Jordan Firstman apresenta “Club Kid” no Festival do Rio: “Existe uma espécie de coragem em ser piegas”

Estreante na realização de longas-metragens, mas celebrado como se fosse um cineasta com muitos anos de experiência, Jordan Firstman acaba de chegar ao Brasil para apresentar Club Kid, um dos filmes mais falados da temporada internacional, numa sessão no Odeon que encerra a programação internacional do Festival do Rio.

Na trama, Peter (Firstman) é um promotor da noite queer de Nova Iorque que vive entre festas, drogas, sexo e noites sem dormir. Tudo muda com a chegada de Arlo (Reggie Absolom), o filho de dez anos que nem sabia ter. Após a morte da mãe do rapaz, Peter vê-se obrigado a enfrentar a paternidade e os limites de uma vida construída em torno dos excessos.

Produzido pela equipa por trás de Anora, Red Rocket e Pet Shop Days, Club Kid chegou a Cannes cercado de expectativas e foi ovacionado depois da estreia na secção Un Certain Regard. A repercussão desencadeou uma disputa entre distribuidoras como A24, Netflix, Searchlight, Focus Features e Mubi. Poucos dias depois, a A24 adquiriu os direitos mundiais do filme por 17 milhões de dólares.

Depois de conhecer a Praia de Copacabana e experimentar uma caipirinha de tangerina, Firstman conversou com o C7nema sobre as escolhas estéticas e narrativas da sua estreia nas longas-metragens. O cineasta, que também protagoniza a história, falou ainda da intimidade com a noite clubber nova-iorquina e da necessidade de recuperar uma sinceridade emocional numa geração que teme parecer ridícula.

Club Kid terá mais duas sessões neste domingo: às 14h45, no Estação Claro Gávea, e às 18h45, no Cinesystem Belas Artes Botafogo.

Escreveu, realizou e protagonizou Club Kid. Como foi conciliar essas funções num filme que exige uma entrega emocional tão grande?

Vejo tudo como fazer cinema: a escrita, a representação e a realização. Tento não separar essas coisas, e tudo acabou por convergir para o projeto. Tecnicamente, precisamos de estar completamente presentes na cena e, ao mesmo tempo, conseguir observá-la como se estivéssemos no fundo da sala. É algo para o qual temos de treinar a mente: saber exatamente o que precisa de mudar, mesmo estando dentro da cena.

Acho que representar e realizar ao mesmo tempo pode até ser uma vantagem. A maioria dos realizadores fica diante de um monitor e existe uma camada entre eles e os atores. Eu estava a olhar diretamente para os rostos do elenco e conseguia perceber como a cena se vivia por dentro. Era assim que queria que o filme funcionasse: de dentro para fora. Por vezes foi muito exigente; noutras, pareceu completamente natural.

E como encontrou Reggie Absolom, o ator que interpreta Arlo?

Soube que tinha encontrado o miúdo certo no instante em que vi a fotografia dele, antes mesmo de assistir à audição. Pensei: “É esta a cara para a qual tenho estado a escrever”. Depois vi a gravação e ele era tão natural que concluí que nenhuma outra criança poderia fazer aquilo. Tivemos muita sorte.

A vida noturna de Nova Iorque é um elemento central do filme e algumas sequências foram rodadas em festas reais. Por que era importante entrar nesses espaços em vez de os recriar?

Todas aquelas festas eram lugares onde eu já tinha estado. Conhecia aquele universo. Havia um after que começava por volta das quatro da manhã e continuava até o sol nascer, num estúdio de design em Nova Iorque. Muitos amigos publicavam imagens de lá, com a luz a entrar no espaço, e aquilo estava sempre no meu painel de referências. Pensava: “Quero uma imagem que se pareça com isto”.

Então ocorreu-me que podia simplesmente perguntar aos organizadores se nos deixavam filmar na festa verdadeira, já que os conhecia. Aquela cena do after, com a luz a entrar, foi filmada durante uma festa que estava realmente a decorrer. As pessoas estavam a fazer aquilo que normalmente faziam e nós estávamos lá com uma equipa. Não sabíamos o que iria acontecer nem se conseguiríamos alguma coisa. Entrámos nesses ambientes conscientes de que podíamos encontrar magia ou não conseguir absolutamente nada. Devo muito à comunidade queer da noite nova-iorquina por nos ter permitido entrar nesses espaços.

E por que nunca colocou verdadeiramente em causa a opção pelos 35 mm, apesar das limitações financeiras?

São lugares difíceis de aceder até para quem os frequenta. Portanto, chegar com uma câmara de 35 mm é outra história. Quanto à película, nunca houve outra possibilidade. Todos os filmes que usei como referência foram rodados em 35 mm. Chegámos a discutir a hipótese de filmar em 16 mm, mas respondi: “Não é este filme”.

Abdiquei dos meus honorários de realização porque me diziam que não havia dinheiro suficiente. Eu sabia que nenhuma quantia valeria a pena se não pudesse realizar a minha primeira longa-metragem da maneira como a imaginava. Pedimos, emprestámos e roubámos. A Kodak foi incrível e ofereceu-nos bastante película. Tenho até uma história que ainda não tinha contado em entrevistas…

Qual?

Recebemos película que The Odyssey não utilizou. A Kodak enviou-nos as sobras. Gosto de contar isto aos realizadores mais jovens porque os produtores podem dizer que determinada escolha é demasiado cara ou demora demasiado tempo. Há sempre uma maneira. Filmar em película não retirou nada ao filme; só lhe acrescentou imagens e texturas incríveis.

Apesar de toda a energia noturna e do humor, Club Kid tem uma vulnerabilidade emocional muito forte. As personagens parecem temer o sentimentalismo, como se dizer algo sincero fosse motivo de vergonha. Por que é tão difícil assumir os próprios sentimentos hoje?

Acho que é uma questão geracional. Os millennials e a Geração Z somos uma espécie de polícia do cringe. Isso impede-nos muitas vezes de criar ligações genuínas. Não queremos parecer embaraçosos porque demonstrar emoções, aparentemente, é embaraçoso.

Tive de lutar muito comigo próprio para colocar algumas coisas no papel. Ficava a pensar: “Isto é cringe? Isto é piegas?”. E, às vezes, é mesmo. Mas resistir à vontade de tornar tudo mais descolado acabou por tornar o filme mais interessante, precisamente porque mostra o coração sem vergonha. Ninguém está realmente a fazer isso. Acho que as pessoas não se sentem suficientemente confortáveis para assumir esse risco.

Existe uma espécie de coragem em ser piegas. Acredito que tenho elementos suficientemente descolados no filme — o gosto musical, a atmosfera, as referências —, mas por trás disso estão as emoções. É como quando começamos a apaixonar-nos por alguém e queremos dizer alguma coisa sentimental. Quando estamos a sós com essa pessoa, a experiência é diferente. Queria que Club Kid tivesse a sensação de uma história de amor vivida a dois.

Club Kid chega num momento em que a sobrevivência das salas de cinema é frequentemente posta em causa perante o streaming, os telemóveis e as redes sociais. Está otimista em relação ao futuro da experiência cinematográfica?

Sinto que alguma coisa mudou muito este ano. A bilheteira tem sido incrível e acho que a Geração Z alterou esse cenário. Os jovens estão realmente a ir ao cinema. Vi uma estatística dos Estados Unidos que dizia que cerca de 85% do público que frequenta as salas pertence à Geração Z. Isso dá-me muita esperança. Eles querem boas histórias, filmes bem construídos e têm padrões elevados.

Também acho que estamos todos muito cansados dos telemóveis. Tenho vontade de atirar o meu para o outro lado da sala sempre que lhe pego. Nada no TikTok me diz grande coisa; tudo parece aborrecido. Por isso, a possibilidade de viver uma experiência presencial e comunitária é tão importante.

Club Kid é um filme que funciona muito bem quando visto em comunidade, porque fala sobre pessoas que querem criar ligações. Acho que as pessoas desejam experiências reais e presenciais, arte que as reúna. Estou bastante esperançoso de que o público queira os filmes certos.

A questão é saber se as grandes empresas vão acompanhar essa vontade. Mas o dinheiro fala. Quando filmes como Obsession e Backrooms encontram público, os estúdios prestam atenção. Se houver dinheiro envolvido, vão seguir esse caminho.

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