Em Bataclan: Os Que Viveram, por exemplo, existem palavras que foram ditas. Por isso, existe um enquadramento muito limitado.
Mas chega um momento em que temos de passar por nós próprios e pensar: eu sei tudo isto, o que teria feito? Como teria pensado? Qual é a emoção que me parece mais justa, menos esperada, menos convencional? Tenho sempre muito medo do convencional. Mesmo muito.
Sente uma pressão adicional por serem personagens reais, uma necessidade de ser justo com os retratados?
Ainda mais quando são pessoas que ainda estão vivas. No caso de Gilbert Lesage [de La Troisième Nuit], não. No caso de Grégory, em Bataclan: Os Que Viveram, sei que ele vai ver a série, que a mãe vai vê-la, assim como as pessoas próximas dele. E, sobretudo, todos os reféns já viram a série. Não quero trair a pessoa.
Além disso, estamos mesmo no campo da emoção, do trauma deles. Não quero trair os seus sentimentos, trair aquilo por que passaram, chorar simplesmente porque pensamos que aquilo deve ter sido difícil. Quero ser fiel ao que sentiram.
Essa justeza não é necessariamente fácil de encontrar. Exige que tenhamos cuidado para não cair em preconceitos.
Como foi a noite de 13 de novembro de 2015, a noite dos atentados do Bataclan, para si?
Vivia mesmo ao lado de onde tudo aconteceu e houve pessoas que se refugiaram na minha casa. Estava a organizar um evento de street dance, por isso ficámos todos fechados lá dentro. Naquele momento, o que senti foi uma enorme incompreensão. Não percebemos imediatamente o que aquele ataque representava.
Os meus vizinhos telefonaram-me e disseram: “Tem cuidado quando voltares, há pessoas a disparar com armas na rua.” Não havia muita informação. Tudo era um pouco estranho, absurdo.
Tenho a impressão de que o choque foi muito forte e que se espalhou por tudo. De certa maneira, ainda hoje está presente. Todo aquele período continua a infiltrar-se muito fortemente na nossa sociedade, nas nossas vidas.
Mesmo sem darmos conta, isso está nas nossas representações e nos nossos medos.
Antes de fazer a série, sabia que existia o grupo dos “Potages”?
De maneira nenhuma. Nem sequer sabia que tinha havido reféns. Para mim, tinha sido simplesmente uma matança e tinha durado meia hora, ou dez minutos. Portanto, não sabia nada.
E confesso que ler todos aqueles testemunhos foi uma das coisas mais difíceis. Acho que há qualquer coisa que nos faz sentir muito, muito próximos. São parisienses e aquilo destruiu-me. Achei tudo muito duro.

Como escolhe hoje um papel? O que o atrai numa personagem?
Gosto de chegar um pouco livre de tudo e tento não fazer com que os papéis respondam demasiado uns aos outros.
Por exemplo, depois de fazer a série sobre o Bataclan, hesitei em fazer de Samuel Paty [em L’Abandon]. Mas, estranhamente, era um papel que não tinha nada a ver com este.
Também tento fazer com que os papéis dialoguem entre si, sem se contaminarem. E, na verdade, tenho sobretudo vontade de aventuras. Agora vou para a Namíbia fazer um filme com um realizador austríaco.
Gosta de projetos que representem um desafio?
Sim, mas um desafio em que sinta que é possível. Quer dizer, em que saiba em que mãos estou. É difícil porque, na realidade, não temos muita margem de ação sobre o realizador. Posso opor-me um pouco, mudar algumas coisas, mas, se o realizador for muito obstinado, não conseguirei fazer nada. Portanto, é realmente importante escolher bem nas mãos de quem nos colocamos.
Foi com 120 battements par minute (2017) que algo mudou a sua relação com o cinema?
Sim, foi o meu primeiro filme e mudou realmente tudo. Já tinha feito pequenos filmes sem financiamento, filmes de estudantes… Mas aquele foi o meu primeiro filme.
Porque vinha do teatro?
Sim.
E começar logo com 120 battements par minute…
O que foi bom é que ele me levou depois a outras coisas. Como o filme faz parte de um determinado tipo de cinema, acaba por nos conduzir para o mesmo tipo de cinema.
Fiz 120 batimentos por minuto (2017), depois trabalhei com Arnaud Desplechin em Crime em Roubaix (2019) e, a seguir, com Justine Triet. São um pouco famílias de cinema, mesmo que eles não se conheçam necessariamente entre si. Mas é o tipo de cinema que inspira os cineastas de que gosto.
O filme de Justine Triet, Anatomia de uma Queda (2023), teve uma dimensão de promoção, marketing e campanha diferente. Fez parte da campanha para os Óscares?
Sim.



Como foi fazer um pouco de marketing e “política” nos EUA nesse contexto?
O que era bonito era que os americanos ligados ao cinema tinham visto o filme e havia uma verdadeira curiosidade.
Nesse filme eu estava careca, não tinha cabelo, mas nos Óscares já tinha cabelo outra vez. Portanto, nesses encontros ninguém me reconhecia. Estava lá a Julianne Moore e tudo isso, e eu dizia: “Olá, sou eu…” Estava lá o Tom Hanks, etc., mas eles não sabiam quem eu era. Foi um pouco frustrante (risos). Foi uma loucura. Quero voltar a viver algo assim.
E foi bonito porque tudo isto aconteceu com um filme de que gosto. E havia formas muito diferentes de cada país se apropriar do filme. Gosto disso. Até fui à Tailândia apresentar o filme. É maravilhoso descobrir a forma como cada país se relaciona com o cinema. É ótimo.
Falou de um novo projeto. Pode contar um pouco sobre aquilo que vai filmar na Namíbia?
Sim, tenho um projeto na Namíbia. Somos duas pessoas no deserto. O nosso jipe avaria. E vamos filmar com serpentes, escorpiões e macacos. Os animais serão bem tratados. Os atores, não sei (risos).
É um filme de Wolfgang Fischer, que é austríaco. Será uma grande aventura.

Fala-se muito hoje dos problemas do cinema com o streaming e outras transformações. Ao mesmo tempo, em França, existe toda a questão do financiamento, do CNC e do Canal+. Acha que o cinema francês, tal como o conhecemos hoje, está em perigo?
Sim. Temos uma indústria que é realmente muito, muito poderosa, mas que depende de algumas coisas.
Hoje não existe uma alternativa ao Canal+. Portanto, se o Canal+ cair, o cinema francês cai. E, se o CNC ou o audiovisual público caírem, será a mesma coisa.
Há partidos políticos que querem pôr em causa o CNC, ainda mais neste momento, e é uma loucura porque tudo pode desmoronar-se em dois dias. Parece que, sempre que saímos de uma crise e temos a impressão de que tudo se estabilizou, surge outra coisa qualquer como risco. Cada dia é uma luta.
E, quando vemos aquilo que aconteceu em Itália, por exemplo, o cinema italiano desmoronou-se. Penso que, nos anos 1960, o cinema finlandês era enorme, depois houve um estúdio que fechou e deixou praticamente de haver cinema. Temos a impressão de que, em França, tudo isto está garantido, mas depende sempre de algumas coisas.
Pensa um dia trabalhar como realizador ou encenador?
Para o cinema, sim, já pensei nisso. Acho a escrita muito, muito difícil. E, neste momento, tenho grandes papéis como ator e tento estar à altura do desafio. Concentro-me em poucas coisas porque não consigo fazer tudo.
Mas, um dia, espero encontrar a coragem. É algo que exige muita energia.






